Faladurias

E então você me fez uma pergunta que eu não vou esquecer: e se o adorar for capricho? A gente se esforça para perceber o que é essencial e necessário,  nos ajustando e fazendo que nosso ajuste assim  seja sentido, notado. A gente é feito de coisas penetráveis que sondam todos os recessos em nossas almas. Não gaste sua força em um vaidoso vazio.

Da varanda dá pra ver alguns telhados, podemos ver a lua subir acima das nuvens, podemos ver o céu se encher de cores quando escurece. A inconformidade é um impulso, um beliscão. Um mínimo de inconsciência é necessária para as noites que poderiam ser mais frias ou que a gente poderia estar mais juntosEnfrentar como que a uma colisão de frente e tentar nos tornar o que pensamos que somos. Seus lados obscuros e eventuais mortes são insondáveis ​​para a psique descontroladamente otimista do enlouquecido. Você tem alguém para pedir conselhos?  Mesmo que meio atravessada, como todo novo amor, a forte promessa de uma revolução será lembrada muitos anos depois.

Há noites em que você vai deitar bem e acordará pela manhã muito mal, parecendo mais que esteve em uma guerra. Em algum momento, a gente percebe que consegue deixar cada sílaba repleta de persuasão e isso pode nos levar muito longe, mesmo que cause exaustão. Primeira tarefa é essa enquanto segura minha mão: dominar o fogo. Nada poderá estar fora do ponto, um orgulho desmedido. Bem-querer. 

 

garganta

Tudo. Tudo se move sobre isso.

A paz de nenhuma luta. A partir da garganta de um passarinho que não era pego, mas que nos visitava, os sons deslizavam e sangravam e recuavam, latiam, zumbiam e tremiam. Não estava errada em estar no mundo em que estava, mas bem que era a salvação da minha própria escuridão. Eu dei uma olhada e caí, agarrei e caí. I. deu uma olhada para mim e colocou os óculos quebrados, de uma perna só, escuros. O bom é aplicar disciplina com a prática o suficiente para continuar a realizar o senso de reconhecimento vazio. De uma certa forma é bem simples. Mas os sons não deixavam tudo assim.

A caminhada continuou, de mãos agarradas, em círculos, em risos frouxos, em pequenas distâncias. Uma ausência é uma abertura para uma sobreposição. Era uma solidão antiga aquela que vivi, que nada conseguia apagar e ele, percebia-se, era muito conhecedor das pessoas, dos livros, das emoções da mente e do coração. Vivia, às vezes, em uma caixa preta de memórias e perguntas sem resposta, o que era mesmo esse chão? I. tinha cuidado, uma coçadinha na orelha e depois, depois já saía e brincava. 

Não há meio caminho, meio flash de percepção, meia aliança, meia cama, meio mamão. A experiência viva e crua daquele momento de voltagem é um caminho para unir os dois. Não há entre. Esta é a alegria de ver/estar “fresco”.

Junto. Isso dá sentido à vida. E propósito. E isso incluirá dimensões externas, internas e secretas. E muito, muito mais. Mas no final será prático: haverá uma imagem. 

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Zero vírgula poucos segundos

‘deixou pitangueiras, aluguel, trepada, cama nova, porta retrato, o filme que mais tarde assistimos juntos, pode ser? a cerveja na geladeira, a formatura do afilhado que seria no dia seguinte, o próximo natal, a páscoa, o primeiro dente que o seu filho perderia, mas, que agora, por zero vírgula poucos segundos, na da. O tempo acabou.’

O tempo acabou. 

Conte-me sobre o que você está fazendo agora. O Afar é um lugar grande.

O minimalismo do trabalho miúdo e o minimalismo no uso da linguagem vêm de um lugar realmente poético, é um lugar onde a maior parte do conteúdo é meio que deixado entre as linhas. Não teria dificuldade com isso, mas também pode ser confuso, na verdade, porque esperava estar mais à margem do que parecia estar naquele momento. Eu acho que fui durante algum tempo apenas uma queimadura longa e lenta. Estava interessada em simbolismo, metáforas e narrativas, mesmo assim. As emoções estão tão próximas da superfície. A coisa mais difícil é interpretar uma pessoa viva, eu acho.

Uma declaração muito direta para uma exploração da cor preta. “Aquilo que você está sentindo é a sua vida”. 

Eu não acho que tenha lidado com algumas coisas muito bem. Se eu vou ser cega, eu preciso fazer isso funcionar, eu preciso tornar o meu corpo memória libertador. Agora paro para lembrar da minha paixão. E da minha escuridão. É uma enorme paz permitir-se ser tão vulnerável e ver que existe A humanidade em todas as esferas da sua vida. Ou casar com a pessoa que escolheu, ou morar em um certo bairro, a mudança parece enorme.

Como negar o carmim do céu quando quer anoitecer?

 

O pulmão está formado, já sabe parar de chorar

Ou engrossar o couro começa pelo pulmão.

Pode-se ficar sozinha em qualquer lugar, repetia. É difícil confessar, mas a solidão pode penetrar muito profundamente na pele, na vontade. Necessidade de pertencimento: as vozes interiores ficam mais audíveis e podemos responder mais amorosamente a outras vidas. Um pensamento estepe e, de alguma forma poético, sobre a pertença é ser a si mesma um contraponto como um átomo de vida pensante, com sentimento e sem sentimento, em meio à constelação de outros átomos [expectadora da minha própria miséria]. Frutas falsas e pedaços de queijo encharcados escorrendo pelos regos.

Uma coisa que tem sido consistente, desde aquele rubor, é que as pessoas estão nuas.

Eu transformo detalhes físicos que parecem gastos e que evocam o corpo a condição humana, enquanto permaneço essencialmente abstrata. É insano quanta merda você passa quando mulher.

Hoje é meu dia de sorte e meu corpo está completo, formado, pronto. Use-o. Seja o que for que você lamber, com certeza vai explodir hoje. O pulmão, onde você coloca seu foco, é especialmente importante. Sua vida será sobre exploração, entender as coisas erradas, rotineiramente investigar a própria identidade em um  loop de 10 minutos aparentemente sem cortes e sobre como é encharcar a área da cozinha.

Longo e quente verão construindo fogueiras, correndo na mata e ouvindo vacas na rua depois do anoitecer. E nós nadamos para perto, para a outra margem, quase sem sair do lugar. E teve a beleza de exercer o romantismo com seus convites de néon e cores nostálgicas. Estruturas sem remorso no desejo de atenção. E teve esperança e excitação nas pequenas sincronicidades.

É um bom dia para praticar.

 

Aprontar-se

Eu soube sobre ontem a noite. Você pode me mostrar? Seu braço, rígido como uma ferramenta incompreensível na estante branca, perto da enciclopédia ilustrada Colorama, antigona, papel couché. Pilhas de pastas. Esperança de capturar peixes para alguma refeição com caldos. De verbete em verbete, de silêncio em silêncio, pequenos sorrisos pra dizer como a gente está pensando a mesma coisa. Um cesto de laranjas rolam pelo chão do supermercado, as prateleiras fazendo festa. É lindo, é maravilhoso e por algum motivo apavoro-me com a continuação da cena.

Alguém que pegou uma rua errada, – estava aqui somente colocando o lixo para fora, vendo vacas mugindo no meio da rua quando aconteceu. Eu seria demitida por você. Como ele foge? Despresenciando-se. Dois dias de silêncio e uma bomba de lucidez sobre como tem agido e se punido no último ano. Então era isso, foi isso? Seria possível que algo que não soubesse o que fazer, desfazer, como colar fragmentos tenha regido suas ações para com você mesma por tanto tempo. Até que ponto conseguimos conviver com nossos pesos. É de bom trato agir economizado muito tempo de loucura.

Não sou daqui, encontrei cabelos na pia e mau cheiro nos ralos, acho que poderia acontecer uma outra vez. É sobre mudança, sobre encontrar beleza e aceitação nos lugares fraturados, quebrados e vulneráveis. Trata-se de integração, de todos os eus do mundo natural e da tecnologia, com toda a imperfeição e insegurança e fragilidade que abraça o ser femme em uma sociedade patriarcal. Por favor, não desista.

A surpresa é que essas vozes são moduladas, estendidas no tempo e manipuladas de outra forma até se tornarem exatamente o que gostaríamos delas. Bolhas e gaguejos fazem verdades metades, atestados de boa vontade e boa ação devidamente salvos e printados, você quer ver nas mensagens, está tudo aqui. O ouvinte segue as dicas de como entender e as levar àquele exato ponto, até o sussurro final.

Então age como um tambor e um poeta. Sua história é apresentada uma palavra, ou um desenho de cada vez:  A – casa – outrora – derretida – e – areia – pousada – em – toda – parte.

Como no começo, é um choque ouvir a voz sem adornos, mas logo é seguido por fascínio, porque nada, incluindo a narrativa, é o que parece. Um amadurecer sem pressa.