Irresistível

O papo é solto e o frio acontece na espinha quando as peles roçam.

Por vezes tão cansada que fecha-se por mais de quatro horas sempre gerando algum desconforto, além de desejos e intenções segundas em uma espécie de re-sentimento. Quando os tempos estão assim segue ficando no incerto. E até que o tenha de alguma forma sob a pele, vibrando, como a sensação eletrificada, seremos em suspenso. Porque você se parece com chuva, diferente a cada vez. A carcaça está a desmoronar-se e você finalmente poderá deixar que eu entre na sua vida. Será no tempo de frio, eu espero.

Os amores ficam bons, aconchego. Penso em escapar dali, ir embora, descer o elevador, devagar, lance por lance, para pensar. Vou de escadas, decido muito antes da minha saída. São mais felizes quando as coisas boas são esperadas para acontecer e não quando estão acontecendo. O ritmo é um dos mais poderosos dos prazeres, hum, e espera que continue assim. Ficaremos ali, a nos olhar, com Coltrane nas nossas costas tentando materializar o tão sonhado arrepio doce. Abrandar a respiração o suficiente para caminhar. Há de fato uma coisa como “tempo”, grita. Mas Matilde reverbera – pois é o segredo do bom tempo, e eu só vejo degraus. Arte, só por amor.

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Shoji Ueda, Girls, 1945

 

 

Cantarolando

Na parte da manhã quando eu acordar e o sol estiver atravessando a janela, você encherá meus pulmões com doçura. Preencherá minha cabeça com você. Devo escrever uma carta? Penso pedaços de uma música que eu não consigo esquecer e deixar sair. Eu posso estar perto de você? Posso levá-lo para uma manhã de sol e café imaginando campos pintados de ouro, lá onde as árvores estão cheias de memórias dos sentimentos, nunca te disse?

Quando a noite puxa o sol para baixo e o dia é quase completamente seu e todo mundo está dormindo, mas os mundos são você. Posso ser perto de você? (Ah) oh  [assobios]. Já faz um tempo que, então, eu realmente gostaria de conhecê-lo, mais, você sabe. Eles cantam uma canção assim, gostaria de ir até o horizonte. Apenas para você todas as lisuras estão girando em mim e tudo, tudo aquece. Lá pela linha de tristeza, sim todas as menos definidas listras dos gatos mais frios. Mas então estar-se a refinar, oh sim. E eu quero ver coração coração coração coração e alma.

Coração e alma porra, meu coração e alma. Por instante.

Sabrina Arnault
Sabrina Arnault

Quando isso acontecer

Apressando-se / atrasando-se são formas igualmente fortes de tentar defender-se do presente. Finalmente outro mês vem chegando – porque o medo das palavras vazias apavora uma imagem “zen”, razoável e mentalmente equilibrada que só o café trás. E se a vida se tornasse subitamente algo bacana no final das contas? – era assim a Matilde. Sempre otimista. Ela é mais poderosa do que a força agressiva, talvez em uma forma mais sofisticada. A gente duvida de que dizendo sim as coisas se resolvam. É essencial tomar atitudes práticas, ainda que elas se revelem pouco afetivas ou até mesmo um tanto quanto impiedosas. Nós ali, a tomar antídotos com biscoitos de coco. Chuva inundando casas, molhando colchões.

Ela é um único personagem que se esbalda a jogar tanta luz no drama que a gente tem como máxima da vida. (Confundir as coisas de substância com o seu simulacro). O papo é solto, o frio acontece na espinha, a cada baque. Penso em escapar dali, ir embora, descer o elevador, devagar, lance por lance, para pensar. Vou de escadas, decido, muito antes da minha saída. São mais felizes quando as coisas boas são esperadas para acontecer e não quando estão acontecendo. O ritmo é um dos mais poderosos dos prazeres e espera que continue assim. Quando isso acontecer, ele crescerá mais doce. Ficamos ali, a nos olhar, com as cartas na nossa frente, tentando materializar o tão sonhado ritmo doce. Como a busca ansiosa por prazeres nos faz sair correndo na frente para encontrá-los, tanto, mas tanto… que não podemos abrandar nossa respiração o suficiente para apreciá-los quando eles vêm.

Estamos, portanto, uma civilização que sofre de decepção crônica e recorrente – um enxame formidável de crianças mimadas quebrando seus brinquedos, perdendo seus amores, ficando de mau. Dói. Há de fato uma coisa como “tempo” – a arte de dominar o ritmo – mas o tempo está escorrendo … Sinto o eterno presente em meus braços que mal consigo movê-los. Mas Matilde reverbera – pois é o segredo do bom tempo, e eu só vejo degraus. Arte, só por amor.

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Sonia Handelman Meyer, Bus Stop

 

Ele adora torradas e farofa

Depois não falamos mais nada, não pensamos em mais nada, nada mais a gente quis.

Quando encontrar, guardo no bolso as histórias. Tremi, e a tremura é tão deliciosa como um encontro justo e firme de dois em um pensamento.  Internacional e acidental (mas ele é do mundo, não é daqui). Uma vontade derradeira (de nutrir laços humanos íntimos – o afeto, o desejo apaixonado e amizade) ameaça uma certa descrença (coisas de antes). Uma certeza absurda (custava a acreditar).

A relação mais rara, mais profunda. 

Nós temos muito mais bondade do que é dito. Eu gosto dele e ele gosta de mim. Nós usamos os nossos olhos mas o olhar está olhando, levianamente, aquele desenho no braço, aqueles escritos na pele. A partir do amor apaixonado eles fazem a doçura da vida. Os nossos poderes intelectuais e os princípios ativos aumentam com o nosso carinho. Dar uma pausa rápida em tudo o que era.

Eu sou tudo dormente, eu juro. Ele foi-se embora. Vi-o por um minuto, de relance.

No espaço pequeno, de manhã, quis café, quis cappuccino, quis torradas, quis banho. Quis sonho. Quis. 

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Helen Levitt

 

Ou seria engolida pelo tempo

Chegou na hora exata, como um sinal, talvez até divino (talvez  exista alguém pensando em mim agora…). Organiza sua vida ao redor disso, desses pequenos sinais. Naquele momento só consegue pensar na oportunidade que a vida oferece de  fazer pedidos para o universo. Suspira. Eles se abraçaram novamente, e então desataram a falar. Era um indicador de um amplo potencial, potencial afetivo, sabe, diria ao psicanalista mais tarde.

Porque aqui eu sou o lugar, o lugar é aqui.

Porque estereótipos limitam o amor, porque os rótulos limitam o amor. É muito sensível em relação a como os outros a acolhem (ouviu dele). Com notável ambição nos olhos lia nos trechos rabiscados em pedaços de guardanapos que guardava na bolsa “se aqueles que começamos a amar soubessem como estávamos antes de conhecê-los … eles poderiam perceber o que eles fizeram de nós”. Suspira.

O que podemos é fazer uma aposta! Tolice (decadência, sintoma de esgotamento). Aqueles que preferem os seus princípios aos infortúnios dos amores, sua felicidade, sim, aqueles eram fortes. Que besteira. Se recusam (apenas) a serem felizes fora das condições que parecem ter anexado a sua felicidade. Eu te amei como pude.  Às vezes sinto-me atravessada por uma imensa ternura por pessoas ao meu redor – grito mudo. Como o grito usado nos antigos clãs para inspirar os seus membros a lutarem pela preservação. A sua apenas, talvez já bastasse.

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Fan Ho, White tent, 1960, from series Living Theater

 

 

Cansando-se e desistindo

Não acredito que você fez isso… Em uma mulher truculenta e autoconfiante, isso que você se transformou.

A fase dos gritos,  berros e atritos havia passado, mas a rigidez veio como um ato de resistência. Isso você consegue fazer muito bem, seguir em frente, né? Ela quis conhecer ‘seu’ afogado (sobrevivente de um maremoto) graças ao poder da intimidade verdadeira. Quis mostrar como ser firme e decidida, que não há nada que supere a persistência, que as águas só… são.

Reconhecia o significado do silêncio e da quietude, e não descansou enquanto não percebeu que você aprendeu a observar intimamente – sem um constrangimento tão típico. Engrossas o couro, já ouviu essa expressão? Pois é isso. Couro grosso. Pele grossa. Cascuda, como me chamam. E ele sempre chega por trás! E basta o despudor ou a coragem para conter-lhe, que fosse simplesmente se curvar para aceitar a existência. “Eu não acho que eles têm amor”, digo, olhando para os pés.

A notícia foi ignorada. Arremessada contra a parede, sangra na testa, e novamente sangra pelo não entendimento, forçando um novo golpe. Uma armadilha, deveria ter previsto. Mas nem com toda humanidade dentro de si isso seria possível.

Droga. Outra cicatriz.

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Helen Levitt

 

 

 

 

Qualidade cortante e fria.

Pleno de cor, a luz que sugere o florescimento da beleza, sugere também o que é interpretado por uma melancolia em toda sua capacidade quase infinita para perguntar. Ainda não encontrou paz no silêncio, clama por palavras, sempre foi do verbo (anotação mental: aprender a língua das não palavras). Em uma conversa vêm lhe chamar a atenção para a importância da autoestima, do cuidar de si, da aparência. Importante é, mas, na verdade, não entendia muito bem o que era isso. Se sentia única e por isso mesmo, diante do não entendimento, o mais recomendável era ficar na sua. E se, e, se você der um grito durante a noite, e ofegante perceber que tenta desmontar a sua verdade com quatro vulgaridades, desista. E os pesadelos? Dará conta deles também? Eles que pendem como uma criança e não deveriam ser  levados sério. (Expressivo é som),  que lerda, dificilmente será capaz de convencê-lo de que precisa ser tudo isso, e clama por uma compreensão da incoerência. Eles não têm ideia, de que todos eles “têm é serragem dentro da cabeça, você me entende? “. E os gritos noturnos acabam por se tornar um “fenômeno” curioso, de uma forma mais intensa, como se simplesmente alguém estivesse lhe emaranhando o cabelo em um passado amoroso. 

 

 

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Solar

Da alegria que é a força que norteia o clarificado da vontade, ou a vontade clarificada, que nem fogo – renovação criativa. Longe de ser algo bom, em si – pode ser altamente perturbador –  o principal é agir de forma útil. Desenvolver uma maior, ou melhor, ou possível, ou desejável –  ‘realidade’ e estará criando, forjando algo possível. Ainda que isto seja uma vida sem graça. Se você não passa, eles passam. Envolvem a duras penas e lhe permitem tornar-se um ser mais forte (mais uma pieguice, quase insuportável). E densificam, até se tornarem carne. Prioritariamente a generosidade torna-o (o objetivo) poderoso, assim como a sensibilidade costuma destruir os outros componentes racionais, mas cedem pela qualidade do amor (sim, o amor tem qualidades, naipes), pra ser tudo junto. Um dom natural para uma troca fluida sua mas, uma intensa necessidade simbólica, analógica e conectiva (mesmo que aos trancos e barrancos) estarrece.

Anotação mental: ler muitos livros durante estes próximos meses e dançar.

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Da série ‘que não sou de ferro’

Urgências de viver alguma alegria, perceber algo que não vira antes, algo que faça lágrimas bonitas escorrerem. Porque a frieza (se tanto), que resolveu se adiantar e se despedir antes de ser despedida. Dizem que tudo agora é em estado de transição (muito embora ache essa ideia muito rancorosa), em que nada é para persistir. Uma necessidade de se ocupar do outro mais onde as características ainda são válidas e úteis – a aprimorar.  Do que é convidado a perceber algo que não foi visto antes, que passou e de uma forma imprópria se perde muita energia no processo. Suspende toda sua busca, seus desejos, sem resistência. A  situação continua muito complexa, porém, (neste momento) pode fazer algumas combinações interessantes que, temporariamente, colocarão as coisas numa direção positiva. Dedica-se com afinco a esse processo. Se não o fazem por alguma fraqueza, pode-se desejar que seja por impulso.

 

 

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Busca do sublime

Se a vida acabasse em mel, perplexos seguiríamos em aparentemente normalidade – disse o brincalhão. E já em idade de se comunicar, o menino ainda não fala e por motivos pessoais os pais resolveram buscar em muitas e outras organizações religiosas a palavra perdida. O cosmos é íntimo numa forma como a alma se identifica com a vida. Mas uma coisa não poderá esperar: sobriedade, pois sua alma estará muito mais interessada em perder a cabeça do que em mantê-la no devido lugar. A mudez do menino atordoa quem não compreende e em meio a exames, bençãos, rezas, súplicas, ele simples está. Busca o sublime (não conforma com a banalização)aquela aventura que te tire dessa existência ordinária com a qual já discorda visceralmente. Não, não teria idade para isso ainda…  para pensar sobre os ordinários dessa vida. Mas de alguma forma reage a elas com mudez.

O sublime está longe, mas está perto também, está no viés dolorido do entardecer de outono.

O sublime pode ser encontrado em alguns pensamentos e que ao observá-los fica surpreso na qualidade e profundidade desses. Imaginava incapaz de produzir poesia, mas eis que se pega em pensamento descrevendo poeticamente os acontecimentos. Encontra o sublime  nos comentários surrealistas, nas ladainhas, nas luzes na sua garganta, medidores, instrumentos cirúrgicos (que te sequestram da existência almejada e te devolvem ao lugar onde está).

Um dia irá gritar aos quatro ventos: a Vida é sempre surpreendente. Por enquanto, boca miúda. Vosso pai evém chegando.

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E sempre ama pra sempre

E como se a onda de mudanças não os atingisse imunes aos tsunamis existenciais. Li assim: recebi uma resposta “sabonete”. Pergunta “sabonete”, vida sabonete”, alegria “sabonete”, escoriações “sabonete”. Deveria tomar uma espécie de “catalisador” vibrante e radiante que só o escorrego proporciona. É muito difícil reagir e esse frio que não passa. Eu não gosto mais de mim, entende? Assim, ‘sem ansiedade e com a mente aberta ao que der e vier, faze tudo com calma, como se tivesses todo o tempo do mundo, como se não experimentasses nenhuma limitação, age como quem verdadeiramente és, um ser infinito, com toda a eternidade disponível’. Talvez a ponta de rancor em seu peito seja mais profunda que imaginaria, porque ouviu que falaram (mal) de ti e sentiu aquilo de novo. Da próxima vez, pede para te incluírem na roda em que… não saberia dizer. Você sabe coisas terríveis a teu respeito! E age como se estivesse em redoma de vidro em uma tentativa de um diálogo com a realidade sem um certo norteador de formação pessoal. O que mostra como a ira dirigida ao outro é, muitas vezes, uma confusão entre o que é do outro e o que é da gente mesmo… Rasos, superficiais, sentidos fluidos. Prepotência. Consulta, guardado debaixo do travesseiro, o manual de como começar (bem).

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Vácuo

Não a diferença, mas a igualdade e apesar dos conselhos de como se deve pensar bem, suscitou uma ótima oportunidade para se refazer do golpe. Tinham muitas, muitas pessoas perto. Quem precisar de ajuda por esse mundo de expressão puramente sexual poderia obter o suficiente dele. A gente se vê transformando até mesmo as demonstrações de puro afeto em atos com toques de brutalidade. Beijos e abraços aumentam significativamente as chances de entorpecer meus sentimentos afetando o desprendimento de seu corpo físico e a necessidade de sensualidade e intimidade aumenta progressivamente. Intimidade. Com o vácuo, vem a indisponibilidade de alma, dormência, falta de foco e paciência emocional. O corpo pede a nossa sensualidade e intimidade.

Esboça um sorriso. Só esboça, a inundação se perdeu. 

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O corpo boceja

Deixou as memórias no corpo – apoderou-se astuciosa da sua (c)alma. Aquela noite me tornou, retornou-me. Eu recobrava a vida, para logo perdê-la, desenrolava-se em outra que a atingiu, a adoeceu. Alimentando, assim como eles, de tradições e poderes apodrecidos.  O desperdício de seus tecidos era o que aflorava ao longo do sono, tornando tudo absurdo diante da biologia que rege. Permite e reforça a exigência das curvas sempre exatas e os afagos na cabeça tinham deixado seus sentidos mais agudos e precisos. E conversas baixas depois de ter o corpo perfurado em diversos pontos para a retirada do tumor. Comum, não limpo.

 

Não será um traje que irá impedir, de tão complexo que se desenha o panorama. Enquanto teu corpo boceja, vamos colorir?

 

 

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Os efeitos no rosto

A vida passou para todos e fugir dos quatro avisos não houve qualquer problema, não fossem as ocupações excessivas, obviamente. Maravilhoso. O ajudante na deterioração dos sentidos – na pele – recusou-se a nos receber ou abrigar-nos como a sabedoria da vida proporcionaria a uma boa alma.  Um excelente querer está sendo dispensado e ninguém pode escapar da doença e desses efeitos. Lembrando que essa deterioração física é vivida como um rito de passagem ou até mesmo uma obrigação.

Terá de ser reinventada pela esmagadora maioria dos que não se conformam que esse mundo é um tanto quanto limitado.

O ato de não poder angustiava. O que acontece é que cicatrizar escondido hoje é o que restou da ação e foi o que lhe deu a emoção. A forma como ele se apertou com uma corda de violino até gotas começaram a partir dele, gela. E a forma mais eficiente ou do jeito que ela quebrou e jogou água a esconder seu pânico, até encontrar um lugar para ficar sozinha e desmoronar quando ele pulou. Doeu fundo tudo pra saber qual a animosidade era contra naquele momento. Uma vez que você começar a soletrar palavras, algumas respostas vêm.

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Um toque de leve

Agora é deixar de molho, posso entrar pra tomar café. Uma possível overdose neste local, pensava enquanto a água fervendo no fogão chamou atenção. Quase famoso esse café, quase um prazer e quase que se permite uns minutos de letargia. Tinha uma grave e crônica exaustão mental, e silenciar-se era o que mais almejava. Falava uma certa ingenuidade desse estado frágil, mas não perdera fé de que se recuperaria. Me lembro que encostei nele, falei umas sacanagens… ríamos muito, de um jeito que surpreende. É como fazer tudo como a primeira vez. Sem água, sem comida, sem cordas de segurança. Flores artificiais no cabelo ganham status, é permitido abusar. Acho que o futuro talvez se arrependa dessa desconstrução.

Ele alisou a minha mão com o dedo e disse que estava feliz de eu estar ali.

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Inoxidável

Exatamente assim que o descompasso entre mim e as coisas, de seus próprios quereres, improvisa o sentido. Eu queria que fosse, ouviu? Onde a tortura nunca para e às vezes até muda de nome. Reencontro inesperado de dois velhos conhecidos num sentido geral tende a ser um excelente momento para embelezar-se diante do outro. Porque queria que assim fosse intimidade: mais úmida. Como  obter respostas do nada? Adaptados estavam a si mesmos. Criando imagens de tolos, essa não sou eu. Pensa que precisa desativar essa vigilância e ele está falando de suas expectativas. Permitindo-se atos de diversão e espalhava o ar de sua graça naquelas coisas que havia imaginado.

A umidade do pranto cria uma membrana que separa as coisas elevadas, com um certo regalo. Lhe contando coisas se agitava e requisitando opiniões envolve as palavras como um agasalho em forma de rolo – pra embrulhar as mãos para protegê-las do frio. Uma espécie de rede. E pelo tamanho de seu desprendimento e de sua capacidade de engolir o pranto, até de uma forma original, o momento é particularmente propício para o amor.

 

 

Toco a sua boca com um pensamento

Como se fosse pela primeira vez, sorria debaixo daquele véu que torna todas as coisas rendadas. Onde que os corpos abandonaram as almofadas, os lençóis, os beijos e se perduraram seres em estado de fraqueza e pouca nitidez. E que de pé, sua mão e sua boca entreabrissem e basta-lhe fechar os olhos para desejar salivas. Desfazer-se de tudo mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nos seus ocos, onde um ar pesado vai e vem, levantando levemente aquele tecido que já se manchara de batom (rubi) de tão próximo que estava do seu rosto. A voz, a voz ficava dentro de nós.

O véu aprisionava, protegia, e ali ousava desejar, pensar, sentir-se e quando tinha ímpetos, tocar-se. Tudo com um perfume antigo e um grande silêncio. O fôlego ainda juvenil, um pouco às cegas, seguindo o andamento da narrativa. Sem isso nunca iria saber o desfecho. A certeza de que aquele amor exacerbado não cabia em si, em todos cantos há aquele desespero também. Mas soou mais úmido que antes, as palavras queriam esgotar o excesso. Um brinde à amizade (im)possível.

O véu e ela própria seguiam pelo corredor, com as mãos postas para receber o alimento sagrado. O ápice de  gozo silencioso que é puro corpo, pura solidez.

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Daido Moriyama

Aceno

De fato, ela tinha razão. Esse seu amigo a pegou pela mão e ali percebeu que talvez nunca sentiria tanto tesão por outro toque. Seguia por aquele corredor escuro e gélido acompanhada (pela primeira vez) e como uma forma de sensibilizar a pele uma ligeira umidade se concentrou na sua nuca, e ali desejou que suas mãos ainda estivessem secas e não-trêmulas. Suspira, enquanto sente seu corpo ficando erógeno da cabeça aos pés, e na tentativa de prolongar o corredor e os arrepios, anda devagar e para como se dissesse: chegou a nossa hora. Ela não queria nada mais que isso. Tudo parecia parado demais, ausente. E essa lisura da pele lhe dizia mais uma vez que estava mortalmente apaixonada. Com um pequeno solavanco o casal prossegue a caminhada, agora ritmada. O corredor já estava acabando e via a distância a ser percorrida (juntos) inexistir. Aperta levemente os dedos agarrando aquela palma de mão sentindo um bem-estar inusitado que apontava para o desfecho. Um minúsculo aceno. Pega o espelho na bolsa, e tem medo de não encontrar a mesma cara de antes.

 

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O quarto que não conheci

Que as horas correm tanto mais rápidas quanto mais agradáveis são, e é bastante provável que se queira dar um pouco de beleza ao ambiente, na sua casa (ou quarto), que são um só.  Os detalhes fazem a presença e um fenômeno às avessas se faz sentir tanto mais demorado quanto mais ausente são as lembranças. Porque o gozo não é positivo, mas sim a dor, que a beleza traz. Uma dificuldade extrema em reconhecer isso,  e que cessem os movimentos a fim de fazer escolhas mais racionais.

As escolhas a partir de caminhos aparentemente mais fáceis,  por impulsos emocionais levianos, gritam:  aceite! A dúvida!  Necessidade de algo que liberte, que permita que se pense melhor sobre tudo. Detalhes, pele, movimento, janelas em quadradinhos, riscos no braço, cores, azuis e vermelhos. Quase se escuta a respiração. E quase se perde o ar com o que ouve. ‘Não se deixe guiar por impulsos emocionais e dê tempo ao tempo’.

Este é o momento certo para harmonizar seu próprio quarto-corpo, e a coisa toda começa com você se tornando um lugar mais bonito, pacífico, tranqüilo. Simplesmente mudando a disposição dos móveis, abrindo a janela. Rompendo portas. Os prazeres das pequenas coisas. Ficar em casa assistindo a um bom filme, lendo um bom livro e o desejo de cultivar um bom relacionamento e uma boa história com alguém.

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Fogo fátuo

Apoderou-se aos poucos do espaço. O que antes dormia (sempre um desejo de tentar dormir horas seguidas) encolhida, forçando a abrir as pernas e os braços. Fazia sempre como um exercício de yoga, tensionar e relaxar, se permitir e, mesmo que dentro de um aprendizado, expandir.

Sempre tão contida, tão mínima, voz baixa, gestos curtos, roupas escuras, sempre à procura do silêncio.

Vicente lhe dizia sempre da sua beleza, mas nunca sentira isso de fato. Algo contido, doído dentro. Aquele limiar do inativo para o prestes a explodir, o que nunca aconteceu, sempre na lentidão. A brasa, o suspiro. Desejara a solidão para que pegasse fogo. Um dos exercícios resumia a se olhar nua no espelho – como era difícil olhar as pernas, braços, ventre, seios (um bem maior que o outro).

Um dia encarou-se olhos nos olhos. Frio, esse frio que não passa.

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Deslocada do sentido (porque ainda sou machista)

No seio de uma vertente não tão alternativa falara muito, mas pouco claramente, porque era impedida (por si mesma) pelo medo da fúria, da resposta, do silêncio. Porque achara que falar a verdade incomodaria demais. Falou (pouco) e voltou atrás mil vezes, sempre na opção delete, suspirar, dois passos atrás. Pra não ferir o ego alheio, pra não ser desamada (porque falar traria desamor?). Daí vai ficando algumas amizades e amores na névoa, em que tudo acontece mas ninguém deixa claro o que acontece. Passara a usar os sobrenomes, ao invés de dar os nomes, era uma outra muito pouco conhecida forma de se proteger (de quê, afinal?) que merecem todo o respeito (sic). Toda sorte de inúmeros absurdos em sua biografia: ser sempre simpática, útil, amiga, amélia, amante, prestativa e bem-humorada para “compensar”.

A sua face amorosa está sujeita a abusos muito mais constantemente do que vai dizer sua consciência. A passividade que acontecera (que fere) desejara que isso não existisse mais, mas as consequências por tentar ter sido franca quanto (aos rótulos) são insuportáveis. Todos direcionados a si mesma. As mulheres estariam sempre na linha do ‘tinha que’. Entendera que qualquer mulher que fuja do padrão do mito da beleza e do comportamento ideal o faz de maneira caricatural e estereotipada aos olhos feridos. Sem pensar a respeito disso iria ser engolida. Uma equação difícil de fechar. O voltar atrás não é sempre a melhor solução. Nem a solidão tão pouco. Essa sensação de burrice não passa.

É cansativo, mas se não for assim, fica mais difícil ainda.

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Que seja ensinar felicidade

Os requisitos básicos para dominar toda a teoria, não consigo. Hoje, isso não existe mais de se entender  e se sentir à vontade, julgando e buscando autonomia como se ela realmente existisse num outro canto. Uma ação que dê visibilidade a esse conceito tão arcaico (sobre diversos eventos)  tão perverso quanto resumir.

Não há qualquer benefício de aprendizado, emoções ou comportamento que venha do simples agir corretamente.  Diversas vezes o ser da experiência e o sentido humano da vida tendem a ser mais flexíveis apesar das divergências sutis (pelas pessoas comuns). E tem quase sido esquecidos o alicerce e coração e do todo que você possa melhorar em alguns dos aspectos. O inconcebível de ser particular. Em toda a sua profundidade.

Uma amiga fala de sinais. Nada mais sábio nesse momento – árduo manter os trabalhos e aprender a ser mais flexíveis. O sentido fundamental é não limitar a vastidão que é legítima como qualquer outra atividade do espírito.

 

Acredito, embora ainda não tocando minha carne.

 

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Não toquem em nada

Na perfeição que encontramos na reparação e no auto-perdão, na renúncia do nosso orgulho,  talvez possamos existir e ampliar a experiência do afeto pelo outro… eliminar a culpa e a angústia que sentimos quando ao agirmos fora do padrão, amamos. Alucina. A moral  de uma atitude nossa que de um afeto tão grande (uma vontade boba de mexer nos seus cabelos) gerado assim que sentia e ouvia perfeitamente o ruído do carinho nas suas costas. Naquele instante (não) em sua mente (paira no ar) sente que deve deixá-la ir (a boa do afeto compartilhado) da mesma forma que vieram, sem tocá-la, compará-la ou julgá-la.

Conseguimos renunciar às desarmonias e junto e dentro compartilhar uma porção de coisas que produzimos em nós mesmos, pela nossa vida ou morte e iluminação e desilusões e incapacidades e desentendimentos. Pode ocorrer por deslocamento (de sentimentos e emoções) ou por projeção (de desejos). Compartilhar muito. E teve vinho e cigarrinho.

Unir-se às pessoas certas.

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Jan Groover

 

Ele choveu por aqui

Quando me dei conta estava celebrando o mundo das cores vigorosas de novo. O modo como grandes distâncias de vazio e calma são interrompidas por ilhas de tumulto, ruído e gente com esta súbita necessidade de estar sempre se movendo para lá e para cá, atordoa. Você pode até terminar se dispersando para que você não sinta um desnecessário cansaço mental, justamente para ensinar, escrever, e também para aprofundar-se mais em questões de ordem espiritual, discutir estas questões. Minha zona de conforto tem sido a melancolia, que conheço bem. Muito bem.

O mundo das cores vigorosas é mais leve mais rarefeito e quero estar assim, como numa crônica de um amor novo, de novo. Querem observar bem essas coisas e praticá-las.

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Franco Fontana

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Delicadeza

Uma mente agitada faz um travesseiro inquieto, pensando no amor: corpos e palavras. E cada segundo de lucidez é quente. No fundo sabendo que o outro lado da ansiedade é a liberdade, simples assim, decidiram namorar, que outro nome poderia ter aquele encontro que se estendia por vários outros? O de dentro e o de fora, pensava enquanto observava seu corpo, suas articulações, o desenho do pé, das unhas. Observava minuciosamente, de ângulos diferentes, sempre de forma furtiva e deliciosa. Guardava esses tesouros invisíveis e de quando em quando perguntava-se se era isso mesmo. Se era assim que acontecia. O de dentro e o de fora. Ouvia as palavras, ouvia seu corpo, comia tudo, insaciável que estava dele. Queria se iluminar, e sorver.

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