In all my holes

As certezas de que sobreviveriam podem ser vistas na minha escrita.  Há tinta, vinho, respiração, fumaça, desejo, consciência do presente e concentração. Fazer escrita é uma prática de meditação. Eu escrevo as palavras ou sentenças que podem ser conhecidas como algumas memórias, inventadas ou não. Sei que um dia  terá chumbo em minhas asas por ter lembranças que querem ser desmemoriadas. Sucumbir a suas obsessões seria até meio indecente, meio ridículo, aí vai que retorce, capricha no forte sotaque carioca e mostra uma coragem que nem sempre se sente, mas não haverá o que temer.

Na empreitada de então, foram ouvidos oito dos nove integrantes que não conheciam bem a área, tudo é forma, aparência, ilusão e perspectiva. Depois de troca de acusações eles entram para o quarto. E o quarto entrará pra história.

Sim, ultrapassaram alguns limites. De tal fruição nada se sabe.

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Helena Almeida

 

 

 

Insone

Era uma construção simples onde vivia e dormia em lençóis pintados para se assemelhar a tijolos. Sentia-se por vezes enterrada na noite. Não permitia contato fácil com o mundo – foi dormir vestida e com uma letargia paralisante. Fez de tudo para ficar acordada, chegou a montar guarda e tentou trancar as portas para que o sono não pudesse entrar. Submersa ali na escuridão completa durante a noite não tinha a menor ideia das indispensáveis formalidades que pertencem à vida diária. E de que não era a única. Uma lei do silêncio se estabeleceu em um caminho cercado de árvores e mesmo depois dos vereditos e mesmo com as histórias se multiplicando, o dormir e o acordar representavam perigo.

Com os que brincavam, mesmo de maneira intrincada, ela era idêntica. Os sinais (uma ilha branca de olhos azuis) de ordem dizendo que iria se tivesse a oportunidade! Em muitas formas só pode ser conhecida por matinais gestos que fizeram parte do seu repertório. (Queria saber como eram os gestos de sua vida). Do lado de fora das indiferentes reações ao abandono, das janelas dos quartos às noites que mais parecem painéis solares, os pensamentos iluminam.  E o que aconteceu mesmo, do mais simples ao depois das casas coloridas, foram os turnos cozinhando para os enlutados.

Os grandes campos férteis podiam ter sido interrompidos, mas parecia perdida em pensamentos e se certificou de que o registro de gás estava realmente fechado. Como uma outra tentativa velada de encorajar o abandono (me disseram que foi melhor deixar tudo em silêncio). Ter perdoado por vontade própria teria lhe feito conseguir escapar de fraturas internas.

Se via velha e branca adormecida.

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Olivier Culmann, Spectateurs, 2005

Você tem que se aquecer

É um  encantamento estar longe de onde há o perigo e da última coisa que você se lembra (uma briga). Lá vigora também aquilo que salva à auto compreensão de nossa própria condição como seres humanos assolados pela incerteza (olhos vendados). Arrisca transformar-se em pesadelo autodestrutivo – a ambiguidade é preferível à clareza e à simplicidade. O ônibus sacolejando sobre um talco vermelho, assemelhando a paisagem a filtros vintage que encontramos por aí –  alimentando tipos específicos de ilusão, uma memória que pertence a todos. Não restou sonho de liberdade possível, técnica que equaciona urgência com pressa, por si mesmo emergencial. A mudança resulta de uma instrumentalização da necessidade de uma postura mais racional que não se desloque da ação.

É lento. Nada parecido com o ativismo frenético e o falatório vazio a fim de consolidar e estender sua ideia original. Ideais ainda imaturos. Começa a notar que coisas insólitas estão acontecendo com ela e, pior, está fazendo coisas estranhas e irreconhecíveis. O movimento cessa, a poeira invade as janelas e tudo fica coberto com uma fina camada que seca a garganta e fere os lábios. Abre a bolsa e entrega uma moeda dobrada ao meio – enfrentar um livre fluxo do pensamento.

É claro que você terá de criar o vilão – lembrou.

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William Klein, Serge Gainsbourg, (album cover of Love on the Beat)

 

 

 

 

A sobrevivência não é uma habilidade acadêmica

Quem viu, as granadas que estraçalharam dentro do peito, viu que ninguém notou o papel da discordância dentro das vidas sem examinar nossas muitas diferenças.

O que isto mostra sobre a visão é triste e não têm nada a dizer sobre existencialismo.

Pode lembrar amargamente das palavras que lhe foram roubadas ainda dentro da boca.

Elas ganham um significado que nunca tiveram.  Apenas os perímetros mais estreitos de mudança são possíveis e admissíveis. Promover a mera tolerância de diferença, procurar novos meios de ser no mundo pode gerar a coragem e o sustento para agir onde não existem alvarás.

Mas ela não era daquele jeito, restam os  conflitos na esfera do individual. Até ficar de um jeito que não era, não era assim. É do ser humano, mesmo não fazendo sentido. As mortes vêm e vão, que a luz mais bonita do ano é a do outono, repete para si como uma ladainha enquanto foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapato cheias de palavras.

Todas continuarão guardadas – sobre o erótico, sobre cultura, feminismo, silêncio. O duro é não valer o que pensava. Exaspera em pensar que as condições que levaram ao desaparecimento por certo levarão outras ao mesmo fim.

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It’s ok thinking about ending…

E teve aquela que ficou 8 anos sem dar pro marido porque ele a destratava. E escolheu, você não encosta mais a mão em mim – ela não entendia porque ele a amava no sexo e não no dia a dia. E ele teve um caso, cinco anos, e ela foi humilhada. Mas contou que virou a mesa, quebrou pratos, berrou verdades, e que a partir dali ele fez tudo o que ela quis. Contou isso alto, berrando, fazendo todas em volta rirem. Em um casamento de num sei quantos anos metade foram sem sexo, com traição, com desgosto.  E teve aquela que se julgava boa esposa, que já tinha aproveitado a vida de solteira e que agora o casamento era algo muito valioso e que valeria a pena manter. A vida dela teria pouco sentido sem o casamento e ela sabia. Depositava ali seu cotidiano, seu consumo, sua vida e lá pra si dizia que não se pode ter tudo afinal. E outra que ama um homem casado, e ama e ama. Se contenta com espaços (entre família) que eles conseguem, com o sexo nirvânico, com os doces que ganha, e ali permanece, vivendo esse amor sem futuro, evitando pensar para não estragar. Tinha momentos de lucidez, de que aquilo não estava sendo justo com ela mesma, ou do quão limitada e pequena a posição de amante, mas, silenciava sua insônia com chocolates e algumas coisas boas de comer. Aquela que se contentava em ser a última opção da noite, sempre ia pra casa com o moço, bêbados os dois, se convencia de que essa forma era uma boa forma de amar. Já que ela gostava de sexo com ele também, e queria estar acompanhada  naqueles finais de noite. Os dias que se seguiam eram de evasivas, desencontros, estupidezas, que eram engolidas no encontro seguinte. Entristecia, mas não dava ouvidos quando alguém lhe dizia que ela seria maior que isso. Ela se via exatamente daquele tamanho e naquele lugar. Ela não era feliz. E tinha aquela, a mais triste de todas, que era muito politizada, cheia de palavras e discursos, de posturas e composturas. Viveu um relacionamento abusivo durante sete anos e fazia exatamente o contrário que suas palavras diziam. Mas ela pouco sabia disso, afinal, era uma equação difícil de se resolver, como ser mãe, esposa, dona de casa, profissional sem ser submissa. Ela simplesmente não entendia como isso se dava na prática. Costumava fazer tudo o que podia para que o outro gostasse dela. Ela sentia que ele desgostou da vida com ela quando ela engravidou, mas ela insistia, porque mais importante que ela estar bem era estar casada. Ela se sentia diminuída por ter desistido da profissão, sua auto estima foi se estilhaçando. Tinha aquela outra que se agarrava nos ciúmes, e por isso se submetia às vontades de controle do outro como uma troca justa. E tinha aquela que achava que era pra ser assim mesmo. Um ou outro tanto faz, são todos iguais e ficar sozinha é o demônio.
Traições, tensões, maus tratos, insultos, mentiras.
E ainda tinha gente que defendia que casamento era assim mesmo.
E ‘ele’ se aproveitava da fragilidade ‘dela’, aproveitava muito, porque ela foi criada pra ser assim. E ele também. Nem tudo o que a gente aprendeu é pra ser. Não é porque as coisas sempre foram que devam continuar.
It’s ok thinking about ending all this shit.
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Mona Kuhn, Lyric, 2012

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De mudança

Desde que o conheci ele está de mudança. Mudança de estado civil, de casa, de trabalho, de pele. Ele me contou que precisava mudar, que sentia que sua morada não era ali naquele apartamento. Tempos diferentes, o que envelhece a alma e o que passam dias. E quando os tempos se afinaram, ele foi. Pra roça ele foi. Sem água, sem muro, com patos, gansos, cachorros, monte de gente.  É engraçado, que quando a gente sente a gente sente. Conheci-o endurecido por tantas regras, modos de fazer e usar. Hoje é a pessoa mais acostumada com a transição que conheço. E para isso ele precisou de silêncio, velas flutuantes, cartas coringa, ouvindo o relógio da matriz, que bate de meia em meia hora, só de vez em quando.

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