(a)mares

Eu esqueci como você fala, eu esqueci como falar com você.  Suas mãos no meu bolso me aquecem como o sol do verão ou o calor do fogão. E eu me lembro de ter tido meu primeiro dia inditoso até então e tudo o que se quer é dirigir até que saia da cidade. Estou tão cansada de ser, não tente me abraçar agora, ergo. Suponho o que você diria, suponho o que você ouviu. Diálogos inventados, ensinados. Vou-me agora a tentar encontrar aquilo de que não preciso, logo eu, que nunca gostei de ser ensinada…

Serenidade e paz serão o modo de vida diária. Aprendeu as habilidades ao longo do caminho para construir seu próprio ninho no alto do penhasco e no que intui ser seu auge e a última parte de sua vida, renunciará à abundância e ao conforto. Mexe em seus próprios cabelos (auto-carinho) e lembra que pode ainda amar costurando suas próprias meias.

Sua memória está reservada, em todos os (a)mares. Pode parecer um evento importante no momento, devido à intensidade e à forma como o faz se sentir segurando um copo com um peixe pulando. Na mão esquerda segura um conjunto de escalas para equilibrar-se, assistência e resistência.

Eles estão se olhando muito carinhosamente. E se olharão mais.

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Quando paraíso

Acreditava que grande parte daquela estrutura, ainda que invisível, era imutável. Com uma taça nas mãos circulo pelo ambiente à procura de micro paisagens. Desejo de voltar às flores, ao sol e a todos os azuis (sentimento de afeição). Logo após um dia particularmente feliz, onde os caminhos estiveram por tanto tempo obstruídos, edito minhas imagens e sinto-me refeita, já que não precisavam de filtros. O olhar necessita cada vez menos de edição. Claramente, a mente tem um poder tão grande de se concentrar em qualquer momento que parece não ter um único estado de ser. E vou finalmente conseguir esquecer, perdoar, aceitar e compreender (…) não nessa ordem. Não em ordem.

Quando vi um dos dois entrar no táxi senti como se mesmo depois de separados eles certamente se reuniriam novamente. Separação temporária. A obviedade do que as faíscas que saíam dos dois significaria é desconcertante. Acontecem, sabe-se, quando o natural seja que se alinhem. Tenho um instinto profundo pela aurora, um trisco de racionalização e naquele estado (onde mais vulnerável) poderia ser facilmente abduzida por meus próprios delírios. A certeza acontece, pois que a incompletude gera encantamento. Pastel frito. Melhor pedir mais um, estou com fome. Sabe? O desnível da encosta era para se equilibrar. O reflexo na porta automática mostra alturas, diferenças e muito sorriso.

Aqueles que prezavam pela renovação da língua ou pela palavra nova que se inventa, ardiam naqueles dias. A violência atinge quem amamos que tornam-se vítimas no espaço onde deveria existir cuidado. Onde deveria existir a comunhão. Tempos difíceis, tempos horríveis aqueles. Há um grande trabalho negativo de destruição sendo realizado. Exigir a limpeza do indivíduo após investidas do estado com agressiva e completa loucura é infértil. Um mundo abandonando nas mãos de bandidos que se despedaçam uns aos outros e destroem os séculos. Tempos difíceis.

Das linhas paralelas se falava muito, enquanto o outono se aproximava, enquanto ainda no verão se esperava. Aqui está a nossa nuvem de diversão; poucos serão capazes de prever tal intensidade.

Tem sido insistentemente difícil saber o que realmente queremos; difícil distinguir entre amor e luxúria, entre o mundo prático e o mundo subjetivo; difícil não sucumbir àquela repugnante tendência perigosa (até um pouco religiosa) a idealizar e a julgar; difícil conciliar a proximidade necessária para a intimidade com a distância imposta e já necessária para o desejo; difícil aceitar a espera.

Queríamos dar beijos na boca e também nas bochechas.

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Carla von de Puttelaar, Untitled, 2007

E dizem que naquela época o nosso universo era um mar vazio

Há um jardim peculiar de flores brancas perto do lado oeste da cidade, rezava a lenda que lá as flores se transmutaram de granadas. Conforto, beleza. Eu levei um fio de cabelo de sua cauda e quis colocá-lo cuidadosamente no chão, bem perto das pedrinhas. Depois, há de surgir água na minha sede. Eu sei que também foi bom para a satisfação pessoal visto o tão profundo e azul líquido que endurecerá a pele – desejo. Eu e você, nós estamos sozinhos e fugindo dos gigantes. Você, certamente mais do que eu, sabe que pelo bem estar ‘das pessoas’ quais pessoas deveriam ser.

Se costuma prezar em períodos secos, além disso, mais distantes estavam os horrores que fizeram com que do fogo sugerisse meu frio. O seu segredo pode estar exposto.

Dia após dia, tomo café com açúcar na cozinha encarando a respiração, enquanto ninguém quer saber sobre eles e para onde eles apontam. Para lá onde vou, ainda que me detenha sozinha, sabem sobre um tolo em uma colina. Uma pedra preciosa ao sol. E seus olhos vêem um mundo, um mundo oculto que tem milhares de vozes. 

Sussurre a verdade e rapidamente ninguém mais irá ouvi-lo.

 

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  Fred Stein, Swing, Paris, 1934

Com a pele

Está se fechando demais, siga até eu ver onde você começa a se esforçar em tempos tão apertados. Quarenta horas para sair e verá quando os copos quebrarem no chão. Então vai ser tempo para crescer e eu vou tocar seu coração.  E siga até eu ver onde você começa a arder.‘Debaixo de montanhas cobertas de neve vou partir seu coração eu vou estar sob sua pele, vou partir seu coração’. E siga até eu ver onde você começa a quebrar a cara de todos eles. E o muro desmorona. Um momento íntimo de auto-reflexão e remorso. Me apequeno se questiono as coisas muito, e às vezes isso me leva a muito pouco, bem longe do possível. Auto-sabotagem mesmo diante da oportunidade de felicidade diante dos próprios olhos. Às vezes é mais fácil deixar o ego dominar e às vezes você fica preso em um momento que lhe dá alguma clareza. Um desses momentos: uma fração de segundo de atração que se transforma na percepção de que o que já tem ou teve é muito mais real e significativo do que o que está acontecendo lá, naquele momento. As relações são como tudo na vida que insistem só porque você está profundamente apaixonado por uma ideia, não o impede de ser cegado momentaneamente, fatalmente. Está tentando reconhecer esse traço e lutar contra esse instinto. Não há tal coisa como a perfeição, mas todos nós podemos tentar ser pessoas melhores, não podemos? Disse-lhe que nunca voltará para casa e se essa vontade se transformar em uma onda, deixará você sozinha. E a sua vida tomou um rumo estranho, desnorteando você no meio da noite e a noite se transformou em dia, e sua menina disse que te amava.

 

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Kris Knight

Interior

E o seu coração montou em uma onda negra e sussurra que nunca voltará para casa.

Não olhe para baixo, eles estão fazendo sons loucos neste campo de batalha vazio. Não olhe para baixo. Não sei quem mais veio para ajoelhar-se. Hoje à noite tome uma dose, fume uns cigarros, tome sereno e deixe o rubor subir pelas pernas. Não são as vermelhas roupas que veste que irão aquietar os batimentos que insistem em doer. Há algo, mas não olhe para baixo. Sempre venta.

Explodir as coisas em preto e branco com fogo nas mentiras, tenha-se coragem. Ontem ele se mudou, hoje ele foi traído e na rua ali, no chão, os vizinhos se reúnem em volta montando guarda, lembrando das coisas que ainda tem que se cumprir mesmo que de forma sórdida.  Uma vida de trabalho, inúteis em prontidão. Não olhe para baixo nos próximos dias, tem um som ruim vindo de lá. O que você faz com uma vida de trabalho?

Segue no transporte para o campo de batalha para enfrentá-la ainda na parte da manhã. A separação dos caminhos da alegria é o choque que terá que vir. Por causa do que você quer? Ainda dói e só dói quando dói a vida de pensamento, no início da manhã, no meio da tarde e no início da noite. Comer ou ser comida? Eu sinto a fome nos olhos. Há algo, mas não olhe para baixo, eu sei quem são essas pessoas e sei o que elas representam. Marcas de mãos nas paredes, a saída comum é dizer a verdade e paredes marcadas podem destruir o pensamento de perfeita civilização ensolarada.

Truques e ensaios aguardam a criança. São apenas mais algumas noites a se conquistar.

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Edward Hopper

Cantarolando

Na parte da manhã quando eu acordar e o sol estiver atravessando a janela, você encherá meus pulmões com doçura. Preencherá minha cabeça com você. Devo escrever uma carta? Penso pedaços de uma música que eu não consigo esquecer e deixar sair. Eu posso estar perto de você? Posso levá-lo para uma manhã de sol e café imaginando campos pintados de ouro, lá onde as árvores estão cheias de memórias dos sentimentos, nunca te disse?

Quando a noite puxa o sol para baixo e o dia é quase completamente seu e todo mundo está dormindo, mas os mundos são você. Posso ser perto de você? (Ah) oh  [assobios]. Já faz um tempo que, então, eu realmente gostaria de conhecê-lo, mais, você sabe. Eles cantam uma canção assim, gostaria de ir até o horizonte. Apenas para você todas as lisuras estão girando em mim e tudo, tudo aquece. Lá pela linha de tristeza, sim todas as menos definidas listras dos gatos mais frios. Mas então estar-se a refinar, oh sim. E eu quero ver coração coração coração coração e alma.

Coração e alma porra, meu coração e alma. Por instante.

Sabrina Arnault
Sabrina Arnault

Sobre amores

Talvez dez segundos se passaram antes que eu observe os dois irmãos por trás da cabine, segurando o riso e sorrisos como se eles guardassem um grande mistério. Me viram e rapidamente desviaram o olhar celebrando a ciência e seus segredos guardados a quatro mãos. 

A Lua intensificando sentimentos, pensamentos e a intuição (alegria, abundância e amor). Murchei com a mansidão do dia. Ao lado uma velhinha ganhou uma flor para colocar no cabelo. Ela ria, pensava bobagens, certamente. Nós usamos as histórias de nossas vidas – às vezes até mais profundamente, através da membrana mais interna, física mesmo, que te separa do mundo.

Faziam anos que não o via, a gente se gosta né, o carinho transborda. Sentem-se como sempre. Você está linda! Sempre assim que começavam, aquela prosa solta, boa. Mas eu envelheci. Mas isso não é ruim, é a pele que é diferente na forma como estamos com nossos próprios ossos. É bom. Olho para ele e o admiro, sempre o admirei. Uma fortaleza. 

Você é a aquela pessoa que se pode falar sobre a sombra de uma nuvem, sobre a canção de um pensamento, sobre arte, sobre as micropolíticas nossas de todo dia. Mas conversamos mesmo sobre a pele – esticada, sensível, enlouquecida. Os amores estão longe, uma pena, só mais uns dias. E a Madame nos calou. Estávamos diferentes, estávamos bem. E bonitos até não poder mais. 

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Experiências de fé

É como tocar a lua com os dedos dos pés. Se emocionava quando lembravam dela. Era como se fosse um pouco menos invisível, tão acostumada estava a ser ignorada. Não sabia como era se sentir querida.

Quer dizer, até sabia, mas muito pouco.

Dita. Falada. Pronunciada. Acostumara-se a sobrar, a não pertencer.

Agora queria uma família, uma família construída. Uma família sua. Daquele seu jeito. Pensou em aprender a falar sozinha, mais vezes, quantas conseguisse, pra aprender a ter voz. Aí não importariam os outros, as outras vozes. Ele disse: são apenas rótulos. Ela pensou, rótulos pesam demais, não são ‘apenas’.

Ela desejava que cuidassem dela porque sempre fora boa. Boa e quieta. Sempre tivera juízo. Era uma plenitude acreditar que alguém lhe recompensaria por ser tão certa. Ela perdera essa crença fazia tempo. Estava inevitavelmente sozinha desde então. Mas agora, agora, conseguia construir muitas pessoas dentro de si. E conseguira abrir seu coração às pessoas que pareciam que tinham algodão por dentro. Profundas e leves. A porta de cima ficaria sempre destrancada. Escancarada, melhor.

Estava um bocadinho séria, agora. E cheia de amores.

 

 

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Foto por Flávio de Aquino Carvalho

Rotina

Tudo parecia diferente, afinal. Coração pequeno, cabeça miúda pra pensar, braço dolorido. Estava ali pra fazer também perguntas tolas.

(Há tolice no amor?).

A gente não tem juízo para coisas de antigamente. Às vezes mais enfezada nos modos, enfezada nos sustos todos da vida. Que fosse sonho para se esperar e para sentir, uma coisa tão pouca de se querer. Tão pouco de se esperar. Queria ter grandes sortes. Havia de enfurecer. Pensara que havia algo dentro de si que a esperava, para quando sonhasse. E ela respondeu: que sejam por coisa nenhuma até que sentires coisa nenhuma. Que sossegasse. Mas o sossego durava coisa nenhuma de tempo.

Perguntaram-lhe: tens pressa? Ela disse sim, que era um jeito de dizer que tinha medo.

A secura de tudo. De todas as águas.

 

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Jacques Henri Lartigue

Ele adora torradas e farofa

Depois não falamos mais nada, não pensamos em mais nada, nada mais a gente quis.

Quando encontrar, guardo no bolso as histórias. Tremi, e a tremura é tão deliciosa como um encontro justo e firme de dois em um pensamento.  Internacional e acidental (mas ele é do mundo, não é daqui). Uma vontade derradeira (de nutrir laços humanos íntimos – o afeto, o desejo apaixonado e amizade) ameaça uma certa descrença (coisas de antes). Uma certeza absurda (custava a acreditar).

A relação mais rara, mais profunda. 

Nós temos muito mais bondade do que é dito. Eu gosto dele e ele gosta de mim. Nós usamos os nossos olhos mas o olhar está olhando, levianamente, aquele desenho no braço, aqueles escritos na pele. A partir do amor apaixonado eles fazem a doçura da vida. Os nossos poderes intelectuais e os princípios ativos aumentam com o nosso carinho. Dar uma pausa rápida em tudo o que era.

Eu sou tudo dormente, eu juro. Ele foi-se embora. Vi-o por um minuto, de relance.

No espaço pequeno, de manhã, quis café, quis cappuccino, quis torradas, quis banho. Quis sonho. Quis. 

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Helen Levitt

 

Com o sol queimando em pedra e carne

Desejando sobrecarregar o belo, se refazia a cada sorriso imperfeito. De canto. Amarelo. Era de uma maneira que não seria capaz de capturar esse sentimento de reverência, esse sentimento de flor. Terrestre por demais. Diriam nas condições normais da vida que tinha que fazer alguma coisa, ir para o próximo passo, qualquer um que fosse –  e que o próprio era uma fonte de amor espiritual.

Sentira como se o ruído, assim como o silêncio, barrassem toda via de acesso ao outro ou pior, a si. Um convite. Um brinde. Uma taça. Saúde às profundezas. Houve sempre um esforço pouco nobre de desacreditar-se do outro, já que o bom senso poderia parecer teimosia. (Caretas de êxtase  a profundeza, ali, do seu canto). Se me perguntassem diria que nunca nos encontramos.

Alguma vez, com a certeza do amor revelado e a promessa de felicidade, enigmático e poderoso graças à sua fraqueza, existira o desejo de nada entender. Como quando se caminha sobre copos de água. Estava cansado e pronto para cair de exaustão quando um amor se fez visível. E se você dormisse, e se você sonhasse?

Mas na minha mente ainda me diziam: “Depressa, depressa, depressa”. I don’t wanna to know.

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Bill Jacobson

Ou seria engolida pelo tempo

Chegou na hora exata, como um sinal, talvez até divino (talvez  exista alguém pensando em mim agora…). Organiza sua vida ao redor disso, desses pequenos sinais. Naquele momento só consegue pensar na oportunidade que a vida oferece de  fazer pedidos para o universo. Suspira. Eles se abraçaram novamente, e então desataram a falar. Era um indicador de um amplo potencial, potencial afetivo, sabe, diria ao psicanalista mais tarde.

Porque aqui eu sou o lugar, o lugar é aqui.

Porque estereótipos limitam o amor, porque os rótulos limitam o amor. É muito sensível em relação a como os outros a acolhem (ouviu dele). Com notável ambição nos olhos lia nos trechos rabiscados em pedaços de guardanapos que guardava na bolsa “se aqueles que começamos a amar soubessem como estávamos antes de conhecê-los … eles poderiam perceber o que eles fizeram de nós”. Suspira.

O que podemos é fazer uma aposta! Tolice (decadência, sintoma de esgotamento). Aqueles que preferem os seus princípios aos infortúnios dos amores, sua felicidade, sim, aqueles eram fortes. Que besteira. Se recusam (apenas) a serem felizes fora das condições que parecem ter anexado a sua felicidade. Eu te amei como pude.  Às vezes sinto-me atravessada por uma imensa ternura por pessoas ao meu redor – grito mudo. Como o grito usado nos antigos clãs para inspirar os seus membros a lutarem pela preservação. A sua apenas, talvez já bastasse.

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Fan Ho, White tent, 1960, from series Living Theater

 

 

Ou mais precisamente,

De um significado infinito (o segredo) lento e preciso, pousou como uma névoa suave descendo sobre os últimos dias (não desanime). Enrouqueceu, a respiração suspensa devido à natureza da semi-improvisação, como um fantasma que tem medo de ter morrido. Deixe suas cores gastas, seu peso. Impressionam na disputa levantando-se no ar, num pulo ágil e bonito, como se tivessem vida própria e exigissem serem ditas – as palavras. Mostrou algumas curvas e espirais na bolsa e saiu a rodopiar. E seus sonhos? (Os meus sonhos estão em silêncio). Você  nunca pensa neles? Articulação. Sempre esperei (esperarei) um sinal seu. Antes do café, antes de cuidar dos dentes, antes de trocar a roupa. Antes. Nem precisa acordar, acordar, só abrir os olhos já espero um sinal seu. Deveria estar dormindo à essa hora. Então começa a escrever, palavra por palavra. Diziam que de longe era melhor. Com os dedos na boca percebe que a raiva é uma forma de tristeza.

 

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Amor em líquidos

Com cheiro de terra úmida e fértil, não conseguia sossegar. Estou adiando o silêncio. Tentou a palavra, mas ela cortou demais, doeu demais. Ela e seus múltiplos orgasmos eram sua usina de força em um arranjo maravilhoso desse esboço de ecossistema dinâmico do corpo.  Uma invejosa habilidade de produzir espasmos partindo do ventre em direção ao peito, pulmão e coração. Era o que se podia resultar desse impulso.

Sabia que deveria olhar os poetas para que não pensasse que esse tipo de auto-cortesia era injusta. Deitada no mato sentia o corpo espetado por pequenos gravetos que conseguiam atravessar o lençol que usou como leito. Queria o amor maior, natural. Um dia quis ser isenta do clímax e se permitir o mistério. Roçava levemente as coxas nuas no tecido, prolongando a viagem de volta, ainda que não tenha estado em lugar algum. Sobre memória, perda e culpa – já intuía o que viria a seguir. (Olhe nos meus olhos e fale sacanagens).

Um sentido, um nome, um corpo, carne. As coisas ausentes não mais eram.

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Emmet Gowin, Edith, Danville, Virginia, 1972

 

 

Oi. Sou eu.

Ouvi ao longe, e aí a voz disse novamente… oi. Uma coisa se acendeu em mim, para mim, justo por isso – sussurro de quem sabe que é esperado. Demorará um bom tempo até que se acostume com a luz muito mais clara e mais abrangente do que a que pode ser adquirida em outras lojas. Até que a gente esqueça o som de determinadas vozes interiores… É impressionante como o filme (remake) ainda consegue surpreender. Já ouvira aquilo em outras circunstâncias – sempre quis falar. Esse entendimento começa com a própria palavra: coisas que mesmo esbarrando em tudo não deixam de ser notáveis. Peguei a luminária, a lâmpada sobressalente, cartões, panfletos e saí. Não deixa de ser triste o lamento da mercantilização da sabedoria. Uma xícara. (Como também não é recomendada que a nossa realidade seja construída em algo que tentamos subjugar). Nosso lado mais distinto impede que se faça graça do óbvio. Num momento isso me encantou, porque suas asas têm brilho. É para encerrar essa conversa, enquanto os danos não são tão grandes assim, manda a etiqueta. Ser o que se deseja, a partir de uma leitura casual, fundamental para manter as emoções equilibradas, e apreciar com gosto a euforia de estar no todo que esse encontro proporciona. As noites prometem, sorrio, enquanto sinto que as palavras não têm vida própria. Só à noite.

 

 

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O homem pela primeira vez aparecia em movimento naqueles dias

Um achado: começa com um vagabundo na rua, velhas roupas, velhos sapatos… mas é sempre essa tristeza.

Urgente, emergencial.

Presságio de um momento de batalha e muito esforço, tudo interfere em tudo. Um recolhimento para fôlego para nova aproximação. Fato que está por toda a parte. Ilimitado, indefinido ou infinito. Gostava de acreditar que a realidade última era sem fronteiras. A destruição ocorrerá na medida da necessidade. As lágrimas vêm aos borbotões.

Infinitos mundos.

É urgente. Era urgente então. Será que saberemos enfrentar tudo unidos? Sentiu-se bem. Amor e guerrilha. Objetos, coleções, guardados… isso tudo traz algum espírito de felicidade e um presságio de conquista de boas relações. Afeto. Assim tudo tão frágil no horizonte. A vontade é de firmeza de dentro do dentro.

 

Está tudo nos livros.

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Laurent Chehere, from Flying Houses series

 

 

Triste, porém alegre.

Queria usar roupas vintage. E fazer as pazes com meus seios. E ser profundamente emocional e sensual. E ouvir música clássica contemporânea até que a arquitetura sonora entorpecesse. E ser em preto e branco. E ser perturbada e violenta na minha apatia. E não ser indiferente à tristeza e à pobreza. E ser audaz. E que o movimento seja um arrasto. E nua. E curtir links. E ser dolorosa. E que eu não tenha que escolher um final para mim. E estar alegre todo dia. E ser fotografada. E ser experiente. E inabalável. Quase uma pedra. Enfrentar com coragem e paciência. E ser fria e terrivelmente silenciosa. E ter cores de chumbo nas unhas. E beber alguma coisa qualquer e engolir minha chatice com biscoitos.

 

Quer dizer que a escolha foi sua?  Nevoeiros são muito comuns aqui.

 

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Francesca Woodman

 

Delicadezas

Tranquilizar a imaginação enquanto toma café com bolachas, diz seu horóscopo do dia.

O gesto de “fechar os olhos e tocar o nariz” tornou-se um pequeno ritual em dias de crises (essa habilidade aumenta com da prática) – como forma de lembrar que tem um corpo – rapidamente se estende para o pescoço, ombros, braços. (Suspiro). Interrompe os toques que já são arrepios e sente sede. É um teste para os sentidos. Estão todos aí, prontos, mostrando seu corpo como realmente é. Este meneio lhe dá a capacidade de dizer onde suas partes do corpo estão, em relação a outras, e espera alcançar o ápice quando conseguir perceber onde estão em relação à sua alma.

É uma sobrecarga nos músculos.

Relaxa e tensiona (como quando se encosta em alguém que deixa sua pele como que dirigindo bêbada). Ser – migo comigo mesma. Este sentido é usado o tempo todo em pequenas formas, como quando você coça seu pé sem olhar para ele: nem para sua mão em relação ao seu pé.

E não há um libertino, que esteja um pouco dentro do vício do corpo,  que não saiba quanto o desejo tem de poder sobre os sentidos…

Hoje nos meus sonhos voei, com seios nus, passeando entre as nuvens brancas gigantes. É a angústia do sagrado, o temor diante da eternidade. Solidão. Segui com medo até o encontro com as já dissipadas nuvens em forma de neblina, deleitando-me no espaço esbranquiçado, como se tudo até então não importasse tanto. São poucos os dias em que alguém pode sentir-se antecipadamente alegre e vívido por apenas estar ali, em um segundo – apenas um segundo. Senti o corpo novamente em aceleração, acariciado.

Então o céu desmanchou-se em um banho sobre meu corpo (já nu). Sigo buscando delicadezas.

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Cédric Delsaux, From series 1784, date unknown

 

 

Bored and naked

Contando que não se faça de preguiçosa e que me adule infinitamente e, claro, que fique no seu lugar.

Mas que lugar é esse?

Mas que pergunta! Só podia vir de onde veio mesmo! O lugar de sempre. Precisa explicar mais? E o que é que vocês queriam? E não me venham agora querer coisa diferente afinal, fomos educados assim (por vocês, by the way). Aí você também não está ajudando não é, fica aí com essas roupas, esboçando sorrisos e auto confiança, fazendo o quer… ora vá! Agora aguenta. E por qual motivo essa cara de infeliz? Pegue tuas revistas cheias de dicas de como ser feliz, linda, valente, inteligente, gostosa, doméstica, profissional, paridora, engraçada, gata, já falei gostosa? Não? Gostosa. Principalmente, seja inteligente sem pensar muito, aprenda as dicas de como deixar a pia branquinha e cheirosa, enfim, não sei de tudo que tem nessas revistas, mas pegue-as e vá se divertir. Com cara de bosta, deprê, cheia de pulsões melancólicas ninguém aguenta. E vá caçar serviço. Se não tem, te arrumo. Mas o que é isso? Vestir como quer? E não me respeita, não respeita meu desejo irrefreável de usufruto?

Mas o desejo é seu!

Mas o quê é isso? Claro que vocês são responsáveis pelo meu destempero, meu desejo de posse. Você se porte a contento, como um bibelô. Isso, um bibelô. Ô gente, mas ainda não entendeu? Mas é burrinha mesmo, né, olha: eu te possuo, eu te possuo. Se não te possuo, só de existir e sair por aí fazendo o que te dá na telha fará com que eu te possua, mostra que quer ser possuída, entende? Claro que posso invadir. Mas isso é só lógica! Do que adianta não saber fazer alimentos? Prepará-los com carinho e amor? Não vê o privilégio que isso é? Ahn tá, pode sim, trabalhar fora pois é importante não é, mas se desdobre então, e não vai ficar aí se achando com esse empreguinho. Coisa mais cafona. Quer uma coisa e não a outra? Não leu a revista não? Ninguém lá reclama de nada, todas lindas, gostosas (já falei gostosa?) e felizes. Aprenda. Mas porque você está desejável? Tá querendo o quê com isso, não me respeita! Tá difícil sua vida? Mas até que isso que você fez é legal, é bacana. Mas porque você precisa me deixar de lado para fazer isso? Isso lá te preenche? Eu te preencho. O resto é… é… entreterimento. Não leve isso muito a sério. É só piada, não vê? Nessas revistas não ensinam ter humor não? Ahn, já tá gritando, perdeu a esportiva! São todas histéricas mesmo. Ou é TPM. Começa gritar já sabe, ficar revoltadinha, é TPM. Batata.

Mas isso sou eu.

Mas é assim que tudo funciona, não vê? Ahn, fica aí com sua dificuldade. Mas você sabe que essa sua dificuldade é pouca coisa, não sabe? Adora reclamar de barriga cheia. Me deixou de lado? Sua punição será ficar pra titia.

Qual o problema de ser titia?

Não leu? Só vale alguma coisa se tiver EU do seu lado. Como não é pra me agradar? Eu estou aqui com meus problemas existenciais (já falei pra nunca deixar de ser gostosa?) e você aí papagaiando. Puxa, não tenho paciência. Além do mais, competem entre si. Hahahahahaha! Deve estar lendo besteiras na internet, só pode.

Mas ó, mesmo assim eu fico do seu lado, viu, sou super bom. Mas que seria respeitável da sua parte vestir melhor, bloquear homens no facebook, me acompanhar, me amar, me mimar, me alegrar sempre, isso seria. Esse assunto já cansou. Burrinhas mesmo. Fica pelada logo.

 

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Quereres

Queria fotografar minha própria pele por dentro, a queimar, nervosa, a coçar, alérgica, com vermelhos, erupções, sentidos. Sonho sempre contigo, na maioria das vezes, acordo às gargalhadas. Queria conversar contigo sobre o Valter, sobre o Rosa, sobre Cícero e Wado, sobre as mazelas impoliticáveis desse nosso mundo, queria rir, ouvir e ser ouvida por ti. Sobre full(s) album(s) (ou  não), sobre palavras, sobre amar o ofício. Queria cuidar de ti também, alisar sua tatuagem enquanto fala da solidão de existir. Queria ouvir você, queria te ver todo dia. Queria ser eclética ao seu lado, ouvir e ver Céu. Você me cuida. Queria conversar das flores na janela, nas garrafas, dos sentidos maiores de tudo. Queria que você sentisse ternura pela criança, que perdoasse essa minha tosca capacidade de crueldades cotidianas. Queria chorar junto, compartilhar vergonhas e fracassos. Desfrutar contigo alguma paz, algum êxito de algum projeto de algum tempo de alguma vida. Queria a verdade entre nós, conversa solta, real. Queria a não mágoa, a mundana vontade de estar perto. Queria a carne queimando perto de ti, e sentir de novo meu coração sair pela boca quando te vejo de longe, e sentir as bochechas queimando, quentes por estar perto de ti e sabendo que estás a me olhar. Queria poder mudar todo dia, ser outra a cada instante, ser instável, despenteada, unhas com os cantinhos sujos e aquele cheiro de alho nas mãos depois de cozinhar. Queria poder sentir esse conforto da não perfeição ao seu lado. Quem sabe poder peidar, arrotar, tirar meleca do nariz, quem sabe te ver fazer isso e achar graça, queria essas alegrias pra além do gozo que arrepia.

 

Mas também, quem disse que a gente pode ficar querendo coisas assim? Pode nada.

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Tudo bem, Zé?

Tudo bem? Ahn? Sai daqui ainda não. Calma. Um minuto de ausência é muito, vai fazer diferença no final. Reformular velhas crenças, quando se é mais generosa. Possibilidade de se expressar sem ser fuzilada ou aquele velho problema de ser não-compreendida. Amanhã a gente se vê aqui, na mesma hora? E o Gabriel? É, ele está aí, Zé. A mãe disse que vinha buscar… Ouça aqui, velho homem em corpo de menino bonito, escute bem, há amor no ar. Existe o bem querer e existe a vontade de querer ficar junto, ali, né, Zé? O que você acha? Seria possível mudar? Aponte o dedo para seu velho coração, ali, bem no meio, um pouco pra esquerda. Aponte e desfira um golpe certeiro. Zé, ô Zé, tem um caído aqui, corre! São os efeitos colaterais, já sabia que isso aconteceria! Ela sofria pequeno (engraçado sofrer pequeno) quando ficava longe do olhar dele. Mas nunca entendeu isso direito. (Aí, vem a tia e aconselha… Você tem muito de mim, sozinha demais. Eu só fui ceder à uma paixão com quase sessenta anos! Ceda, ceda… ) Ô Zé, ela não está respirando, não seria a hora de procurar ajuda? Ruidinhos e texturas nos murmúrios. Aliás, ela não tem lugar de permanência, vazia que estava. O vazio é claro, barulhento e cheio dos sentidos muitos. Gente, mas o combinado não foi que o momento era de espera? Não? Como não? Era sim, era sim. Era pra ser assim. Era pra não ter mais dúvidas sobre si mesmo. Ei! Abre a porta! Pode entrar, só está encostada. Tem cor aí dentro, em cima da mesa.

 

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A risada cria intimidade

Aninha era uma mulher de 34 anos alta e bonita, de cabelos castanhos e lisos quase sempre presos em um rabo de cavalo, unhas compridas e bem cuidadas. Seu ar melancólico não combinava com aguçado olfato, uma de suas especialidades. Mas a grande qualidade de A., que nem se nota à primeira vista,  era sua capacidade de compor sínteses, justamente daquilo que não havíamos parado pra pensar. A raiz irritante desse seu comportamento  é justamente o preciso de suas críticas. E era debochada, ria das  reações tanto quanto de si mesma. Hoje percebo que tinha me esquecido o que era isso: ser precisa e risonha.

A névoa começa a baixar e as subidas e os muitos tropeços ficam mais divertidos no terreno das risadas. Poderia ser uma boa ideia a experiência… que buscava sobre o se sentir. Somente sentir. E largar a mão de ser besta.

Dentro da necessidade de viver/amar/foder (eu vivi tanta coisa com outras pessoas que eu gostaria de ter vivido contigo) é castigar o tempo apaixonado pelo mesmo ser (novamente). É estar fora do envelope. Como é bom sair da casinha com os pés no chão, cabeça nas alturas!  Buscar aquilo que está do outro lado porque falar é barato, mas é incômodo. A. me lembra que é lindo ser mais colorida – vertiginosa. No mês passado, o mês de ‘abril se encontrou com setembro’  talvez pense no que vai dizer antes de… de… um gosto esquisito, mas de certo modo tem oportunidade de uma comunicação sincera e fluida. Bom. Abrir a boca e lamber e sorver e chupar.

Além disso existia a distância e (…) mas ela terá a coragem de levar sua história adiante até o fim. Ela conta que está ali há três semanas, sozinha, entre idas e vindas – Agora eu estou bem. Sozinha, dentro dessa perspectiva monogâmica mundana. Só queria esquecer aquilo tudo, ela diz. E eu ouço. E faz frio.

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Qualidade cortante e fria.

Pleno de cor, a luz que sugere o florescimento da beleza, sugere também o que é interpretado por uma melancolia em toda sua capacidade quase infinita para perguntar. Ainda não encontrou paz no silêncio, clama por palavras, sempre foi do verbo (anotação mental: aprender a língua das não palavras). Em uma conversa vêm lhe chamar a atenção para a importância da autoestima, do cuidar de si, da aparência. Importante é, mas, na verdade, não entendia muito bem o que era isso. Se sentia única e por isso mesmo, diante do não entendimento, o mais recomendável era ficar na sua. E se, e, se você der um grito durante a noite, e ofegante perceber que tenta desmontar a sua verdade com quatro vulgaridades, desista. E os pesadelos? Dará conta deles também? Eles que pendem como uma criança e não deveriam ser  levados sério. (Expressivo é som),  que lerda, dificilmente será capaz de convencê-lo de que precisa ser tudo isso, e clama por uma compreensão da incoerência. Eles não têm ideia, de que todos eles “têm é serragem dentro da cabeça, você me entende? “. E os gritos noturnos acabam por se tornar um “fenômeno” curioso, de uma forma mais intensa, como se simplesmente alguém estivesse lhe emaranhando o cabelo em um passado amoroso. 

 

 

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Solar

Da alegria que é a força que norteia o clarificado da vontade, ou a vontade clarificada, que nem fogo – renovação criativa. Longe de ser algo bom, em si – pode ser altamente perturbador –  o principal é agir de forma útil. Desenvolver uma maior, ou melhor, ou possível, ou desejável –  ‘realidade’ e estará criando, forjando algo possível. Ainda que isto seja uma vida sem graça. Se você não passa, eles passam. Envolvem a duras penas e lhe permitem tornar-se um ser mais forte (mais uma pieguice, quase insuportável). E densificam, até se tornarem carne. Prioritariamente a generosidade torna-o (o objetivo) poderoso, assim como a sensibilidade costuma destruir os outros componentes racionais, mas cedem pela qualidade do amor (sim, o amor tem qualidades, naipes), pra ser tudo junto. Um dom natural para uma troca fluida sua mas, uma intensa necessidade simbólica, analógica e conectiva (mesmo que aos trancos e barrancos) estarrece.

Anotação mental: ler muitos livros durante estes próximos meses e dançar.

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Muito pouco osso

Cresceram de forma inesperada e pouco natural, talvez tenham tomado muita água. Não se espera que a loucura tenha sanidade e deseja que a vitória não seja da culpa. É preciso vida e lá estavam elas, potentes, revigoradas, folhas novas e pequenas flores brancas.

Fez suas anotações e esperava que ele também tenha feito as suas. Recuperar os gestos numa suave coreografia sem música. Só espaço e carinho. Isso tudo deixa dúvida sobre sua consciência. Mas por hora, a umidade adquirida era por demais importante.

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Albarran Cabrera, Japan, 2013