De onde você acha que esse desejo vinha?

 

 

Solidão é relativamente fácil, raiva, medo, são emoções fáceis de evocar imediatamente com uma imagem, uma lembrança.

Eu acho que vergonha é uma emoção muito difícil pois que, logo depois que você cai em si,  sentirá que tudo o que aconteceu com você e depois tudo lhe pertence: os bons e os maus, o êxtase, o remorso e tristeza, as pessoas e os lugares e como estava o tempo. E principalmente, a tormenta do que deveria ter feito e não fez.

É um continuum. Não vejo isso como pensar.

“Agora tenho que fazer algo novo.” De vez em quando, é claro, uma linha de investigação chega ao fim, e então você está em um período de pouso enquanto você está superando o que tem feito até o momento. A gente se faz, a gente se faz pelo menos uma parte. A gente pode se fazer inteiro?

Se a gente for ser sincero diante do que a realidade nos apresenta, o que seríamos? A humanidade alcançou um desenvolvimento tão grande – como os dispositivos móveis dignos de cenários e previsões de star treck que imaginávamos à nossa frente, logo ali ao nosso alcance. Mas se pensarmos nos últimos anos, a diferença entre ricos e pobres se dissipou? Na verdade não.

Então, eu queria ser honesta com esse medo e tristeza e realmente me entregar a isso. É uma exaustão para fazer com que todas as situações pareçam simples e imediatas, para que a gente, eu, todo mundo, possa encarar emocionalmente. 

Eu penso assim: um dos seus momentos mais férteis é quando de fato, atavicamente,  você está tecnicamente fora de serviço, fora de controle, fora do juízo, fora do normal.

 

na vida e no medo de sentir

Sempre sempre sempre estás viva. Vontade de comer o sol.

Começou de forma direta, depois a fome começa a se tornar cada vez mais abstrata. Isso pode trazer a ideia de que o não saber onde se está no mundo deve moldar você e tomar corpo. Até que ponto temos o poder de decidir sobre nosso estado de espírito, até que momento temos mesmo o controle sobre o que sentimos ser um ruído visual? Poder dar um corpo à ideia, não apenas um corpo arquitetônico, mas também um corpo com sangue, ar e espaço.

Eles estão claramente dizendo que, portanto, na verdade você está sob vigilância física. Pega então essa sua folha luminosa e escreve. O que o mundo faz com você, se o faz por tempo suficiente e efetivamente, você começa a fazer a si mesmo. O pensamento de família como berço de valores morais e segurança e afeto se esvazia diante da capa de revista na sexta, o telejornal no sábado e os jornais no domingo num baile envolvente e apodrecido. Eles estão pensando por nós. Esfrega os olhos e toma um gole. 

A pele das mãos está ressequida, quebradiça e feia. Olho como se me arrependesse. É um pouquinho de morte que sinto na boca, lá no fundo, quase medo de respirar. Essa sua vontade de ser mais e que ainda não foi o suficiente, ainda vai te sufocar. Ahn, que trabalho para limpar tudo, sempre penso. Podem desmembrar o corpo, deixando certas partes em locais onde provavelmente serão encontrados por urubus ou onde serão consumidos por lobos e vermes até que quase não sejam mais lembrados. Bravura dos que lutam pelo que não deve ser esquecido. A presença da pessoa não “desaparece” do mundo sensível (para onde iria?) mas permanece como uma força animadora na vastidão da paisagem, sutilmente , ao vento ou mesmo como a ira eruptiva, a ser aplacada, do vulcão. 

Os que nunca passaram por nenhuma privação real, da que dói o estômago, aquela que te turva a vista quando passa a maior parte do tempo embolado na multidão de famintos que tentam respirar e ser na penúria, negam a luz. E sordidamente calam e vulgarizam a sua voz. Nos chamam de lixo. A eles toda a ira não será castigada. Olha, minha amiga, estou aqui há tão pouco tempo e já queres saber quem sou? Pega a sua cruz de rubi que cintila no seu peito e busque não se envergonhar da sua vida.

A filosofia e a verdade não podem ganhar com paixão, violência, raiva e ressentimento. A mente firme e fixa que produz emoções pode perder a razão e resistência e quiçá a força para enfrentar o status quo com autocontrole, dignidade e convicção. Porque é tempo de se levantar sim, estender as mãos para frente, agitá-los até que se forme redemunhos de poeira vermelha e mirá-los nos olhos. 

 

“Eu não sei porque o rei é tão malvado”, disse.

Precisamos conversar.

A pausa é um luxo. A gente até tenta se distrair ao se ocupar ao máximo, mas só tenho mais perguntas passando pela minha cabeça. Eu só quero aprender. E espero que continue assim.

I just drew me.

Qualquer noite eu poderia andar e andar ao longo da estrada e ver silhuetas interessantes feitas por formas de árvore, muitas delas tão claramente definidas que conseguiriam nos persuadir a largar as armas. Estar produzindo em que se usa as próprias mãos para fazer algo provoca um produto único e imperfeito. Uma caravana de camelos que parece estar se movendo ao longo do céu. Alguém que esteja envolvido em um ofício os percebe e enquanto me perco neste pensamento, estou presa pelo outro lado da fronteira e é lá que em meu coração espero viver. Como poderíamos quando esquecemos, de fato, de onde viemos? Esses demônios, eles não vão a lugar nenhum.

Porque naquele lugar havia névoa, pombas, luz do sol, sujeira de cobre, lua – tudo pertencia aos homens que tinham as armas. Vez ou outra, em um raro e arrebatador lampejo, a cortina de nossos preconceitos se eleva e somos capazes de ver e experimentar. Temos que rever todo e qualquer objeto em que nossa atenção se prende, veja lá que cada coisa que preconcebemos nos cega para o que realmente ela é.

Onde encontramos nosso lugar sabendo que as oscilações da nossa desintegração por pertencer a um mundo cada vez mais caótico e violento podem nos distrair? Um borrão pode salvar o mundo.

Toque as estrelas, sinta do que somos feitos.
Há algo impressionante nisso – e é verdade. Isso soa verdadeiro para mim. Onde estamos mais profundamente feridos é onde estamos mais profundamente dotados, estarmos exilados no lugar que a gente pertence. Paredes, munição – funcionam. Por um tempo.

Mesmo que você olhe a previsão do tempo, está chovendo o tempo todo

Já se passou uma semana desde que voltei.

Que o habitável fosse também o fazer dos dias. Foi cedo e Raku ainda estava na chuva. Dava pra ver o sossego na reunião depois de muito tempo, os chás ajudaram, o escutar ajudou. Muito obrigada por me entreter tanto, eu tentei isso diariamente e esperei ansiosamente por hoje, e consegui um bom trabalho.

Uma história que não tem nada de muito interessante para falar e nem que valha a pena se relacionar. Procuramos alguma sombra como fonte de força e calma, como se não soubéssemos da luz do sol. A gente pode até ver, se beneficiar, mas é como se não estivesse lá, como se não fosse. Quem me dera poder estar mais perto num dia como o de hoje.  Mas mesmo assim, nossos sonhos, eu gostaria de ajudar. Você não devia fazer isso sozinha, nenhum de nós deveria. Eu sinto saudades de ser um pedaço de você. I miss you.

Dois degraus, cozinha, fogão, xícaras, olhos fechados suspirando. Amor, bom tempo, tempo mudado, tempo demorado. O humor negro da burocracia sem fim – são todos forrageiros a serem digeridos e ruminados por uns dias, quiçá reste-nos alguma alma. Separados levaram-me ao lugar onde eu queria ter desejado estar, barro e fogo lá fora já são parte da paisagem, esse é o cheiro de casa agora. Agradeço muito a vista desse mundo daqui. Eu gosto quando você me toca. Quero que nunca acabe, que o peso, os dedos, a força, o eriçar esteja sempre ali. Liquidificar ou ser extremamente eficaz em relação à sua vulnerabilidade, nível muito pessoal pela primeira vez.

Você parece cansada. estou cansada de me sentir cansada exatamente é o que eu sinto  estou cansada também tudo o que eu queria hoje era descansar posso um pouco pensar poder conseguir estar à descanso?

Tem o direito de estar aliviada. Tem até o direito de estar contente.

 

Faladurias

E então você me fez uma pergunta que eu não vou esquecer: e se o adorar for capricho? A gente se esforça para perceber o que é essencial e necessário,  nos ajustando e fazendo que nosso ajuste assim  seja sentido, notado. A gente é feito de coisas penetráveis que sondam todos os recessos em nossas almas. Não gaste sua força em um vaidoso vazio.

Da varanda dá pra ver alguns telhados, podemos ver a lua subir acima das nuvens, podemos ver o céu se encher de cores quando escurece. A inconformidade é um impulso, um beliscão. Um mínimo de inconsciência é necessária para as noites que poderiam ser mais frias ou que a gente poderia estar mais juntosEnfrentar como que a uma colisão de frente e tentar nos tornar o que pensamos que somos. Seus lados obscuros e eventuais mortes são insondáveis ​​para a psique descontroladamente otimista do enlouquecido. Você tem alguém para pedir conselhos?  Mesmo que meio atravessada, como todo novo amor, a forte promessa de uma revolução será lembrada muitos anos depois.

Há noites em que você vai deitar bem e acordará pela manhã muito mal, parecendo mais que esteve em uma guerra. Em algum momento, a gente percebe que consegue deixar cada sílaba repleta de persuasão e isso pode nos levar muito longe, mesmo que cause exaustão. Primeira tarefa é essa enquanto segura minha mão: dominar o fogo. Nada poderá estar fora do ponto, um orgulho desmedido. Bem-querer. 

 

Uma vez, duas vezes, muitas vezes.

Cada pedra com a qual ela encheu os bolsos do casaco antes de entrar no rio era uma ferramenta de memória. Precisava disso: peso e massa e volume e concreto – lembrança que que a gente pega.

Acredito que toda autoridade tem que se posicionar, que toda hierarquia é ilegítima até que se prove o contrário. Certa manhã, bem céu azul, enquanto eu lia as cartas de um poeta morto no quintal, pressinto um fragmento daquela mutualidade atômica, quem sabe. Minha visão periférica – aquela glória de instinto – me puxa para uma imagem linda: uma pequena folha vermelha cintilante girando no ar. Ela permanece suspensa lá, orbitando em um centro invisível por uma força invisível. O resultado, ao contrário do que se pudesse supor, é uma mistura de aborrecimento, medo e escapismo. Posso ver como tais causalidades imperceptíveis poderiam levar a nossa mente à superstição, poderiam levar-nos a buscar explicações em magia e poderes divinos. Mas então me aproximo e percebo uma fina teia de aranha brilhando no ar acima da folha, conspirando com a gravidade nesse movimento giratório, indiferente ao significado construído e à nossa fé.

Onde a gente termina e o resto do mundo começa, para onde vai o nosso afeto quando o destino não está mais lá e o amor, a ternura e a cumplicidade e a alegria e as risadas e o estar solto, conexões invisíveis e idéias e jeitos e cachaça? Tome uma dose e dê uma volta de bicicleta por aí. E nunca mais se esqueça de que tudo é liquefeito. Mantendo ilusões de permanência, congruência e linearidade não se vai muito longe, bem se vê. A vida se desdobra entre alguns eus estáticos e narrativas sensuais. A história não é o que aconteceu, mas o que sobrevive aos naufrágios do julgamento e do a(o)caso.

Há infinitamente muitos tipos de vidas bonitas.

 

 

E eu à deriva, tempero demais

Deixe-me entrar na sua casa, de novo, mais uma vez. As pessoas estão reunidas em torno de quatro laptops, em um esforço para controlar os movimentos, não incomodar/nem ser incomodado. Eles acendem e apagam as luzes, fervem a chaleira, colocam alguma música – o que puderem fazer.

Eu perguntei a ele quando aconteceu. Com casualidade despreocupada, ele respondeu: “Cerca de uma década atrás.” Fiquei espantada que as pessoas pudessem segmentar suas vidas em blocos tão grandes – um registro que a mim seria muito descabido. O amor por livros ilustrados, completou poucos segundos depois, é isso, apenas isso.  Eu não faria isso funcionar se fosse apenas medo e distopiaHá sempre um elemento esperançoso em meus projetos. 

O tolo é paralisado demais para andar na longa corda bamba da esperança e do medo pelo qual qualquer destino que vale a pena é alcançado. O medo é uma miséria. Para mim, é sobre a área cinzenta onde você não tem certeza do que pensar. Pode ser que pequenas escolhas ajudem, queijos, conhaque, grãos, frutas… Quando seus nove netos foram confiados aos seus cuidados, ele começou a transmitir seu legado insurgente ensinando-lhes bordar em inglês. Quando as crianças ficavam com fome durante a tarde, passeavam pelo parque, entregava os sanduíches e esperava que só então pudessem perguntar pela rainha: aquela eterna dívida literária que a gente passa a vida pagando.

Em vez de obedecer ao ser solicitada a reagir imediatamente, preferi me sentar. Não pertencer dava algumas liberdades. E eu teria rido, depois chorado, e logo deixaria o sonho – mas eu passei a amá-lo através das lembranças, a gente se lembra. Acaba se lembrando. Dificilmente me sinto uma estranha para você, aqui, nesse quarto.

 

garganta

Tudo. Tudo se move sobre isso.

A paz de nenhuma luta. A partir da garganta de um passarinho que não era pego, mas que nos visitava, os sons deslizavam e sangravam e recuavam, latiam, zumbiam e tremiam. Não estava errada em estar no mundo em que estava, mas bem que era a salvação da minha própria escuridão. Eu dei uma olhada e caí, agarrei e caí. I. deu uma olhada para mim e colocou os óculos quebrados, de uma perna só, escuros. O bom é aplicar disciplina com a prática o suficiente para continuar a realizar o senso de reconhecimento vazio. De uma certa forma é bem simples. Mas os sons não deixavam tudo assim.

A caminhada continuou, de mãos agarradas, em círculos, em risos frouxos, em pequenas distâncias. Uma ausência é uma abertura para uma sobreposição. Era uma solidão antiga aquela que vivi, que nada conseguia apagar e ele, percebia-se, era muito conhecedor das pessoas, dos livros, das emoções da mente e do coração. Vivia, às vezes, em uma caixa preta de memórias e perguntas sem resposta, o que era mesmo esse chão? I. tinha cuidado, uma coçadinha na orelha e depois, depois já saía e brincava. 

Não há meio caminho, meio flash de percepção, meia aliança, meia cama, meio mamão. A experiência viva e crua daquele momento de voltagem é um caminho para unir os dois. Não há entre. Esta é a alegria de ver/estar “fresco”.

Junto. Isso dá sentido à vida. E propósito. E isso incluirá dimensões externas, internas e secretas. E muito, muito mais. Mas no final será prático: haverá uma imagem. 

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Zero vírgula poucos segundos

‘deixou pitangueiras, aluguel, trepada, cama nova, porta retrato, o filme que mais tarde assistimos juntos, pode ser? a cerveja na geladeira, a formatura do afilhado que seria no dia seguinte, o próximo natal, a páscoa, o primeiro dente que o seu filho perderia, mas, que agora, por zero vírgula poucos segundos, na da. O tempo acabou.’

O tempo acabou. 

Conte-me sobre o que você está fazendo agora. O Afar é um lugar grande.

O minimalismo do trabalho miúdo e o minimalismo no uso da linguagem vêm de um lugar realmente poético, é um lugar onde a maior parte do conteúdo é meio que deixado entre as linhas. Não teria dificuldade com isso, mas também pode ser confuso, na verdade, porque esperava estar mais à margem do que parecia estar naquele momento. Eu acho que fui durante algum tempo apenas uma queimadura longa e lenta. Estava interessada em simbolismo, metáforas e narrativas, mesmo assim. As emoções estão tão próximas da superfície. A coisa mais difícil é interpretar uma pessoa viva, eu acho.

Uma declaração muito direta para uma exploração da cor preta. “Aquilo que você está sentindo é a sua vida”. 

Eu não acho que tenha lidado com algumas coisas muito bem. Se eu vou ser cega, eu preciso fazer isso funcionar, eu preciso tornar o meu corpo memória libertador. Agora paro para lembrar da minha paixão. E da minha escuridão. É uma enorme paz permitir-se ser tão vulnerável e ver que existe A humanidade em todas as esferas da sua vida. Ou casar com a pessoa que escolheu, ou morar em um certo bairro, a mudança parece enorme.

Como negar o carmim do céu quando quer anoitecer?

 

O pulmão está formado, já sabe parar de chorar

Ou engrossar o couro começa pelo pulmão.

Pode-se ficar sozinha em qualquer lugar, repetia. É difícil confessar, mas a solidão pode penetrar muito profundamente na pele, na vontade. Necessidade de pertencimento: as vozes interiores ficam mais audíveis e podemos responder mais amorosamente a outras vidas. Um pensamento estepe e, de alguma forma poético, sobre a pertença é ser a si mesma um contraponto como um átomo de vida pensante, com sentimento e sem sentimento, em meio à constelação de outros átomos [expectadora da minha própria miséria]. Frutas falsas e pedaços de queijo encharcados escorrendo pelos regos.

Uma coisa que tem sido consistente, desde aquele rubor, é que as pessoas estão nuas.

Eu transformo detalhes físicos que parecem gastos e que evocam o corpo a condição humana, enquanto permaneço essencialmente abstrata. É insano quanta merda você passa quando mulher.

Hoje é meu dia de sorte e meu corpo está completo, formado, pronto. Use-o. Seja o que for que você lamber, com certeza vai explodir hoje. O pulmão, onde você coloca seu foco, é especialmente importante. Sua vida será sobre exploração, entender as coisas erradas, rotineiramente investigar a própria identidade em um  loop de 10 minutos aparentemente sem cortes e sobre como é encharcar a área da cozinha.

Longo e quente verão construindo fogueiras, correndo na mata e ouvindo vacas na rua depois do anoitecer. E nós nadamos para perto, para a outra margem, quase sem sair do lugar. E teve a beleza de exercer o romantismo com seus convites de néon e cores nostálgicas. Estruturas sem remorso no desejo de atenção. E teve esperança e excitação nas pequenas sincronicidades.

É um bom dia para praticar.

 

O que aconteceu com os lugares que a gente conhecia? 

Chamando por meus demônios agora, para me deixar ir 
Eu preciso de algo, me dê algo maravilhoso

Na superfície, ele está compartilhando imagens rupestres: edifícios majestosos degradados, concreto rachado e manchado, cada caverna urbana mostrando seu desgaste. Este não é o futuro que queríamos. Nostálgico, melancólico, pairando no ar como um grão de poeira. O que aconteceu com as pessoas?  O que aconteceu comigo? O que aconteceu com os lugares que a gente conhecia?  A liberdade de perseguir suas paixões freqüentemente se sobrepõe a um certo nível de privilégio. No final, somos responsáveis ​​apenas pelo nosso próprio comportamento.  A gentrificação continuou a cobrar seu preço. Shorrrrr!

Apontamos a loucura tentando evitar que isso se infiltre em nossas próprias vidas. Se fracassarmos, também nos tornaremos loucos: algo maléfico vem nesta direção. Nada de bom surge do revide preventivo de algum medo. Sexo, raça, gosma, lama no outro. A multidão de um que tenta adivinhar a si mesma e se perde enquanto perde tempo. No sentido de julgamento, não primeiro em mim, mas em meu oposto polar.

Nem tão oposto assim, diria, com um sorriso no canto da boca. Boca amargada pela derrota. Retirar, frustrar, amargurar, zangar e, nos piores casos, resignar, deprimir, desanimar.

Inclinamos na direção do ambiente escuro… A escuridão da pedra traz a questão para dentro de casa: de qual sopa nos serviremos? Pode-se até chamar essa besta que agora paira sobre nós de “o novo normal” de uma comunidade que parece ter perdido a fome, ou se perdido nela. Parece um povo saciado. Uma pessoa ainda não tão cansada comendo uma porção de alho, com brilho nos olhos. Antes eu soubesse como é ter cactos envoltos em seda. Encontra na cor vermelha, lanternas, imagens de dragões e espaços como meio de sobrevivência. Porque a arte não morre.

Desejo a fúria do desejo, da fome, da sede, da raiva, da arte, das bandeiras. Para mim e para ti.

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Aprontar-se

Eu soube sobre ontem a noite. Você pode me mostrar? Seu braço, rígido como uma ferramenta incompreensível na estante branca, perto da enciclopédia ilustrada Colorama, antigona, papel couché. Pilhas de pastas. Esperança de capturar peixes para alguma refeição com caldos. De verbete em verbete, de silêncio em silêncio, pequenos sorrisos pra dizer como a gente está pensando a mesma coisa. Um cesto de laranjas rolam pelo chão do supermercado, as prateleiras fazendo festa. É lindo, é maravilhoso e por algum motivo apavoro-me com a continuação da cena.

Alguém que pegou uma rua errada, – estava aqui somente colocando o lixo para fora, vendo vacas mugindo no meio da rua quando aconteceu. Eu seria demitida por você. Como ele foge? Despresenciando-se. Dois dias de silêncio e uma bomba de lucidez sobre como tem agido e se punido no último ano. Então era isso, foi isso? Seria possível que algo que não soubesse o que fazer, desfazer, como colar fragmentos tenha regido suas ações para com você mesma por tanto tempo. Até que ponto conseguimos conviver com nossos pesos. É de bom trato agir economizado muito tempo de loucura.

Não sou daqui, encontrei cabelos na pia e mau cheiro nos ralos, acho que poderia acontecer uma outra vez. É sobre mudança, sobre encontrar beleza e aceitação nos lugares fraturados, quebrados e vulneráveis. Trata-se de integração, de todos os eus do mundo natural e da tecnologia, com toda a imperfeição e insegurança e fragilidade que abraça o ser femme em uma sociedade patriarcal. Por favor, não desista.

A surpresa é que essas vozes são moduladas, estendidas no tempo e manipuladas de outra forma até se tornarem exatamente o que gostaríamos delas. Bolhas e gaguejos fazem verdades metades, atestados de boa vontade e boa ação devidamente salvos e printados, você quer ver nas mensagens, está tudo aqui. O ouvinte segue as dicas de como entender e as levar àquele exato ponto, até o sussurro final.

Então age como um tambor e um poeta. Sua história é apresentada uma palavra, ou um desenho de cada vez:  A – casa – outrora – derretida – e – areia – pousada – em – toda – parte.

Como no começo, é um choque ouvir a voz sem adornos, mas logo é seguido por fascínio, porque nada, incluindo a narrativa, é o que parece. Um amadurecer sem pressa.

 

A arte é pra quem tem onde cagar

to emotiva e to puta. e vocês que estão lendo esse texto, assim de primeira, é por conta de um apreço genuíno meu. pode acreditar. isso num vale lá muita coisa, mas é um cisco de amor sincero. ando sumida, ando revoltzs modes on,  e tá muito difícil ser e conviver.

to na lida de aprender o cinismo como arma de sociabilidade familiar ou não, nada novo nisso, mas assim, tava quase dando, galera. Tava quase dando certo, estávamos quase conseguindo ter um diálogo sobre qualquer assunto. agora a micropolítica está intoxicada de medo, repulsa, pus, enjôo, fedor e ataques de pânico com requintes de crueldade. a avidez qualquer que seja, destinada a qualquer objeto (de qualquer alimento) é doce, enjoativa, viciante, impura, melosa e perversa.  não é bem assim: cai quem quer.

é um trem muito sedutor, a sordidez é sedutora. no espelho sempre encontra onde ressoar.

tive longe de pessoas que aprecio muito. que me suspiram por escolhas, por cores, por vidas, por vontades, por enlace nas coisas que são de importância mesmo, tipo, vamos levar as frases de auto-ajuda pra valer? e que mesmo de longe persisto de encher-me de água vendo o caminho que andaram por aí. por estar longe, por grana, por suores frios, por tristezas, por medo de deslocamento (isso existe sim), por falta total de qualquer auto controle da sudorese fria em pele quente que nos gripam só de ler.

essa história da dominância emocional da opinião pública mediana geral irrita, irrita, tira o ar e queima o peito. é um delírio sem fim, e uma busca desespero por alguma qualquer pobre e indiferente salvação. desde que na bula tenha referência nas letras miúdas entrelinhas, independente do que seja, como seja e se coerente no pouquinho que seja, um teco, de salvação de alma, suspiro genérico que seja, alivia.

uma merda, camaradinhas, uma merda.

porque nosso labor manual é nossa sobrevivência, porque somos um bando de largados e pelados no cerrado de minas, oxi, que bença seria, e que pode ser arte, e sendo artesanato seria lindo crianças sujarem as unhas de barro.

e que quando a gente fala de arte a gente emociona, e a gente está aqui, tentando o de sempre, mostrar os dedos sujos depois de umas noites em lençóis turvos melados de gel. eu queria mesmo era largar-me à revelia, ser a margem da sociedade, mas até os sonhos mais tilelês da mais tenra idade ficam estourados na cor diante da realidade de ser mulher, fêmea, whatever.

meu medo me domina, me delineia, me entorpece e me mapeia. sou fraca, não sou guerreira nem forte porra nenhuma, sou exausta. todas as ””fortes”” ou  ””não”’ mulheres que conheço estão cansadas. eu também estou. e não tem porra nenhuma que me faça botar química no cabelo de novo. tampouco nas conexões cerebrais que fazem a gente rir melhor. mais bobo, sabe, mais oquei (a médica disse, é né, o remedinho te joga no palco e o resto é com você)…  é duro ser realidade, ser e ver cru, ser sem conto de fadas. mas depois que a gente pensa, se interroga algumas questões que acabam com toda e qualquer submissão por mais vontade que tenhamos de.

porque a gente, eu né, até que quis a submissão, eu quis. juro. deve de ser mais fácil. deve de ser mais admirado socialmente, deve de ser mais fácil ser feliz assim. ó céus. to fudida. não acredito nisso. era bom e seria se eu acreditasse.

quero ser arte, quero o coletivo, que a gente sendo. nem segura na mão que me dá agonia, mas né, tipo, poxa, se escondam não.

qual a violência que a gente pratica?

entregar meu corpo e respiro e gosto ao frio e ao tempo, desprezar como força a dominância é como se faz arte. a sordidez de troca laboral entre corpo e alimento e vestimenta e ter onde cagar. arte. ter onde cagar. percebem? a arte é pra quem tem onde cagar.

tá fácil pra ninguém, pra quem nunca foi fácil está e será pior. engano nada, acho que 2019 vai ser pior. mas queria que soubessem que os amo e admiro.


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Coisas diferentes sobre a mesma amizade

Hoje eu tenho essa convicção, sem a menor razão de ser.

Olhe a cor nos meus dedos. Eu não faço tanto quanto costumava, mas eu ainda gosto muito disso. Mas, eu realmente não possuo uma casa, eu não tenho carro. Não durmo muito e não gosto de ir para a cama cedo, então procuro por um período de recuo. Paradoxo mitopoético. O tom  para denotar um objetivo de um artista pode ser o comentário social.

Gosto das coisas que me mantêm ocupada e presente. É um período de reviravolta das táticas de lutas, estudar, revisitar os clássicos e reajustar a teoria dos grandes estrategistas, aplicadas em desmontar ruindades. Senti que a noite não é um tempo, é um lugar, um lugar em que não me sinto bem.

As pessoas não são abertas e generosas. Eu acho que isso mudou ao longo do tempo, mas para mim, ainda é sobre a intenção de dar um passo adiante. Há mais o que ser feito do que possamos imaginar, não se render ao fracasso e a subseqüente futilidade da realidade. Os projetos paralelos ganham força, então. Não se deve ceder ao próprio extermínio.

Isso inclui corrigir os olhos cegos e seletivos, por isso os óculos gigantes, por isso as lentes macro em super closes. A gente quer se aproximar, afinal de contas. Pode ser muito lento: desenhos, tecidos, materiais, costura – foi como um ano inteiro para obter oito imagens. Você foi olhada e ridicularizada, olhares alheios é o que chama, não é? Mas porque você estava se segurando e não cedeu às reações, isso lhe rendeu um pouco de respeito e um certo patamar amedrontador. Precisamos nos proteger da pequena aldeia de onde viemos, que nos criou. 

Constantemente reinterpretar seu trabalho e paralelos, em conjunto, e fornecer uma nova visão ao seu relacionamento com o mundão. Quero empurrar meus limites para que haja uma revolução. Depois que seca e endurece, nada quebra.

Nós fazemos o outro pensar. Há algo de bonito e vulnerável nisso.

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Não importa o quanto você tem

nada vai mudar depois de amanhã. sabe, isso tudo que vc sente remoendo dentro? nada vai mudar depois de amanhã. bem que queria dizer tudo vai dar certo. achar palavras divinas. vai… isso já faz muito tempo.

tudo cresceu muito rápido. o que eu quero dizer é, nada vai mudar depois de amanhã. a que conseguiu escapar. sinta assim. você jura, né? senta, fica à vontade, eu quero saber quanto aquelas vidas valiam para você, essa conversa será muito decepcionante para todos. mas eu sei, é o que nos assombra. depois de amanhã é pouco tempo, provavelmente nada mudará depois de amanhã.

você identificou errado, todos baseados. dezesseis anos se passaram. eu não tenho pena de você, o que quer, aliviar? consciência. lugar errado, garota, todas as negações…. ou talvez aquilo…. talvez uma simples verdade. dias, camarada, dias carecem de passar. muita espingarda atrás da porta ao lado da bassoura de piaçava pra adiantar a visita de ir embora. é assim. a vida é assim.

é melhor você dar um jeito. mas você encostou nisso. mas não nele. se ele fosse adiante com isso… não me chame. é simples sim. eu também devia… o que importa. hoje. tome cuidado.

há sobreviventes?

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“Não importa o que penso agora, os mortos estão lá”

– Estamos lidando com alguma estranha cegueira inerradicável, uma constante antropológica inata, uma tendência a sucumbir à tentação totalitária?  Isso não é tão difícil de ecoar quanto se possa imaginar. 

É a quietude, a quietude no momento em que parece que todas as barreiras estão sendo quebradas. Isso é o que eu acredito que minhas fotos são sobre. Estou materializando uma visão que está na minha imaginação e na minha alma e nos meus ideais. Eu considero o branqueamento de uma pele que não deveria ser branca, um amortecimento ou um silenciamento brutal. Ela já pediu para que a tornassem linda, entretanto.

 Você está pensando mais sobre o passado ou o futuro?

Aprendeu a definir seu espaço, e isso é ótimo. Ela tem uma personalidade muito forte e opiniões muito fortes, então não se consegue minimizar as coisas… Eu quero que cada sessão se torne como nós dois agora: apenas um-a-um, olhando um para o outro e tendo um momento e uma troca que não tem nada a ver com qualquer uma das distrações ou proteções que você recebe como ter uma máscara, adereços e tudo mais. Isso não é mais fácil de fazer do que ser apenas seu eu nu. Corremos perigo do achatamento das identidades que muitas pessoas experimentaram em suas vidas.

Que espaço o meu passado possui no meu corpo hoje para que radicalmente seja visto por pessoas que estão tentando determinar se sou ou não uma ameaça para elas… é difícil saber o limite da própria experiência de estar sob vigilância. Remédios curam as marcas do apavoramento na pele, e também entorpecem a vontade de caminhar.

Houve um tempo que eu temia a solidão do meu apartamento, e desejava que a noite escondesse a mudez e a paralisia iniciais… É sobre como você aborda ideias e movimentos e o que você quer dizer. Um telefonema que foi interrompido por um estranho efeito de eco. Porque, de qualquer forma, tudo já foi feito antes, sabe?

Há uma verdadeira vibração que é negligenciada e o lendário escultor parece orgulhoso e determinado enquanto segura uma grande escultura fálica.

Começo a cortar, mover, agrupar ou repetir movimentos. Se eu fizer isso diariamente sinto que não me limitaria a qualquer obstáculo a capacidade para onde se possa chegar. Esse procedimento mantém os olhos abertos e provou que algo novo pode acontecer entre os dois. 

Seu tom é calmo, mas sua entrega é firme.

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Arquitetura

‘Eu acho que você tem que ser corajosa.’ Pensa em alguma forma que seu trabalho una essas duas extraordinárias ideias – um senso compartilhado de profunda vivacidade e atenção ao mundo, uma devoção a tornar visível o invisível da vida e, acima de tudo, uma profunda gentileza por tudo aquilo existe, dentro e fora.

Embora você conheça alguém há mais de quarenta dias, embora tenha jejuado e vivido com ela, não se sabe tudo. Eu não sei tudo – mas algumas coisas, permito-me.

M. tinha vontade e inteligência e provavelmente muita compreensão pelos outros; ele foi rápido no discurso e não sofreu tolices. Quando você o conheceu, foi incondicionalmente gentil. Mas também, como nosso amigo bispo disse em um funeral, você teve que ser corajosa para conhecê-lo. Era apenas sobre brincar com a forma. Não é maravilhoso o modo como o mundo mantém tanto o sério quanto o inesperadamente alegre quase contraditórios? Eu dei uma olhada e caí, agarrei e caí.

Era estilo, e era uma solidão antiga que nada conseguiria apagar, convencia-se.

Era muito das pessoas, dos livros, das emoções da mente e do coração. Vivia, às vezes, em uma caixa preta de memórias e perguntas sem resposta, e depois saía e brincava – era mal-humorada e ousada. Quando juntos, parecemos desenhar a linha mais estreita entre normalidade e especialidade.

Mas eu acho que estes também são lugares onde as pessoas pensam que provavelmente o volume não é a coisa certa, esperada, buscada de qualquer maneira.  Então a nossa quietude pode ser vista como uma grande vantagem.

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Inclusive

Eu me acostumei a não olhar muito para o futuro; é melhor quando você pode começar de novo a cada dia. Ouvia a descrição de certos conceitos do comportamento humano que estariam um pouco abaixo da superfície, que não são totalmente compreendidos – e gostava. Essa ideia de falar sobre comportamentos sutis, quando ainda não sabemos por que exatamente nos comportamos da maneira que fazemos, de certa forma, pode melhorar o mundo.

De repente, ele viu que havia a possibilidade de fazer a cor, que é, de certo modo, aprisionada quando na superfície de um objeto, livre. Eu amei a ideia de que a cor poderia dançar livre da parede.

Nós apenas temos que ver. Eu acho que sempre confiei e aceitei um nível muito alto de abstração.  É esperançoso, positivo. É um continuum. “Agora eu tenho que fazer algo novo.” De vez em quando, permanecer em um período de descanso enquanto você está superando o que você tem feito, enlouquece. Mas geralmente, a faísca vem de uma fonte desesperada. Eu penso assim: um dos seus momentos mais férteis é quando, na verdade, você está tecnicamente de folga.

Mas o que se pode fazer é permitir espaços que não excluam as possibilidades de morte, alegria ou beleza e todas essas coisas. Às vezes as cores só vêm e gosto como elas fluem e eu gosto do que elas evocam. E eu não sei de onde elas estão vindo. Os surrealistas falaram sobre escrita automática e meio que me sinto assim, entre nós.  O objeto em si, está se referindo a um interior. É como uma pele esticada. Eu nunca usei linguagem vazia. Mas eu nunca me preocupei realmente com o fato de as pessoas entenderem ou não o que estou dizendo.

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Todo mundo tem um sotaque

É claro que existem algumas coisas que faço que parecem completamente sem sentido e gastam muito tempo. Mas eu estava me concentrando em manter as coisas que eu amava, que dialogavam comigo, que me significavam.

Agora as coisas estão ficando fora de controle. Está indo muito rápido e todo mundo diz que vai explodir em um ponto, mas ninguém sabe como ou quando. 

Eu costumava querer muito também, eu também queria. É bom se aproximar e ver olhos diferentes, e estar aberta. Estar possível.

A realidade é tudo e sonhar é o mesmo: é onde você coloca sua própria fronteira que pode ser muito diferente da fronteira para outra pessoa. Me dediquei muito a essa fronteira entre esses dois mundos. Eu não sei se você já experimentou o sonho lúcido, mas eu acho que é muito a experiência de estender algumas das suas realidades para o outro. Para mim, cada um ter seu estado pessoal de ser é algo muito poderoso para se brincar e estar em contato. Todo mundo tem muitas personalidades diferentes, então eu acho que pode ter uma grande influência na maneira como você se sente.

Uma das cores da estação é verde. Então, há dois verdes: um é o que eu gostaria de usar, e o outro é o militar.  Um verde que ninguém deveria querer.

Foda-se. Eu vou fazer o que eu quiser.

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Esvaziar as gavetas

Eu tenho que pensar. Bem, seria uma dose de cachaça ou um chá?

Eu queria poder andar pela rua e comer o que eu gostasse e fechasse os olhos em um mundo onde eu estaria destinada a vagar sozinha. Um café pode ganhar. Pode ser algo muito simples, como o espaguete perfeito e o alho. Eu gostaria disso.

O trabalho por vezes é temporário, mas a fome por trás dele é ilimitada. Vivo um sabor que fica na minha cabeça que eu quero. Ei, é difícil não ver seu projeto mais amplo como uma tentativa de mudar a própria paisagem.  Mudar, mudar-se. Percebo uma maneira nova de ver o mundo. Se está sempre armazenando essas coisas, coisas que nos agarram, ou que a gente simplesmente guarda, derramamos. Porque a gente é memória.

Há muitos legumes e muitos ingredientes regionais que eu amo.

Apenas saber que você pode se levantar novamente, pode se testar novamente, se experimentar de novo naquele tempo. A estrutura desse tempo é antiquada – mas por dentro há muito material novo e isso é suficiente. Já não se é como antigamente. Desejo  ingredientes estranhos que nunca tinha ouvido falar antes… Mas eu não estava forte o suficiente.

Devoraria uma barra inteira de chocolate branco agora.

Nas gavetas da casa era como se eu tivesse construído camadas e, dentro das camadas, outras camadas… e mesmo editando e cortando, há muito espaço tomado por minha própria memória, meus gostos, minhas emoções e minha intuição. Na verdade, depois dos dias,  havia menos restrições sobre o que eu poderia fazer naquela gaveta. Mas por dentro há muito material novo. Eu estou sempre fazendo meu próprio movimento, muitas vezes com os olhos fechados.

Algo extraordinário aconteceu.

 

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E também o destoar

Embora tenha se tornado um pouco mais quieta, em alguns eventos, ela ainda faz coisas, muda coisas. Mas isso tem se tornado cada vez mais raro. Eu estava me concentrando em manter as coisas que eu amava, que falavam comigo, que tenham significado algo em minha vida. 

O pensamento é esse, onde o desejo habita a ansiedade e se perde em uma autocorreção imediata. A respiração está marcada pelas doses de adrenalina, involuntárias, que aceleram a circulação, impedem que o ar acalme. Às vezes eu quase não consigo respirar. Reina uma vontade de experimentar profundamente o que chega, beira a euforia. Seu próprio corpo o inspira tanto quanto o corpo do outro?

Fecho os olhos para ficar quieta e a memória aumenta lentamente. Então você pode sentir as noites frias de inverno aqui perto porque nos tornamos uma espécie de família.  Os chás são frequentemente vendidos em latas. Diga, pode dizer…  que você não gosta de chás.

Espero que os dias sejam contraste puro, sonhos lúcidos.  Em vez de virar as páginas, alimento cantos, transformo cantos, preciso de surpresas… Um pouco de generosidade muda isso, mas ainda funciona 20 anos depois.

Estou fora.  Estou muito acostumada a viver com fotografias.

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Fumaça e espelhos

Coisas bem maiores em torno disso.

Uma mulher, vestida de branco, parada no meio do pátio tirando camadas de si mesma para revelar uma de verdade.

O tempo todo você está trabalhando para fazer um pouco disso, mas no ritmo de fazer um filme enorme por exemplo. Pode ser difícil conseguir aquele momento de emoção absoluto em cinco minutos, talvez porque isso seja justamente todo o tempo que eles têm disponível um para o outro.

Então, aprendo em todos os trabalhos. Gosto de pensar que aprendo. Eu aprendo observando as outras pessoas. Foi maravilhoso te ver. É maravilhoso assisti-lo e observar as pessoas que realmente sabem  que estão existindo de dentro para fora. E se eu tomar bastante tempo e amor não errarei você.

Os sons miúdos tomam conta do espaço, do ambiente, da respiração. Eu acho que o ruído ainda pode ser esmagador, há dias bons e ruins. É estranho. Acho que nunca se normaliza. Eu ainda acho divertido e intrusivo e maravilhoso e surpreendente. São todas essas coisas. Tem-se que apenas entrar em uma situação, lidar e refletir sobre depois. É uma coisa extraordinária, aquele equilíbrio de confiança e vulnerabilidade que o encontro requer (ansiando para que a solidão não seja uma coisa boa).

Entra no quarto com um cigarro aceso. Sempre subia e descia na ponta dos pés tão suavemente quanto dançar, e então as luzes da casa se apagavam e ele me recebia com um aceno de cabeça, dava um grande suspiro, enchia os pulmões e então continuava andando. E há certos aspectos  que têm a ver com outras pessoas que não estão no tempo em que tenho estado. Essa é minha principal coisa.  Para mim é como se eu estivesse invertendo um sonho. Vivendo e depois sonhando.

Geralmente, quando um deles se afasta, se recupera alguma lucidez.

 

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Me deixe de fora desse seu mau sentimento

Eu queria conversar… sabia que você iria entender…

E eu que diria que a possibilidade desse controle completo é o que impulsiona nos meus… Estou tentando.

Por exemplo, a nudez teria sido um efeito. E você se importa? Não acredito em efeitos no nosso dia a dia. Eu não. Eu acredito em ser orgânica para as histórias e os seus  (nossos) respectivos. 

Você sentiu falta do que é a busca pela identidade então isso provavelmente teve muito a ver com o meu impulso de deixar de saber e depois deixar de fumar pela segunda vez, que é a hora que realmente se para.

Na verdade, se deixa de fumar todo dia. Se deixa de acreditar, se deixa de querer, se deixa de abusar, se deixa de esperar, se deixa entender a diferença.

Sim, acho que fiquei melhor em confiar em mim um pouco mais, estar mais ou menos confortável com quem eu sou agora…  Certo, é considerado uma fraqueza mostrar suas emoções assim. E agora que estou um pouco mais velha,  o melodrama pode ser tão exagerado e tão útil. 

Eu acho pernicioso ver como as pessoas podem se conectar aos seus desejos. Esta luta é sobre inclusão e esta luta é sobre combate à invisibilidade. Somo se sugere, querendo ser incorporado pelo outro – que é quase óbvio.

Você sabe, como eu amo o outro em sua alteridade, para mim, é uma jornada emocional/sensual em mais alto grau. Que não precisa ser empurrada por quaisquer outros sentidos e efeitos. E eu acho que isso é uma coisa linda, que isso faz você ser menos careta. É uma coisa muito pessoal também.

Se você chora, as pessoas acham isso bastante embaraçoso e normalmente isso não se faz isso na frente das pessoas, você sabe, se acontecer, é importante que seja na sua própria casa.

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Encontrar a beleza em um mundo quebrado

Ensina que as vontades/objetos quebrados não são algo a esconder, mas que se mostram com orgulho.

A queima levaria 28h. Mas a madeira molhada… o forno luta. Nós lutamos.

Quando uma tigela preciosa cai e quebra em mil pedaços, vemos  melhor suas rupturas adicionando um valor ao  nosso olhar sobre ela.  Literalmente, um reparo dourado.

Ouro líquido, prata líquida ou laca despejada com ouro em pó – para melhorar as quebras. Dar-lhes um aspecto novo e mais refinado. Porque a peça carrega em si o aleatório. Cada ruptura é uma, cada remendo é só aquele. Reforço abricó de metais. Resistências nos ossos e nas juntas.

E quanto mais você olha, mais você respeita.

 

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Aqui

Eu me encolho no canto até que possa sentir a temperatura do lugar. Responsabilidade sobre seus ombros – ou pelo menos, agora se está ciente disso. Outras pessoas podem pegar algum desses destroços, e alguns são apenas bagagens antigas, mesmo assim…

É uma forma de escassez, esses nervos. Eu sempre tenho que lembrar-me de que há emoção nisso e nem é sempre que ela existe. E sempre que existe é esse medo de querer fugir, vontade. É porque você quer fazer algo bom e bem, eles dizem.  Ultimamente, eu realmente entendi de uma maneira muito pessoal como o medo é a emoção central que cria todas as demais opções em nós. “Eu nasci com uma colher de prata na minha boca. A mesma colher de prata que eu engasguei há muito tempo atrás.”

E eu acho que é preciso desespero! Não tenho estado viva o suficiente.

Uma espécie de demência coletiva derrama parte de sua vontade de socialização… Muita impaciência? O que voltamos a ser nesse núcleo de medo, essencial, talvez. Deixe seus olhos brilharem e dançarem e seja um digno do seu tempo. Tudo o que você tem no final de tudo, é o que você fez e as pessoas que você ama (o amor é morrer, o amor é não morrer, o amor é dançar e lamber-nos nus).

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