Eu não choro fácil

O lugar que conhecemos, protegido e quente, perfeito na tempestade perfeita. Porque as tempestades são imprevisíveis. Exatamente, então é por isso que não queria perder tempo lutando contra, disse. Os riscos são muito importantes para mim e por certo quem irá sofrer as consequências é quem levanta o não, o basta. Mas eu sou apenas eu mesma. Quero que a pessoa na minha frente saiba que eu sou apenas humana (e que tenho medo de muitos enfrentamentos). E isso vem com confiança, acredite ou não. É a única coisa que irá, quem sabe, fazer a diferença, definir tal diferença.

Estarei completamente obsoleta se eu não correr riscos. E essa não é apenas minha vida, é nossa, pois eu sou duas.  Na escrita, na música, na madrugada febril, você se deve.  As fórmulas e ladainhas (justificadas, isso é pertinente) envelhecem depois de um tempo e as pessoas começam a vê-la através disso. E sua covardia, aquela que te traga, aparece. Mas também deu às pessoas essa imagem como “aqui vem a luz do sol, que é boa em guerrear!” Ahn, que eu simplesmente vou, “humm, não”.

Espero que algo especial saia disso – mas essa ideia também sugere uma natureza que não me é encarnada e que passear por minha pele nesse estado, na minha cabeça é algo dramático. Tudo marcado para os próximos dias e desejo me convencer do óbvio, do correto, do luminoso. Que algo está acontecendo posso dizer e que os passos que levaram aos meus desenhos e articulações acabados são muito pouco espetaculares.

De início obedece ao destino sem o saber. A partir do momento em que sabe, sua tragédia principia. 

E uma vez que você percebe isso, a vida se torna um pouco mais fácil ou mais difícil. Mas especialmente diferente se você se reconhece, ao falar com outras pessoas, por exemplo, que você não é a única. O que faz sentido sobre esse pensamento é que você tem uma determinada função de uma ação coletiva. 

Quando você faz o tempo suficiente, por um tempo suficiente, você quer manter-se aberta. Se fechar tem sido desconfortável, pois a casca não é grossa o bastante e a vulnerabilidade é importante. 

Há pássaros na tempestade  e vou simplesmente colocar o meu melhor para fora e segure, segure, segure. Aperte. Divirta-se. Você vai pousar em algum lugar e você também terá que se mudar de lá. Eu também gostei do alto.

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Quando paraíso

Acreditava que grande parte daquela estrutura, ainda que invisível, era imutável. Com uma taça nas mãos circulo pelo ambiente à procura de micro paisagens. Desejo de voltar às flores, ao sol e a todos os azuis (sentimento de afeição). Logo após um dia particularmente feliz, onde os caminhos estiveram por tanto tempo obstruídos, edito minhas imagens e sinto-me refeita, já que não precisavam de filtros. O olhar necessita cada vez menos de edição. Claramente, a mente tem um poder tão grande de se concentrar em qualquer momento que parece não ter um único estado de ser. E vou finalmente conseguir esquecer, perdoar, aceitar e compreender (…) não nessa ordem. Não em ordem.

Quando vi um dos dois entrar no táxi senti como se mesmo depois de separados eles certamente se reuniriam novamente. Separação temporária. A obviedade do que as faíscas que saíam dos dois significaria é desconcertante. Acontecem, sabe-se, quando o natural seja que se alinhem. Tenho um instinto profundo pela aurora, um trisco de racionalização e naquele estado (onde mais vulnerável) poderia ser facilmente abduzida por meus próprios delírios. A certeza acontece, pois que a incompletude gera encantamento. Pastel frito. Melhor pedir mais um, estou com fome. Sabe? O desnível da encosta era para se equilibrar. O reflexo na porta automática mostra alturas, diferenças e muito sorriso.

Aqueles que prezavam pela renovação da língua ou pela palavra nova que se inventa, ardiam naqueles dias. A violência atinge quem amamos que tornam-se vítimas no espaço onde deveria existir cuidado. Onde deveria existir a comunhão. Tempos difíceis, tempos horríveis aqueles. Há um grande trabalho negativo de destruição sendo realizado. Exigir a limpeza do indivíduo após investidas do estado com agressiva e completa loucura é infértil. Um mundo abandonando nas mãos de bandidos que se despedaçam uns aos outros e destroem os séculos. Tempos difíceis.

Das linhas paralelas se falava muito, enquanto o outono se aproximava, enquanto ainda no verão se esperava. Aqui está a nossa nuvem de diversão; poucos serão capazes de prever tal intensidade.

Tem sido insistentemente difícil saber o que realmente queremos; difícil distinguir entre amor e luxúria, entre o mundo prático e o mundo subjetivo; difícil não sucumbir àquela repugnante tendência perigosa (até um pouco religiosa) a idealizar e a julgar; difícil conciliar a proximidade necessária para a intimidade com a distância imposta e já necessária para o desejo; difícil aceitar a espera.

Queríamos dar beijos na boca e também nas bochechas.

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Carla von de Puttelaar, Untitled, 2007

Carícia

Um dia ela me perguntou se esperava gêmeos. Oh, deus me livre. Estou faminta. Faminta de tudo, poderemos tentar novamente amanhã.

Persiste na esperança de encontrar um amor verdadeiro – empolgada com isso, não achava que… é a vida. Supere.

Sempre achei que não tinha habilidades práticas pra vida, e veja só. Não aqui, não no meu quarto. Sim, sim, já foi resolvido. Você promete que esperará por mim? Ela veio até a mim, toda vestida de ervas e flores e só disse: em breve. Não, não posso voltar pra casa. Você fez sopa? Sopa parece uma boa. Todo respeito às poderosas. Silêncio para fazer o para-casa, amarrar os sapatos e queimar os bolinhos. Elas  não são como nós. São menos razoáveis. Daqui pra frente quero que você ande cabisbaixa. É o mínimo que pode fazer. Não faça afirmações presunçosas. Dois abraços são permitidos, na entrada e na saída.

Porque impróprio pode ser um sorriso.

 

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Edouard Boubat, tutu, 1999

 

Prataria

Tendo algum tipo de consciência que os segura, olhando diretamente para ela,  ele tinha uma vaga noção sobre os acontecimentos. O melhor do abraço, o mais importante, não é a ideia de que os braços facilitam o encontro dos desejos, mas a avassaladora potência do sim.

É comparada a uma determinada obra aberta, ainda que isso seja  se contorcer em  um espaço ocupado pela ludicidade, refletindo intervenções paralelas. Seja no começo, no meio, no fim ou após o fim haveriam sensações. Geralmente uma, somente. Em vez de exigir, esperar, cobrar ou pedir (reação imediata), oferecer. Mesmo quando são boas referências.

Mas caminha para a dispersão e aparece elevada. Pode estar ligada ao plano meramente sonoro permeando o cotidiano, ou o que quer que seja. Não aponta para qualquer direção e a própria freqüência estabiliza.

 

Não me lembro de já ter visto algo assim. Levo títulos em bandejas de prata.

Um sozinho é obra de arte e poesia.

 

 

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