Que tom tem seu grito?

O aperto de viver em um mundo muito pessoal e individual era real, mas desejava que se garantisse  uma certa blindagem dentro possível. Só aquela leitura trouxe um pouco de mediação entre os mundos. O problema com leitura é que parece que você não estava fazendo nada. Quando você lendo se põe a escrever, volta a ser respeitoso ao próprio corpo, produtivo. Porque tem o gesto, a força, uma intensificação da força de vontade.  Nós novamente sozinhos. Alguém que pesca desejo, lê nas entrelinhas. Ele percebe o que você não percebeu que você fez. Uma alegria muito delicada a esse respeito, grita.

Consulta, guardado debaixo do travesseiro, o manual de como começar (bem). Da estrutura da limpeza se espera um pouco mais de consciência, estrutura pela qual você não está preso à família, nem a ninguém, e está disponível para ir aonde for preciso… Os tons e as nuances que pedem a espera de um pouco mais de conhecimento. A vida passou e se aprende coisas, mas mudanças? Acho que somos sempre os mesmos. Infelizmente.

As pessoas que estão mais em contato com suas próprias emoções e seus sentimentos, se relacionam de uma forma muito mais próxima com a dor de outra pessoa  – essas são as pessoas mais fortes que eu conheço.

Bem, é por isso que você precisa ser mais inteligente e confiar, ela disse. Já tenho 75 anos e, como todo mundo, não sou obrigada a fazer nada.

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Eu não tenho alma para vender

Ela sugere que o que você mais quer neste momento é encontrar a força e a força de vontade para vê-la e assim, através disso, conseguir o que deseja. É importante que venha de um lugar de amor e tolerância, de não agressão. Coloque seus medos para descansar! Me ajude, eu não tenho alma para vender.

‘Eu quero sentir você por dentro / ajuda-me no que me faz perfeita / e em toda a minha existência estive falha…’   e é essencial para entender como seu pensamento funciona, a gente se desdobra, se co-apresenta melhor. E há de se ter paciência com os desvios do pensamento ético, há de se ter paciência com os copos que estão pela metade, ou de ar ou de cachaça. É o devir, vamos criar outras subjetividades, gritam as moças.

Que o devir funciona sempre a dois, para dar conta de algumas possibilidades. Aquilo que impede os corpos de se moverem deveria ser relativizado, a força dos habitantes dessa cidade será maior. Um dia nos conduziremos pelas intensidades e faremos novas alianças.

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Gail Albert Halaban, From series Out My Window, 2007

Não morrer demais

Alegrias conceituais bem sucedidas são difíceis de retirar do pensamento, mas o novo bate bem as metas das probabilidades. O escopo é ambicioso: a relação entre substâncias e poesias. As fontes são originais: transmissões de rádio, mensagens codificadas, bordados, bolas de lã e guardados das gavetas. E, no entanto, apesar do que se poderia imaginar, o som permanece puro e escuro, mal-humorado e eletrônico. Pode-se creditar isso ao grande volume dos contrastes dos amores disponíveis…  Enquanto debruçado sobre as pedras, se concentra em pequenas máquinas e engrenagens. Encontrar relação dos ritmos entre o diálogo do rádio antigo e o som da água.

A imagem dominante é a da tempestade se aproximando (que atingiu nos atingiu durante a noite, imprevisível), seguida pela perda sem precedentes da vida e da terra, e, finalmente, o rescaldo.

Mas outras histórias estão em jogo aqui, também no que se refere a uma barreira construída para a tal tempestade; um preciosista, que observando que a área está abaixo do nível do mar, abaixo do nível dos olhos, brinca que podem estar cavando suas próprias sepulturas, que faz com que o tempo não vivido permaneça… não vivido…

Então, você está com medo de quê? A resposta é de ser a mesma de antes, a mesma no canto, quieta, aquela que não diz tudo sobre si… enquanto a chuva cai. A maioria sabe que se inundando apenas de uma história não se encerrará com o período de chuvas. Mas com ou sem tempestade, a água estará sempre a subir. Na tentativa de fundir ameaça e reconciliação, buscando o mesmo tipo de harmonia que sente em ouvir sua música preferida ao gosto de um café antes das oito horas da manhã, quer se aliar com a experiência.

Quer ser devorada pelo mundo.

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Eva Besnyö, Self-portrait, Berlin, 1931

 

 

Esbarrei no espelho e pedi desculpas

Vez que você estava livre de trauma saiu por aí alegre e tagarela. Indo para lá depois da esquina deleitar-se com prazer e felicidade e isso poderia ser tão estranho como uma conspiração.

Há maneira de ser o que se quer ser, deu pra ouvir. Quis o fim da tarefa no naipe da lisura do seu corpo – a sua beleza era uma espécie de gula divina, eu deveria dizer. Escrevera aquelas palavras com fluidos corporais em seu caderno, como em um novo transe, sim, foi uma entrada muito aguda, muito mesmo. E que seja para o exorcismo de seus próprios demônios! Como mergulhar num buraco negro a tensão entre o mundano e o sobrenatural quando a mente não consegue pensar abstratamente?

Pois que a realidade sempre se alivia com o prazer, já que há o comprometimento de cada um com seu mal-estar generalizado. Ela só pensa em se pintar, cabelos, unhas, lábios… Mas essa era toda a questão: como se passar em pinceladas; e até você conseguir isso, não importa que o assunto seja ostensivo, era pra se ter harmonia entre as partes.

Do início de uma letra, no meio de uns abraços, no final de um dia no campo. A confusão agradável que sabemos que existe cá em nós.

Daniel Egneus
Daniel Egneus

Cantarolando

Na parte da manhã quando eu acordar e o sol estiver atravessando a janela, você encherá meus pulmões com doçura. Preencherá minha cabeça com você. Devo escrever uma carta? Penso pedaços de uma música que eu não consigo esquecer e deixar sair. Eu posso estar perto de você? Posso levá-lo para uma manhã de sol e café imaginando campos pintados de ouro, lá onde as árvores estão cheias de memórias dos sentimentos, nunca te disse?

Quando a noite puxa o sol para baixo e o dia é quase completamente seu e todo mundo está dormindo, mas os mundos são você. Posso ser perto de você? (Ah) oh  [assobios]. Já faz um tempo que, então, eu realmente gostaria de conhecê-lo, mais, você sabe. Eles cantam uma canção assim, gostaria de ir até o horizonte. Apenas para você todas as lisuras estão girando em mim e tudo, tudo aquece. Lá pela linha de tristeza, sim todas as menos definidas listras dos gatos mais frios. Mas então estar-se a refinar, oh sim. E eu quero ver coração coração coração coração e alma.

Coração e alma porra, meu coração e alma. Por instante.

Sabrina Arnault
Sabrina Arnault

Quando isso acontecer

Apressando-se / atrasando-se são formas igualmente fortes de tentar defender-se do presente. Finalmente outro mês vem chegando – porque o medo das palavras vazias apavora uma imagem “zen”, razoável e mentalmente equilibrada que só o café trás. E se a vida se tornasse subitamente algo bacana no final das contas? – era assim a Matilde. Sempre otimista. Ela é mais poderosa do que a força agressiva, talvez em uma forma mais sofisticada. A gente duvida de que dizendo sim as coisas se resolvam. É essencial tomar atitudes práticas, ainda que elas se revelem pouco afetivas ou até mesmo um tanto quanto impiedosas. Nós ali, a tomar antídotos com biscoitos de coco. Chuva inundando casas, molhando colchões.

Ela é um único personagem que se esbalda a jogar tanta luz no drama que a gente tem como máxima da vida. (Confundir as coisas de substância com o seu simulacro). O papo é solto, o frio acontece na espinha, a cada baque. Penso em escapar dali, ir embora, descer o elevador, devagar, lance por lance, para pensar. Vou de escadas, decido, muito antes da minha saída. São mais felizes quando as coisas boas são esperadas para acontecer e não quando estão acontecendo. O ritmo é um dos mais poderosos dos prazeres e espera que continue assim. Quando isso acontecer, ele crescerá mais doce. Ficamos ali, a nos olhar, com as cartas na nossa frente, tentando materializar o tão sonhado ritmo doce. Como a busca ansiosa por prazeres nos faz sair correndo na frente para encontrá-los, tanto, mas tanto… que não podemos abrandar nossa respiração o suficiente para apreciá-los quando eles vêm.

Estamos, portanto, uma civilização que sofre de decepção crônica e recorrente – um enxame formidável de crianças mimadas quebrando seus brinquedos, perdendo seus amores, ficando de mau. Dói. Há de fato uma coisa como “tempo” – a arte de dominar o ritmo – mas o tempo está escorrendo … Sinto o eterno presente em meus braços que mal consigo movê-los. Mas Matilde reverbera – pois é o segredo do bom tempo, e eu só vejo degraus. Arte, só por amor.

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Sonia Handelman Meyer, Bus Stop

 

Experiências de fé

É como tocar a lua com os dedos dos pés. Se emocionava quando lembravam dela. Era como se fosse um pouco menos invisível, tão acostumada estava a ser ignorada. Não sabia como era se sentir querida.

Quer dizer, até sabia, mas muito pouco.

Dita. Falada. Pronunciada. Acostumara-se a sobrar, a não pertencer.

Agora queria uma família, uma família construída. Uma família sua. Daquele seu jeito. Pensou em aprender a falar sozinha, mais vezes, quantas conseguisse, pra aprender a ter voz. Aí não importariam os outros, as outras vozes. Ele disse: são apenas rótulos. Ela pensou, rótulos pesam demais, não são ‘apenas’.

Ela desejava que cuidassem dela porque sempre fora boa. Boa e quieta. Sempre tivera juízo. Era uma plenitude acreditar que alguém lhe recompensaria por ser tão certa. Ela perdera essa crença fazia tempo. Estava inevitavelmente sozinha desde então. Mas agora, agora, conseguia construir muitas pessoas dentro de si. E conseguira abrir seu coração às pessoas que pareciam que tinham algodão por dentro. Profundas e leves. A porta de cima ficaria sempre destrancada. Escancarada, melhor.

Estava um bocadinho séria, agora. E cheia de amores.

 

 

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Foto por Flávio de Aquino Carvalho

Rotina

Tudo parecia diferente, afinal. Coração pequeno, cabeça miúda pra pensar, braço dolorido. Estava ali pra fazer também perguntas tolas.

(Há tolice no amor?).

A gente não tem juízo para coisas de antigamente. Às vezes mais enfezada nos modos, enfezada nos sustos todos da vida. Que fosse sonho para se esperar e para sentir, uma coisa tão pouca de se querer. Tão pouco de se esperar. Queria ter grandes sortes. Havia de enfurecer. Pensara que havia algo dentro de si que a esperava, para quando sonhasse. E ela respondeu: que sejam por coisa nenhuma até que sentires coisa nenhuma. Que sossegasse. Mas o sossego durava coisa nenhuma de tempo.

Perguntaram-lhe: tens pressa? Ela disse sim, que era um jeito de dizer que tinha medo.

A secura de tudo. De todas as águas.

 

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Jacques Henri Lartigue

Ele adora torradas e farofa

Depois não falamos mais nada, não pensamos em mais nada, nada mais a gente quis.

Quando encontrar, guardo no bolso as histórias. Tremi, e a tremura é tão deliciosa como um encontro justo e firme de dois em um pensamento.  Internacional e acidental (mas ele é do mundo, não é daqui). Uma vontade derradeira (de nutrir laços humanos íntimos – o afeto, o desejo apaixonado e amizade) ameaça uma certa descrença (coisas de antes). Uma certeza absurda (custava a acreditar).

A relação mais rara, mais profunda. 

Nós temos muito mais bondade do que é dito. Eu gosto dele e ele gosta de mim. Nós usamos os nossos olhos mas o olhar está olhando, levianamente, aquele desenho no braço, aqueles escritos na pele. A partir do amor apaixonado eles fazem a doçura da vida. Os nossos poderes intelectuais e os princípios ativos aumentam com o nosso carinho. Dar uma pausa rápida em tudo o que era.

Eu sou tudo dormente, eu juro. Ele foi-se embora. Vi-o por um minuto, de relance.

No espaço pequeno, de manhã, quis café, quis cappuccino, quis torradas, quis banho. Quis sonho. Quis. 

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Helen Levitt

 

Ou mais precisamente,

De um significado infinito (o segredo) lento e preciso, pousou como uma névoa suave descendo sobre os últimos dias (não desanime). Enrouqueceu, a respiração suspensa devido à natureza da semi-improvisação, como um fantasma que tem medo de ter morrido. Deixe suas cores gastas, seu peso. Impressionam na disputa levantando-se no ar, num pulo ágil e bonito, como se tivessem vida própria e exigissem serem ditas – as palavras. Mostrou algumas curvas e espirais na bolsa e saiu a rodopiar. E seus sonhos? (Os meus sonhos estão em silêncio). Você  nunca pensa neles? Articulação. Sempre esperei (esperarei) um sinal seu. Antes do café, antes de cuidar dos dentes, antes de trocar a roupa. Antes. Nem precisa acordar, acordar, só abrir os olhos já espero um sinal seu. Deveria estar dormindo à essa hora. Então começa a escrever, palavra por palavra. Diziam que de longe era melhor. Com os dedos na boca percebe que a raiva é uma forma de tristeza.

 

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