Quando paraíso

Acreditava que grande parte daquela estrutura, ainda que invisível, era imutável. Com uma taça nas mãos circulo pelo ambiente à procura de micro paisagens. Desejo de voltar às flores, ao sol e a todos os azuis (sentimento de afeição). Logo após um dia particularmente feliz, onde os caminhos estiveram por tanto tempo obstruídos, edito minhas imagens e sinto-me refeita, já que não precisavam de filtros. O olhar necessita cada vez menos de edição. Claramente, a mente tem um poder tão grande de se concentrar em qualquer momento que parece não ter um único estado de ser. E vou finalmente conseguir esquecer, perdoar, aceitar e compreender (…) não nessa ordem. Não em ordem.

Quando vi um dos dois entrar no táxi senti como se mesmo depois de separados eles certamente se reuniriam novamente. Separação temporária. A obviedade do que as faíscas que saíam dos dois significaria é desconcertante. Acontecem, sabe-se, quando o natural seja que se alinhem. Tenho um instinto profundo pela aurora, um trisco de racionalização e naquele estado (onde mais vulnerável) poderia ser facilmente abduzida por meus próprios delírios. A certeza acontece, pois que a incompletude gera encantamento. Pastel frito. Melhor pedir mais um, estou com fome. Sabe? O desnível da encosta era para se equilibrar. O reflexo na porta automática mostra alturas, diferenças e muito sorriso.

Aqueles que prezavam pela renovação da língua ou pela palavra nova que se inventa, ardiam naqueles dias. A violência atinge quem amamos que tornam-se vítimas no espaço onde deveria existir cuidado. Onde deveria existir a comunhão. Tempos difíceis, tempos horríveis aqueles. Há um grande trabalho negativo de destruição sendo realizado. Exigir a limpeza do indivíduo após investidas do estado com agressiva e completa loucura é infértil. Um mundo abandonando nas mãos de bandidos que se despedaçam uns aos outros e destroem os séculos. Tempos difíceis.

Das linhas paralelas se falava muito, enquanto o outono se aproximava, enquanto ainda no verão se esperava. Aqui está a nossa nuvem de diversão; poucos serão capazes de prever tal intensidade.

Tem sido insistentemente difícil saber o que realmente queremos; difícil distinguir entre amor e luxúria, entre o mundo prático e o mundo subjetivo; difícil não sucumbir àquela repugnante tendência perigosa (até um pouco religiosa) a idealizar e a julgar; difícil conciliar a proximidade necessária para a intimidade com a distância imposta e já necessária para o desejo; difícil aceitar a espera.

Queríamos dar beijos na boca e também nas bochechas.

028-carla-von-de-puttelaar-theredlist-1

Carla von de Puttelaar, Untitled, 2007

Para onde ela costumava ser

Não tinha mais nada a fazer. Sua arte (seu pecado) era ver tudo com beleza. Ficara ali naquele canto, imóvel, por tempo demais, chupando balas, roendo unhas. Para perder o apetite pelo que chamamos de pensar e deixar de fazer perguntas irrespondíveis –  foi-lhe dito.

Era uma forma que encontraram para lhe consertar, para lhe dar um jeito. A pessoa em quem mais tinha confiança foi justamente a mesma que arquitetou esse castigo. Para que não pensasse demais, para que não fosse demais, para que não desejasse demais. Suas idéias são apenas impasses, não interessa o quão importantes possam ser. (Não entendi…) Apenas deixe de ser um sabor amargo na boca.  Acha que está olhando para aquela página em branco por muito tempo, que pode produzir infinitos e incríveis desenhos, mesmo que fisicamente não sejam possíveis? Pode ser extremamente irritante até o ponto em que você pode querer gritar no travesseiro mais próximo (um travesseiro, por favor!).

Transformar-se na medida em que já se é. Ficamos sozinhos em tudo o que amamos.

Não abrir espaço para distrações (embora possa sonhar fora).

009_sophie-calle_theredlist
Sophie Calle

 

 

 

Há de se praticar pequenos nadas todos os dias.

A passagem aberta do formal ao afetivo é mais para circular com um pouco de irresponsabilidade e de maneira muda, alheia à linguagem, por centros de força. Por um momento de entorpecimento uma coisa que ficou no meio do caminho serviu-se ao ímpeto de aliviar a minha fome. Os estilhaços de significado juntam-se a estilhaços de imagem com uma forte intensidade de desejos pessoais entre corpo e forma, que quando perdem contato com a estrutura interna, tornam-se moles, porosas, arenosas. Tornam a ambiguidade ainda mais endurecida. Um casco que, pela própria imobilidade, vai se recobrindo de evidente lirismo. Mesmo as intervenções que continuam fecundando nosso pensamento tornam as impurezas mais discretas. E é assim que as coisas funcionam ao lidar com formas pouco definidas de matéria mole, evitando quase sempre os vazios conflitos por miudezas e  a escolha construtiva era um fato ético, individual de atribuição de sentido. (Sempre subjetiva).

Disposto a qualquer significado o fogo começou às 4h45 da manhã.

 

 

download (49)

Prataria

Tendo algum tipo de consciência que os segura, olhando diretamente para ela,  ele tinha uma vaga noção sobre os acontecimentos. O melhor do abraço, o mais importante, não é a ideia de que os braços facilitam o encontro dos desejos, mas a avassaladora potência do sim.

É comparada a uma determinada obra aberta, ainda que isso seja  se contorcer em  um espaço ocupado pela ludicidade, refletindo intervenções paralelas. Seja no começo, no meio, no fim ou após o fim haveriam sensações. Geralmente uma, somente. Em vez de exigir, esperar, cobrar ou pedir (reação imediata), oferecer. Mesmo quando são boas referências.

Mas caminha para a dispersão e aparece elevada. Pode estar ligada ao plano meramente sonoro permeando o cotidiano, ou o que quer que seja. Não aponta para qualquer direção e a própria freqüência estabiliza.

 

Não me lembro de já ter visto algo assim. Levo títulos em bandejas de prata.

Um sozinho é obra de arte e poesia.

 

 

Fotor0629163126