na vida e no medo de sentir

Sempre sempre sempre estás viva. Vontade de comer o sol.

Começou de forma direta, depois a fome começa a se tornar cada vez mais abstrata. Isso pode trazer a ideia de que o não saber onde se está no mundo deve moldar você e tomar corpo. Até que ponto temos o poder de decidir sobre nosso estado de espírito, até que momento temos mesmo o controle sobre o que sentimos ser um ruído visual? Poder dar um corpo à ideia, não apenas um corpo arquitetônico, mas também um corpo com sangue, ar e espaço.

Eles estão claramente dizendo que, portanto, na verdade você está sob vigilância física. Pega então essa sua folha luminosa e escreve. O que o mundo faz com você, se o faz por tempo suficiente e efetivamente, você começa a fazer a si mesmo. O pensamento de família como berço de valores morais e segurança e afeto se esvazia diante da capa de revista na sexta, o telejornal no sábado e os jornais no domingo num baile envolvente e apodrecido. Eles estão pensando por nós. Esfrega os olhos e toma um gole. 

A pele das mãos está ressequida, quebradiça e feia. Olho como se me arrependesse. É um pouquinho de morte que sinto na boca, lá no fundo, quase medo de respirar. Essa sua vontade de ser mais e que ainda não foi o suficiente, ainda vai te sufocar. Ahn, que trabalho para limpar tudo, sempre penso. Podem desmembrar o corpo, deixando certas partes em locais onde provavelmente serão encontrados por urubus ou onde serão consumidos por lobos e vermes até que quase não sejam mais lembrados. Bravura dos que lutam pelo que não deve ser esquecido. A presença da pessoa não “desaparece” do mundo sensível (para onde iria?) mas permanece como uma força animadora na vastidão da paisagem, sutilmente , ao vento ou mesmo como a ira eruptiva, a ser aplacada, do vulcão. 

Os que nunca passaram por nenhuma privação real, da que dói o estômago, aquela que te turva a vista quando passa a maior parte do tempo embolado na multidão de famintos que tentam respirar e ser na penúria, negam a luz. E sordidamente calam e vulgarizam a sua voz. Nos chamam de lixo. A eles toda a ira não será castigada. Olha, minha amiga, estou aqui há tão pouco tempo e já queres saber quem sou? Pega a sua cruz de rubi que cintila no seu peito e busque não se envergonhar da sua vida.

A filosofia e a verdade não podem ganhar com paixão, violência, raiva e ressentimento. A mente firme e fixa que produz emoções pode perder a razão e resistência e quiçá a força para enfrentar o status quo com autocontrole, dignidade e convicção. Porque é tempo de se levantar sim, estender as mãos para frente, agitá-los até que se forme redemunhos de poeira vermelha e mirá-los nos olhos. 

 

“Eu não sei porque o rei é tão malvado”, disse.

Precisamos conversar.

A pausa é um luxo. A gente até tenta se distrair ao se ocupar ao máximo, mas só tenho mais perguntas passando pela minha cabeça. Eu só quero aprender. E espero que continue assim.

I just drew me.

Qualquer noite eu poderia andar e andar ao longo da estrada e ver silhuetas interessantes feitas por formas de árvore, muitas delas tão claramente definidas que conseguiriam nos persuadir a largar as armas. Estar produzindo em que se usa as próprias mãos para fazer algo provoca um produto único e imperfeito. Uma caravana de camelos que parece estar se movendo ao longo do céu. Alguém que esteja envolvido em um ofício os percebe e enquanto me perco neste pensamento, estou presa pelo outro lado da fronteira e é lá que em meu coração espero viver. Como poderíamos quando esquecemos, de fato, de onde viemos? Esses demônios, eles não vão a lugar nenhum.

Porque naquele lugar havia névoa, pombas, luz do sol, sujeira de cobre, lua – tudo pertencia aos homens que tinham as armas. Vez ou outra, em um raro e arrebatador lampejo, a cortina de nossos preconceitos se eleva e somos capazes de ver e experimentar. Temos que rever todo e qualquer objeto em que nossa atenção se prende, veja lá que cada coisa que preconcebemos nos cega para o que realmente ela é.

Onde encontramos nosso lugar sabendo que as oscilações da nossa desintegração por pertencer a um mundo cada vez mais caótico e violento podem nos distrair? Um borrão pode salvar o mundo.

Toque as estrelas, sinta do que somos feitos.
Há algo impressionante nisso – e é verdade. Isso soa verdadeiro para mim. Onde estamos mais profundamente feridos é onde estamos mais profundamente dotados, estarmos exilados no lugar que a gente pertence. Paredes, munição – funcionam. Por um tempo.

Mesmo que você olhe a previsão do tempo, está chovendo o tempo todo

Já se passou uma semana desde que voltei.

Que o habitável fosse também o fazer dos dias. Foi cedo e Raku ainda estava na chuva. Dava pra ver o sossego na reunião depois de muito tempo, os chás ajudaram, o escutar ajudou. Muito obrigada por me entreter tanto, eu tentei isso diariamente e esperei ansiosamente por hoje, e consegui um bom trabalho.

Uma história que não tem nada de muito interessante para falar e nem que valha a pena se relacionar. Procuramos alguma sombra como fonte de força e calma, como se não soubéssemos da luz do sol. A gente pode até ver, se beneficiar, mas é como se não estivesse lá, como se não fosse. Quem me dera poder estar mais perto num dia como o de hoje.  Mas mesmo assim, nossos sonhos, eu gostaria de ajudar. Você não devia fazer isso sozinha, nenhum de nós deveria. Eu sinto saudades de ser um pedaço de você. I miss you.

Dois degraus, cozinha, fogão, xícaras, olhos fechados suspirando. Amor, bom tempo, tempo mudado, tempo demorado. O humor negro da burocracia sem fim – são todos forrageiros a serem digeridos e ruminados por uns dias, quiçá reste-nos alguma alma. Separados levaram-me ao lugar onde eu queria ter desejado estar, barro e fogo lá fora já são parte da paisagem, esse é o cheiro de casa agora. Agradeço muito a vista desse mundo daqui. Eu gosto quando você me toca. Quero que nunca acabe, que o peso, os dedos, a força, o eriçar esteja sempre ali. Liquidificar ou ser extremamente eficaz em relação à sua vulnerabilidade, nível muito pessoal pela primeira vez.

Você parece cansada. estou cansada de me sentir cansada exatamente é o que eu sinto  estou cansada também tudo o que eu queria hoje era descansar posso um pouco pensar poder conseguir estar à descanso?

Tem o direito de estar aliviada. Tem até o direito de estar contente.

 

Faladurias

E então você me fez uma pergunta que eu não vou esquecer: e se o adorar for capricho? A gente se esforça para perceber o que é essencial e necessário,  nos ajustando e fazendo que nosso ajuste assim  seja sentido, notado. A gente é feito de coisas penetráveis que sondam todos os recessos em nossas almas. Não gaste sua força em um vaidoso vazio.

Da varanda dá pra ver alguns telhados, podemos ver a lua subir acima das nuvens, podemos ver o céu se encher de cores quando escurece. A inconformidade é um impulso, um beliscão. Um mínimo de inconsciência é necessária para as noites que poderiam ser mais frias ou que a gente poderia estar mais juntosEnfrentar como que a uma colisão de frente e tentar nos tornar o que pensamos que somos. Seus lados obscuros e eventuais mortes são insondáveis ​​para a psique descontroladamente otimista do enlouquecido. Você tem alguém para pedir conselhos?  Mesmo que meio atravessada, como todo novo amor, a forte promessa de uma revolução será lembrada muitos anos depois.

Há noites em que você vai deitar bem e acordará pela manhã muito mal, parecendo mais que esteve em uma guerra. Em algum momento, a gente percebe que consegue deixar cada sílaba repleta de persuasão e isso pode nos levar muito longe, mesmo que cause exaustão. Primeira tarefa é essa enquanto segura minha mão: dominar o fogo. Nada poderá estar fora do ponto, um orgulho desmedido. Bem-querer. 

 

Uma vez, duas vezes, muitas vezes.

Cada

pedra com a qual ela encheu os bolsos do casaco antes de entrar no rio era uma ferramenta de memória. Precisava disso: peso e massa e volume e concreto – lembrança que  a gente pega.

Acredito que toda autoridade tem que se posicionar, que toda hierarquia é ilegítima até que se prove o contrário. Certa manhã, bem céu azul, enquanto eu lia as cartas de um poeta morto no quintal, pressinto um fragmento daquela mutualidade atômica, quem sabe. Minha visão periférica – aquela glória de instinto – me puxa para uma imagem linda: uma pequena folha vermelha cintilante girando no ar. Ela permanece suspensa lá, orbitando em um centro invisível por uma força invisível. O resultado, ao contrário do que se pudesse supor, é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Posso ver como tais causalidades imperceptíveis poderiam levar a nossa mente à superstição, poderiam levar-nos a buscar explicações em magia e poderes divinos. Mas então me aproximo e percebo uma fina teia de aranha brilhando no ar acima da folha, conspirando com a gravidade nesse movimento giratório, indiferente ao significado construído e à nossa fé.

Onde a gente termina e o resto do mundo começa, para onde vai o nosso afeto quando o destino não está mais lá e o amor, a ternura e a cumplicidade e a alegria e as risadas e o estar solto, conexões invisíveis e idéias e jeitos e cachaça? Tome uma dose e dê uma volta de bicicleta por aí. E nunca mais se esqueça de que tudo é liquefeito. Mantendo ilusões de permanência, congruência e linearidade não se vai muito longe, bem se vê. A vida se desdobra entre alguns eus estáticos e narrativas sensuais. A história não é o que aconteceu, mas o que sobrevive aos naufrágios do julgamento e do a(o)caso.

Há infinitamente muitos tipos de vidas bonitas.

 

 

garganta

Tudo. Tudo se move sobre isso.

A paz de nenhuma luta. A partir da garganta de um passarinho que não era pego, mas que nos visitava, os sons deslizavam e sangravam e recuavam, latiam, zumbiam e tremiam. Não estava errada em estar no mundo em que estava, mas bem que era a salvação da minha própria escuridão. Eu dei uma olhada e caí, agarrei e caí. I. deu uma olhada para mim e colocou os óculos quebrados, de uma perna só, escuros. O bom é aplicar disciplina com a prática o suficiente para continuar a realizar o senso de reconhecimento vazio. De uma certa forma é bem simples. Mas os sons não deixavam tudo assim.

A caminhada continuou, de mãos agarradas, em círculos, em risos frouxos, em pequenas distâncias. Uma ausência é uma abertura para uma sobreposição. Era uma solidão antiga aquela que vivi, que nada conseguia apagar e ele, percebia-se, era muito conhecedor das pessoas, dos livros, das emoções da mente e do coração. Vivia, às vezes, em uma caixa preta de memórias e perguntas sem resposta, o que era mesmo esse chão? I. tinha cuidado, uma coçadinha na orelha e depois, depois já saía e brincava. 

Não há meio caminho, meio flash de percepção, meia aliança, meia cama, meio mamão. A experiência viva e crua daquele momento de voltagem é um caminho para unir os dois. Não há entre. Esta é a alegria de ver/estar “fresco”.

Junto. Isso dá sentido à vida. E propósito. E isso incluirá dimensões externas, internas e secretas. E muito, muito mais. Mas no final será prático: haverá uma imagem. 

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Zero vírgula poucos segundos

‘deixou pitangueiras, aluguel, trepada, cama nova, porta retrato, o filme que mais tarde assistimos juntos, pode ser? a cerveja na geladeira, a formatura do afilhado que seria no dia seguinte, o próximo natal, a páscoa, o primeiro dente que o seu filho perderia, mas, que agora, por zero vírgula poucos segundos, na da. O tempo acabou.’

O tempo acabou. 

Conte-me sobre o que você está fazendo agora. O Afar é um lugar grande.

O minimalismo do trabalho miúdo e o minimalismo no uso da linguagem vêm de um lugar realmente poético, é um lugar onde a maior parte do conteúdo é meio que deixado entre as linhas. Não teria dificuldade com isso, mas também pode ser confuso, na verdade, porque esperava estar mais à margem do que parecia estar naquele momento. Eu acho que fui durante algum tempo apenas uma queimadura longa e lenta. Estava interessada em simbolismo, metáforas e narrativas, mesmo assim. As emoções estão tão próximas da superfície. A coisa mais difícil é interpretar uma pessoa viva, eu acho.

Uma declaração muito direta para uma exploração da cor preta. “Aquilo que você está sentindo é a sua vida”. 

Eu não acho que tenha lidado com algumas coisas muito bem. Se eu vou ser cega, eu preciso fazer isso funcionar, eu preciso tornar o meu corpo memória libertador. Agora paro para lembrar da minha paixão. E da minha escuridão. É uma enorme paz permitir-se ser tão vulnerável e ver que existe A humanidade em todas as esferas da sua vida. Ou casar com a pessoa que escolheu, ou morar em um certo bairro, a mudança parece enorme.

Como negar o carmim do céu quando quer anoitecer?

 

O pulmão está formado, já sabe parar de chorar

Ou engrossar o couro começa pelo pulmão.

Pode-se ficar sozinha em qualquer lugar, repetia. É difícil confessar, mas a solidão pode penetrar muito profundamente na pele, na vontade. Necessidade de pertencimento: as vozes interiores ficam mais audíveis e podemos responder mais amorosamente a outras vidas. Um pensamento estepe e, de alguma forma poético, sobre a pertença é ser a si mesma um contraponto como um átomo de vida pensante, com sentimento e sem sentimento, em meio à constelação de outros átomos [expectadora da minha própria miséria]. Frutas falsas e pedaços de queijo encharcados escorrendo pelos regos.

Uma coisa que tem sido consistente, desde aquele rubor, é que as pessoas estão nuas.

Eu transformo detalhes físicos que parecem gastos e que evocam o corpo a condição humana, enquanto permaneço essencialmente abstrata. É insano quanta merda você passa quando mulher.

Hoje é meu dia de sorte e meu corpo está completo, formado, pronto. Use-o. Seja o que for que você lamber, com certeza vai explodir hoje. O pulmão, onde você coloca seu foco, é especialmente importante. Sua vida será sobre exploração, entender as coisas erradas, rotineiramente investigar a própria identidade em um  loop de 10 minutos aparentemente sem cortes e sobre como é encharcar a área da cozinha.

Longo e quente verão construindo fogueiras, correndo na mata e ouvindo vacas na rua depois do anoitecer. E nós nadamos para perto, para a outra margem, quase sem sair do lugar. E teve a beleza de exercer o romantismo com seus convites de néon e cores nostálgicas. Estruturas sem remorso no desejo de atenção. E teve esperança e excitação nas pequenas sincronicidades.

É um bom dia para praticar.

 

Aprontar-se

Eu soube sobre ontem a noite. Você pode me mostrar? Seu braço, rígido como uma ferramenta incompreensível na estante branca, perto da enciclopédia ilustrada Colorama, antigona, papel couché. Pilhas de pastas. Esperança de capturar peixes para alguma refeição com caldos. De verbete em verbete, de silêncio em silêncio, pequenos sorrisos pra dizer como a gente está pensando a mesma coisa. Um cesto de laranjas rolam pelo chão do supermercado, as prateleiras fazendo festa. É lindo, é maravilhoso e por algum motivo apavoro-me com a continuação da cena.

Alguém que pegou uma rua errada, – estava aqui somente colocando o lixo para fora, vendo vacas mugindo no meio da rua quando aconteceu. Eu seria demitida por você. Como ele foge? Despresenciando-se. Dois dias de silêncio e uma bomba de lucidez sobre como tem agido e se punido no último ano. Então era isso, foi isso? Seria possível que algo que não soubesse o que fazer, desfazer, como colar fragmentos tenha regido suas ações para com você mesma por tanto tempo. Até que ponto conseguimos conviver com nossos pesos. É de bom trato agir economizado muito tempo de loucura.

Não sou daqui, encontrei cabelos na pia e mau cheiro nos ralos, acho que poderia acontecer uma outra vez. É sobre mudança, sobre encontrar beleza e aceitação nos lugares fraturados, quebrados e vulneráveis. Trata-se de integração, de todos os eus do mundo natural e da tecnologia, com toda a imperfeição e insegurança e fragilidade que abraça o ser femme em uma sociedade patriarcal. Por favor, não desista.

A surpresa é que essas vozes são moduladas, estendidas no tempo e manipuladas de outra forma até se tornarem exatamente o que gostaríamos delas. Bolhas e gaguejos fazem verdades metades, atestados de boa vontade e boa ação devidamente salvos e printados, você quer ver nas mensagens, está tudo aqui. O ouvinte segue as dicas de como entender e as levar àquele exato ponto, até o sussurro final.

Então age como um tambor e um poeta. Sua história é apresentada uma palavra, ou um desenho de cada vez:  A – casa – outrora – derretida – e – areia – pousada – em – toda – parte.

Como no começo, é um choque ouvir a voz sem adornos, mas logo é seguido por fascínio, porque nada, incluindo a narrativa, é o que parece. Um amadurecer sem pressa.