Eu não choro fácil

O lugar que conhecemos, protegido e quente, perfeito na tempestade perfeita. Porque as tempestades são imprevisíveis. Exatamente, então é por isso que não queria perder tempo lutando contra, disse. Os riscos são muito importantes para mim e por certo quem irá sofrer as consequências é quem levanta o não, o basta. Mas eu sou apenas eu mesma. Quero que a pessoa na minha frente saiba que eu sou apenas humana (e que tenho medo de muitos enfrentamentos). E isso vem com confiança, acredite ou não. É a única coisa que irá, quem sabe, fazer a diferença, definir tal diferença.

Estarei completamente obsoleta se eu não correr riscos. E essa não é apenas minha vida, é nossa, pois eu sou duas.  Na escrita, na música, na madrugada febril, você se deve.  As fórmulas e ladainhas (justificadas, isso é pertinente) envelhecem depois de um tempo e as pessoas começam a vê-la através disso. E sua covardia, aquela que te traga, aparece. Mas também deu às pessoas essa imagem como “aqui vem a luz do sol, que é boa em guerrear!” Ahn, que eu simplesmente vou, “humm, não”.

Espero que algo especial saia disso – mas essa ideia também sugere uma natureza que não me é encarnada e que passear por minha pele nesse estado, na minha cabeça é algo dramático. Tudo marcado para os próximos dias e desejo me convencer do óbvio, do correto, do luminoso. Que algo está acontecendo posso dizer e que os passos que levaram aos meus desenhos e articulações acabados são muito pouco espetaculares.

De início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que sabe, sua tragédia principia. 

E uma vez que você percebe isso, a vida se torna um pouco mais fácil ou mais difícil. Mas especialmente diferente se você se reconhece, ao falar com outras pessoas, por exemplo, que você não é a única. O que faz sentido sobre esse pensamento é que você tem uma determinada função de uma ação coletiva. 

Quando você faz o tempo suficiente, por um tempo suficiente, você quer manter-se aberta. Se fechar tem sido desconfortável, pois a casca não é grossa o bastante e a vulnerabilidade é importante. 

Há pássaros na tempestade  e vou simplesmente colocar o meu melhor para fora e segure, segure, segure. Aperte. Divirta-se. Você vai pousar em algum lugar e você também terá que se mudar de lá. Eu também gostei do alto.

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Toco a sua boca com um pensamento

Como se fosse pela primeira vez, sorria debaixo daquele véu que torna todas as coisas rendadas. Onde que os corpos abandonaram as almofadas, os lençóis, os beijos e se perduraram seres em estado de fraqueza e pouca nitidez. E que de pé, sua mão e sua boca entreabrissem e basta-lhe fechar os olhos para desejar salivas. Desfazer-se de tudo mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nos seus ocos, onde um ar pesado vai e vem, levantando levemente aquele tecido que já se manchara de batom (rubi) de tão próximo que estava do seu rosto. A voz, a voz ficava dentro de nós.

O véu aprisionava, protegia, e ali ousava desejar, pensar, sentir-se e quando tinha ímpetos, tocar-se. Tudo com um perfume antigo e um grande silêncio. O fôlego ainda juvenil, um pouco às cegas, seguindo o andamento da narrativa. Sem isso nunca iria saber o desfecho. A certeza de que aquele amor exacerbado não cabia em si, em todos cantos há aquele desespero também. Mas soou mais úmido que antes, as palavras queriam esgotar o excesso. Um brinde à amizade (im)possível.

O véu e ela própria seguiam pelo corredor, com as mãos postas para receber o alimento sagrado. O ápice de  gozo silencioso que é puro corpo, pura solidez.

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Daido Moriyama

Anel no buraco da parede

Me dá de volta, ouvira ao longe, seguido do choro, palavras, o que a essa altura já havia esquecido tudo. Chegara a fazer uma lista com objetivos a serem cumpridos de bom grado. Infinitas tarefas.  Sem ele podia se deixar ser com maior tranquilidade. Fiquem vendo, displicência ao descer as escadas, andava descalço, falara coisas não muito dignas, ria alto. Ela disse que não conseguia entender o que ele disse. Ele disse que sim, que ela entendia. Ahn, isso entendia. Ela estava discutindo revoltada contra si mesma e estava convencida de que merecia trabalhos forçados num país distante. Era quase impossível remover essa sensação de quando está bebendo água quando fugiam no deserto para o oeste.

 

Novas forças.

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Deslocada do sentido (porque ainda sou machista)

No seio de uma vertente não tão alternativa falara muito, mas pouco claramente, porque era impedida (por si mesma) pelo medo da fúria, da resposta, do silêncio. Porque achara que falar a verdade incomodaria demais. Falou (pouco) e voltou atrás mil vezes, sempre na opção delete, suspirar, dois passos atrás. Pra não ferir o ego alheio, pra não ser desamada (porque falar traria desamor?). Daí vai ficando algumas amizades e amores na névoa, em que tudo acontece mas ninguém deixa claro o que acontece. Passara a usar os sobrenomes, ao invés de dar os nomes, era uma outra muito pouco conhecida forma de se proteger (de quê, afinal?) que merecem todo o respeito (sic). Toda sorte de inúmeros absurdos em sua biografia: ser sempre simpática, útil, amiga, amélia, amante, prestativa e bem-humorada para “compensar”.

A sua face amorosa está sujeita a abusos muito mais constantemente do que vai dizer sua consciência. A passividade que acontecera (que fere) desejara que isso não existisse mais, mas as consequências por tentar ter sido franca quanto (aos rótulos) são insuportáveis. Todos direcionados a si mesma. As mulheres estariam sempre na linha do ‘tinha que’. Entendera que qualquer mulher que fuja do padrão do mito da beleza e do comportamento ideal o faz de maneira caricatural e estereotipada aos olhos feridos. Sem pensar a respeito disso iria ser engolida. Uma equação difícil de fechar. O voltar atrás não é sempre a melhor solução. Nem a solidão tão pouco. Essa sensação de burrice não passa.

É cansativo, mas se não for assim, fica mais difícil ainda.

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Insone

Era uma construção simples onde vivia e dormia em lençóis pintados para se assemelhar a tijolos. Sentia-se por vezes enterrada na noite. Não permitia contato fácil com o mundo – foi dormir vestida e com uma letargia paralisante. Fez de tudo para ficar acordada, chegou a montar guarda e tentou trancar as portas para que o sono não pudesse entrar. Submersa ali na escuridão completa durante a noite não tinha a menor ideia das indispensáveis formalidades que pertencem à vida diária. E de que não era a única. Uma lei do silêncio se estabeleceu em um caminho cercado de árvores e mesmo depois dos vereditos e mesmo com as histórias se multiplicando, o dormir e o acordar representavam perigo.

Com os que brincavam, mesmo de maneira intrincada, ela era idêntica. Os sinais (uma ilha branca de olhos azuis) de ordem dizendo que iria se tivesse a oportunidade! Em muitas formas só pode ser conhecida por matinais gestos que fizeram parte do seu repertório. (Queria saber como eram os gestos de sua vida). Do lado de fora das indiferentes reações ao abandono, das janelas dos quartos às noites que mais parecem painéis solares, os pensamentos iluminam.  E o que aconteceu mesmo, do mais simples ao depois das casas coloridas, foram os turnos cozinhando para os enlutados.

Os grandes campos férteis podiam ter sido interrompidos, mas parecia perdida em pensamentos e se certificou de que o registro de gás estava realmente fechado. Como uma outra tentativa velada de encorajar o abandono (me disseram que foi melhor deixar tudo em silêncio). Ter perdoado por vontade própria teria lhe feito conseguir escapar de fraturas internas.

Se via velha e branca adormecida.

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Olivier Culmann, Spectateurs, 2005

Era capaz de se sentir autorizado pelo sistema

Como passa rápido e logo chegamos ao nosso último dia, pena não podermos voltar os ponteiros do relógio para tentar outra vez. Poderia pensar que isso nos trará algum conforto. A melhor maneira de ter certeza acabou gerando ainda mais expectativa, não mencionei o ocorrido por muito tempo e com essa atitude tudo parecia seguir seu rumo normalmente. Eu achava que  não tinha o poder de me afetar diretamente.

Agindo de maneira responsável e manifestando compaixão que mais dão sentido às nossas vidas do que ao coração daquele que fere – era o que tentava realizar. Se pensamos a cena do tema da violência como uma categoria da prática contra o outro, deixamos embaixo do tapete aquela que cometemos contra nós mesmos. O próprio limite entre o ser e o parecer inevitável da violência é questão para pensar. A demora em se perceber como mais uma face de ações banhadas de sordidez era pedregoso e dolorido – com o tempo era mais difícil esconder o nojo e a raiva. E vê-lo simplesmente me deixava deprimida e me fazia sentir muito vulnerável por dias.

Esta não é uma questão para ser debatida com teorizações complicadas. Trabalhava com improvisações. A única coisa que poderia fazer é usar bem o presente. E em tudo isso utilizando apenas os níveis mais superficiais, elementares e menos refinados do espírito humano como ponto de partida.

O essencial permanece escondido de nós sem que se seguisse vivendo por aí. E o discurso fofo de direitos e de sonho de igualdade não tira o peso do estômago.

Simplesmente se busca uma leveza de corpo.

 

 

 

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Deixe que pouse

Aberta e natural, num espaço que não tem problemas, sem subdivisões, expressando suas impressões a respeito de qualquer assunto que a toque. Importante é equilibrar suas forças e suas escolhas… recordar o que vale realmente a pena desejar. Uma imagem, um som. [Não ceder à exaustão] de escolher projetos – o convívio consigo mesma nem sempre é pacífico. Não chega a grandes conclusões. Segue devagar pelas cores, formas, contornos, conceitos. Isso deveria ser o suficiente para ficar envolvida com o querer ou não querer alguma coisa. Como um subproduto da esperança, a busca corre  num constante ir e vir, tentando controlar as circunstâncias da vida.  Contemplar a impermanência proporcionando uma maior aproximação das coisas e não ter um movimento tão amplamente largo em direção à tristeza ainda é um desafio, sabia disso.

A vinda de mais um impulso contrário se faz inevitável. Você é você e você é aquilo que você pensa que é. E também você é o que os outros pensam que você é. Dualismo imaginário em última instância, tem essa sensibilidade. Sequer é real. Passeamos, olhamos tudo, queremos e desejamos cultivando a apreciação numa perspectiva de auto-aceitação. E a aceitação auto-centrada se tornara um hábito muito forte e a querência não transfere suas virtudes às ações.

E todo dia dizem que confunde conceitos numa boa fé mobilizada desalimentando monstros distantes daqueles que não desejam construir nada.

E o pouso do pensamento há de ser leve.

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