Aprontar-se

Eu soube sobre ontem a noite. Você pode me mostrar? Seu braço, rígido como uma ferramenta incompreensível na estante branca, perto da enciclopédia ilustrada Colorama, antigona, papel couché. Pilhas de pastas. Esperança de capturar peixes para alguma refeição com caldos. De verbete em verbete, de silêncio em silêncio, pequenos sorrisos pra dizer como a gente está pensando a mesma coisa. Um cesto de laranjas rolam pelo chão do supermercado, as prateleiras fazendo festa. É lindo, é maravilhoso e por algum motivo apavoro-me com a continuação da cena.

Alguém que pegou uma rua errada, – estava aqui somente colocando o lixo para fora, vendo vacas mugindo no meio da rua quando aconteceu. Eu seria demitida por você. Como ele foge? Despresenciando-se. Dois dias de silêncio e uma bomba de lucidez sobre como tem agido e se punido no último ano. Então era isso, foi isso? Seria possível que algo que não soubesse o que fazer, desfazer, como colar fragmentos tenha regido suas ações para com você mesma por tanto tempo. Até que ponto conseguimos conviver com nossos pesos. É de bom trato agir economizado muito tempo de loucura.

Não sou daqui, encontrei cabelos na pia e mau cheiro nos ralos, acho que poderia acontecer uma outra vez. É sobre mudança, sobre encontrar beleza e aceitação nos lugares fraturados, quebrados e vulneráveis. Trata-se de integração, de todos os eus do mundo natural e da tecnologia, com toda a imperfeição e insegurança e fragilidade que abraça o ser femme em uma sociedade patriarcal. Por favor, não desista.

A surpresa é que essas vozes são moduladas, estendidas no tempo e manipuladas de outra forma até se tornarem exatamente o que gostaríamos delas. Bolhas e gaguejos fazem verdades metades, atestados de boa vontade e boa ação devidamente salvos e printados, você quer ver nas mensagens, está tudo aqui. O ouvinte segue as dicas de como entender e as levar àquele exato ponto, até o sussurro final.

Então age como um tambor e um poeta. Sua história é apresentada uma palavra, ou um desenho de cada vez:  A – casa – outrora – derretida – e – areia – pousada – em – toda – parte.

Como no começo, é um choque ouvir a voz sem adornos, mas logo é seguido por fascínio, porque nada, incluindo a narrativa, é o que parece. Um amadurecer sem pressa.

 

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