(a)mares

Eu esqueci como você fala, eu esqueci como falar com você.  Suas mãos no meu bolso me aquecem como o sol do verão ou o calor do fogão. E eu me lembro de ter tido meu primeiro dia inditoso até então e tudo o que se quer é dirigir até que saia da cidade. Estou tão cansada de ser, não tente me abraçar agora, ergo. Suponho o que você diria, suponho o que você ouviu. Diálogos inventados, ensinados. Vou-me agora a tentar encontrar aquilo de que não preciso, logo eu, que nunca gostei de ser ensinada…

Serenidade e paz serão o modo de vida diária. Aprendeu as habilidades ao longo do caminho para construir seu próprio ninho no alto do penhasco e no que intui ser seu auge e a última parte de sua vida, renunciará à abundância e ao conforto. Mexe em seus próprios cabelos (auto-carinho) e lembra que pode ainda amar costurando suas próprias meias.

Sua memória está reservada, em todos os (a)mares. Pode parecer um evento importante no momento, devido à intensidade e à forma como o faz se sentir segurando um copo com um peixe pulando. Na mão esquerda segura um conjunto de escalas para equilibrar-se, assistência e resistência.

Eles estão se olhando muito carinhosamente. E se olharão mais.

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Quando paraíso

Acreditava que grande parte daquela estrutura, ainda que invisível, era imutável. Com uma taça nas mãos circulo pelo ambiente à procura de micro paisagens. Desejo de voltar às flores, ao sol e a todos os azuis (sentimento de afeição). Logo após um dia particularmente feliz, onde os caminhos estiveram por tanto tempo obstruídos, edito minhas imagens e sinto-me refeita, já que não precisavam de filtros. O olhar necessita cada vez menos de edição. Claramente, a mente tem um poder tão grande de se concentrar em qualquer momento que parece não ter um único estado de ser. E vou finalmente conseguir esquecer, perdoar, aceitar e compreender (…) não nessa ordem. Não em ordem.

Quando vi um dos dois entrar no táxi senti como se mesmo depois de separados eles certamente se reuniriam novamente. Separação temporária. A obviedade do que as faíscas que saíam dos dois significaria é desconcertante. Acontecem, sabe-se, quando o natural seja que se alinhem. Tenho um instinto profundo pela aurora, um trisco de racionalização e naquele estado (onde mais vulnerável) poderia ser facilmente abduzida por meus próprios delírios. A certeza acontece, pois que a incompletude gera encantamento. Pastel frito. Melhor pedir mais um, estou com fome. Sabe? O desnível da encosta era para se equilibrar. O reflexo na porta automática mostra alturas, diferenças e muito sorriso.

Aqueles que prezavam pela renovação da língua ou pela palavra nova que se inventa, ardiam naqueles dias. A violência atinge quem amamos que tornam-se vítimas no espaço onde deveria existir cuidado. Onde deveria existir a comunhão. Tempos difíceis, tempos horríveis aqueles. Há um grande trabalho negativo de destruição sendo realizado. Exigir a limpeza do indivíduo após investidas do estado com agressiva e completa loucura é infértil. Um mundo abandonando nas mãos de bandidos que se despedaçam uns aos outros e destroem os séculos. Tempos difíceis.

Das linhas paralelas se falava muito, enquanto o outono se aproximava, enquanto ainda no verão se esperava. Aqui está a nossa nuvem de diversão; poucos serão capazes de prever tal intensidade.

Tem sido insistentemente difícil saber o que realmente queremos; difícil distinguir entre amor e luxúria, entre o mundo prático e o mundo subjetivo; difícil não sucumbir àquela repugnante tendência perigosa (até um pouco religiosa) a idealizar e a julgar; difícil conciliar a proximidade necessária para a intimidade com a distância imposta e já necessária para o desejo; difícil aceitar a espera.

Queríamos dar beijos na boca e também nas bochechas.

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Carla von de Puttelaar, Untitled, 2007

E dizem que naquela época o nosso universo era um mar vazio

Há um jardim peculiar de flores brancas perto do lado oeste da cidade, rezava a lenda que lá as flores se transmutaram de granadas. Conforto, beleza. Eu levei um fio de cabelo de sua cauda e quis colocá-lo cuidadosamente no chão, bem perto das pedrinhas. Depois, há de surgir água na minha sede. Eu sei que também foi bom para a satisfação pessoal visto o tão profundo e azul líquido que endurecerá a pele – desejo. Eu e você, nós estamos sozinhos e fugindo dos gigantes. Você, certamente mais do que eu, sabe que pelo bem estar ‘das pessoas’ quais pessoas deveriam ser.

Se costuma prezar em períodos secos, além disso, mais distantes estavam os horrores que fizeram com que do fogo sugerisse meu frio. O seu segredo pode estar exposto.

Dia após dia, tomo café com açúcar na cozinha encarando a respiração, enquanto ninguém quer saber sobre eles e para onde eles apontam. Para lá onde vou, ainda que me detenha sozinha, sabem sobre um tolo em uma colina. Uma pedra preciosa ao sol. E seus olhos vêem um mundo, um mundo oculto que tem milhares de vozes. 

Sussurre a verdade e rapidamente ninguém mais irá ouvi-lo.

 

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  Fred Stein, Swing, Paris, 1934

Com a pele

Está se fechando demais, siga até eu ver onde você começa a se esforçar em tempos tão apertados. Quarenta horas para sair e verá quando os copos quebrarem no chão. Então vai ser tempo para crescer e eu vou tocar seu coração.  E siga até eu ver onde você começa a arder.‘Debaixo de montanhas cobertas de neve vou partir seu coração eu vou estar sob sua pele, vou partir seu coração’. E siga até eu ver onde você começa a quebrar a cara de todos eles. E o muro desmorona. Um momento íntimo de auto-reflexão e remorso. Me apequeno se questiono as coisas muito, e às vezes isso me leva a muito pouco, bem longe do possível. Auto-sabotagem mesmo diante da oportunidade de felicidade diante dos próprios olhos. Às vezes é mais fácil deixar o ego dominar e às vezes você fica preso em um momento que lhe dá alguma clareza. Um desses momentos: uma fração de segundo de atração que se transforma na percepção de que o que já tem ou teve é muito mais real e significativo do que o que está acontecendo lá, naquele momento. As relações são como tudo na vida que insistem só porque você está profundamente apaixonado por uma ideia, não o impede de ser cegado momentaneamente, fatalmente. Está tentando reconhecer esse traço e lutar contra esse instinto. Não há tal coisa como a perfeição, mas todos nós podemos tentar ser pessoas melhores, não podemos? Disse-lhe que nunca voltará para casa e se essa vontade se transformar em uma onda, deixará você sozinha. E a sua vida tomou um rumo estranho, desnorteando você no meio da noite e a noite se transformou em dia, e sua menina disse que te amava.

 

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Kris Knight

Interior

E o seu coração montou em uma onda negra e sussurra que nunca voltará para casa.

Não olhe para baixo, eles estão fazendo sons loucos neste campo de batalha vazio. Não olhe para baixo. Não sei quem mais veio para ajoelhar-se. Hoje à noite tome uma dose, fume uns cigarros, tome sereno e deixe o rubor subir pelas pernas. Não são as vermelhas roupas que veste que irão aquietar os batimentos que insistem em doer. Há algo, mas não olhe para baixo. Sempre venta.

Explodir as coisas em preto e branco com fogo nas mentiras, tenha-se coragem. Ontem ele se mudou, hoje ele foi traído e na rua ali, no chão, os vizinhos se reúnem em volta montando guarda, lembrando das coisas que ainda tem que se cumprir mesmo que de forma sórdida.  Uma vida de trabalho, inúteis em prontidão. Não olhe para baixo nos próximos dias, tem um som ruim vindo de lá. O que você faz com uma vida de trabalho?

Segue no transporte para o campo de batalha para enfrentá-la ainda na parte da manhã. A separação dos caminhos da alegria é o choque que terá que vir. Por causa do que você quer? Ainda dói e só dói quando dói a vida de pensamento, no início da manhã, no meio da tarde e no início da noite. Comer ou ser comida? Eu sinto a fome nos olhos. Há algo, mas não olhe para baixo, eu sei quem são essas pessoas e sei o que elas representam. Marcas de mãos nas paredes, a saída comum é dizer a verdade e paredes marcadas podem destruir o pensamento de perfeita civilização ensolarada.

Truques e ensaios aguardam a criança. São apenas mais algumas noites a se conquistar.

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Edward Hopper

Cantarolando

Na parte da manhã quando eu acordar e o sol estiver atravessando a janela, você encherá meus pulmões com doçura. Preencherá minha cabeça com você. Devo escrever uma carta? Penso pedaços de uma música que eu não consigo esquecer e deixar sair. Eu posso estar perto de você? Posso levá-lo para uma manhã de sol e café imaginando campos pintados de ouro, lá onde as árvores estão cheias de memórias dos sentimentos, nunca te disse?

Quando a noite puxa o sol para baixo e o dia é quase completamente seu e todo mundo está dormindo, mas os mundos são você. Posso ser perto de você? (Ah) oh  [assobios]. Já faz um tempo que, então, eu realmente gostaria de conhecê-lo, mais, você sabe. Eles cantam uma canção assim, gostaria de ir até o horizonte. Apenas para você todas as lisuras estão girando em mim e tudo, tudo aquece. Lá pela linha de tristeza, sim todas as menos definidas listras dos gatos mais frios. Mas então estar-se a refinar, oh sim. E eu quero ver coração coração coração coração e alma.

Coração e alma porra, meu coração e alma. Por instante.

Sabrina Arnault
Sabrina Arnault

Sobre amores

Talvez dez segundos se passaram antes que eu observe os dois irmãos por trás da cabine, segurando o riso e sorrisos como se eles guardassem um grande mistério. Me viram e rapidamente desviaram o olhar celebrando a ciência e seus segredos guardados a quatro mãos. A Lua intensificando sentimentos, pensamentos e a intuição (alegria, abundância e amor). Murchei com a mansidão do dia. Ao lado uma velhinha ganhou uma flor para colocar no cabelo. Ela ria, pensava bobagens, certamente. Nós usamos as histórias de nossas vidas – às vezes até mais profundamente, através da membrana mais interna, física mesmo, que te separa do mundo. Faziam anos que não o via, a gente se gosta né, a conversa corre solta, o carinho transborda. Sentem-se como sempre. Você está linda! Sempre assim que começavam, aquela prosa solta, boa. Mas eu envelheci. Mas isso não é ruim, é a pele que é diferente, a forma como estamos com nossos próprios ossos. É bom. Olho para ele e o admiro, sempre o admirei. Uma fortaleza. Você é a aquela pessoa que se pode falar sobre a sombra de uma nuvem, sobre a canção de um pensamento, sobre arte, sobre as micropolíticas nossas de todo dia. Mas conversamos mesmo sobre a pele – esticada, sensível, enlouquecida. Os amores estão longe, uma pena, só mais uns dias. E a Madame nos calou. Estávamos diferentes, estávamos bem. E bonitos até não poder mais. 

Rodney Smith
Rodney Smith