E eu sou só eu, só eu só, só eu.

Tu que andas pelo mundo alivia, diz por favor, canta passarinho, alivia… Eita que música linda. Coração vazio perguntando e vivendo a dar psiu, alivia… Tem pena d’eu. Como dizem, não tem jeito. O rei de ouros: tesouro, riqueza, soberania, inteireza e quiçá alegria. Aquelas alegriazinhas de nada, zabumba esquisito, um frio pequeno. Aquele que extrai a riqueza de seus esconderijos, aham, isso, os esconderijos.

É moderno, um pouco imaturo, um tanto afetado, intencionado a atrair a atenção para si aos poucos. Vai e volta, é um vício. Um isqueiro (pra modo de poder fumar), grande ou pequeno, grande, qual cor vermelho, amarelo ou azul, azul piscina vintage. Um chocolate sabor café, sempre o café, vem mordido, que delícia meu deus. A vontade é de conectar pontos, que nem alegre nem triste e nem poeta. Pra todo mundo eu dou psiu, satisfação. Selvagem e inconstante sinto sem coragem para desenhar muros. Ainda. (I wish). E nesse dia branco, se branco ele for, se rosa ele for, se bonito ele for… se você quiser… e vier, será memorável ouvir seu coração. Se a chuva cair, um pedaço de qualquer lugar, tão grande e imprevisível.

Um tição, esplêndido como um dia de verão, suscetível aos vôos de êxtase e das chamas de um leve tormento interior. Os pingos caem leve Emocionalmente sente-se como de frente para o mar, não o mesmo mar que você conheceu. Não mais. Suspenso. As coisas desse mundo estão muito erradas. O discurso de ódio toma conta, monte de ódio como forma de vida. Pode ser mais fácil viver a vida do outro do que a sua, imagina, onde isso nos levará. A chuva enternece, atividade fora de moda essa, tomar pingos na rua. O cabelo fica todo bagunçado, arco-íris seria um brinde (que não vem). Proibida, era, eu queria era arrumar jeito na vida. E algumas gargalhadas.

E eu sou só eu, só eu só, só eu.

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Emmet Gowin

Ela tinha muita fé

Ela era miudinha, muito pequenina.

Quando morreu, caixão pequeno, as rendas as rosas, assustavam, porque para o meu olhar de criança, ela tinha sido uma fortaleza. Ao pó, dizem.

Os velórios são bonitos, o miúdo caixão em exposição para permitir que parentes, amigos e outros interessados possam honrar a memória antes que aquelas terras todas, pesadas, imutáveis e férteis a cubram.

Era uma autoridade, principalmente religiosa, o que mais se falava, ela tinha muita fé. Sempre fazia crochê, sempre estava sentada com linhas e agulhas. Gostava de flores e de plantas, o que a deixavam muito emocionada. Ela era uma rocha, firme, aguentava tudo. Aprendeu assim, talvez tivesse medo do que estava fora, fora dela, livre. Casou cedo, muito cedo, muito. Quase criança. Casou sem amor, sem amado. O amor vem à força né, menina. Era uma rocha, dali não saía lágrima. Todas as bestagis do mundo eram resolvidas no terço. Ou naquela olhadinha por cima dos óculos, sem parar o trançado das linhas. A gente, de outra geração, filhos dos filhos, achava que a comida que ela preparava era cheia de amor, temperos, carinho e abundância. Vi depois que não era bem assim, ô menina, ria, detesto cozinhar. (A gente, as crianças, só tomávamos café do segundo coado. E eu nem gostava de café ainda, só do cheiro). Só cozinhei a vida toda porque era obrigada. Nisso gargalhava. Ela nunca sentara à mesa conosco. Comia em pé, na cozinha, prato na mão. Mas Vó… quieta, boca miúda. É assim. A gente só aguenta. Nunca quis contar nada, caso nenhum, só aqueles de riso frouxo. Porque mulher é assim, só temos que aguentar, mais nada. Mas ainda assim eu a olhava com admiração. Olhava-a com carinho, queria conseguir entrar ali, dentro daquele sentimento. Até que um dia desisti. Eu queria era fechar fechadura por fechadura, porta por porta.

Agora choro compulsivamente, estou com medo dela ter vindo morar em mim.

Calada
Calada

Sobre amores

Talvez dez segundos se passaram antes que eu observe os dois irmãos por trás da cabine, segurando o riso e sorrisos como se eles guardassem um grande mistério. Me viram e rapidamente desviaram o olhar celebrando a ciência e seus segredos guardados a quatro mãos. 

A Lua intensificando sentimentos, pensamentos e a intuição (alegria, abundância e amor). Murchei com a mansidão do dia. Ao lado uma velhinha ganhou uma flor para colocar no cabelo. Ela ria, pensava bobagens, certamente. Nós usamos as histórias de nossas vidas – às vezes até mais profundamente, através da membrana mais interna, física mesmo, que te separa do mundo.

Faziam anos que não o via, a gente se gosta né, o carinho transborda. Sentem-se como sempre. Você está linda! Sempre assim que começavam, aquela prosa solta, boa. Mas eu envelheci. Mas isso não é ruim, é a pele que é diferente na forma como estamos com nossos próprios ossos. É bom. Olho para ele e o admiro, sempre o admirei. Uma fortaleza. 

Você é a aquela pessoa que se pode falar sobre a sombra de uma nuvem, sobre a canção de um pensamento, sobre arte, sobre as micropolíticas nossas de todo dia. Mas conversamos mesmo sobre a pele – esticada, sensível, enlouquecida. Os amores estão longe, uma pena, só mais uns dias. E a Madame nos calou. Estávamos diferentes, estávamos bem. E bonitos até não poder mais. 

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O azul de todo dia

Seguia pelas ruas e de dentro do táxi observava pontes e bicicletas. Ele fez cara de mau, aposto que era só pra foto, riu vendo o trio de turistas. Então eu permaneci, destruiu a imagem maior da desistência. Pensava como ali era um paraíso para os fumantes, o seu coração é oco e estou afogada em tristezas, ouvia no rádio. Centenas de pessoas falam, podem falar. Só ter quem as ouça.  Mais desanimador do que a apatia que se tornara o modo de ser deles era a matéria-ódio que se instaurara nos espaços vazios.

Era quase imperceptível, mas ficou bastante evidente nos meses que se seguiram. Sem a vontade de espera sua pele queimava diante do vazio que estava. Preenchia-se com carinhos, com dedos, letras e café. Se você valoriza sua saúde mental, empenhe-se na direção de coisas que lhe dão prazer. Para entreter-se somente. Vivemos como que nos debatendo como os justos que permanecem em silêncio. Então para não ter que dizer corria riscos.

Da perdição que é o descarte, agora voltamos ao centro de tudo e o que conhecíamos era insuficiente. Desceu, pagou, e ficou muito tempo ali, na entrada da estação, ao lado da sua bagagem, assumindo sua nova condição. Eu não podia levar você, e eu nem percebi isso. Lembrou do mar estrangeiro tão diferente do seu mar. Eu tenho o corpo sem mente e ele grita como a dor. Mas a boca não grita e nem sequer sussurra, boca calada, porque ‘seu pai evém chegando’. O mais pessoal que está disposto a ser, e quanto mais íntimo você está disposto a ser sobre os detalhes de sua própria vida, o mais universal você é.

Sorri gostoso quando vê a placa da estação do metrô, de um azul sem pátria, pantone que era.

 

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Helena Almeida, Inhabited Painting, 1975, Acrylic on photograph

 

Esta é a mensagem desta carta

(Um grande vento de otimismo vai soprar na sua vida em breve). Alguém escreveu que era um trabalho inédito, na verdade, estava em uma posição extremamente positiva quanto ao futuro, embora inédito não era. Mas também, colocado daquela forma, calma e rasante, recusando a exploração da energia explosiva e força vital, transferidos para o espaço da arte, era como acordar no meio da noite. No que dizia respeito à sua criatividade funcionava melhor. Seu estilo de vida vai evoluir no sentido de criar mais espaço para o silêncio, atividades de lazer e tempo para viver. Os próprios intervalos de verão, milagrosamente perfeitos, seriam em piqueniques com toalha xadrez vermelha. (Permitir que gerações distintas percorram as memórias de Pedro). Lembranças do mar que vão desde o calor de uma noite para dias ainda mais quentes e vaporosos – mais tipicamente esmagados em um corpo que apesar dos suores permanecia intacto. Na bagagem alguns bons sanduíches de presunto, guaraná e bananas. Estava com fome mas já estavam quase lá. Seria um registro de memórias, principalmente de outros povos (mesmo que imaginados) e, ocasionalmente, as suas próprias. Queria um vestido de fios de pérolas penduradas costurado ao corpo, literalmente.

De uma forma ou de outra, você irá estudar e irá aprender. Irá absorver o que os outros fizeram antes de ti (a sabedoria das pessoas mais velhas, dos seus pais e outras pessoas idosas). Uma fêmea às voltas com frescos, ainda que sangrando e inflamando punções na alma, presos sob a pele dos anéis, sugeria um consentimento eufórico. Sua vida vai se tornar mais estável e positiva em relação ao seu comportamento, vai ser dinâmico e não terá perturbações importantes, o que lhe dará liberdade para implementar seus planos a longo prazo.

Você não vai sentir qualquer necessidade especial de fugir, a vida real não é difícil pra você.

Areia, pés descalços, umidade, textura. Alegria dos lanches, alegria da companhia, alegria da vida. Alegria da língua, dos ventos e cheiros, é uma forma de retiro. Não podemos mais acreditar, mas as necessidades e anseios que nos fizeram compõem essas histórias de ir e voltar… Estamos sós, é violento. Ansiamos por beleza, sabedoria e propósito. Queremos viver para algo mais do que apenas nós mesmos.

É o lugar perto do coração.

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De mudança

Desde que o conheci ele está de mudança. Mudança de estado civil, de casa, de trabalho, de pele. Ele me contou que precisava mudar, que sentia que sua morada não era ali naquele apartamento. Tempos diferentes, o que envelhece a alma e o que passam dias. E quando os tempos se afinaram, ele foi. Pra roça ele foi. Sem água, sem muro, com patos, gansos, cachorros, monte de gente.  É engraçado, que quando a gente sente a gente sente. Conheci-o endurecido por tantas regras, modos de fazer e usar. Hoje é a pessoa mais acostumada com a transição que conheço. E para isso ele precisou de silêncio, velas flutuantes, cartas coringa, ouvindo o relógio da matriz, que bate de meia em meia hora, só de vez em quando.

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