Re-sentir

Deixe o colete ser real, e o casaco grosseiro. Deixe o pão ser duro e cheio de bolor.  E ela o levou para ficar na frente do papel de parede, tirou sua câmera de 35mm e disparou algumas vezes. Respeite tudo isso por três ou quatro dias por vez, às vezes por mais, para que seja um teste a si mesmo. Fique séria e construa uma imagem prudente de si. Talvez seu corpo fique seguro.  Então, asseguro-lhe, meu querido, você saltará de alegria como quando de barriga cheia.

Para mim, a relevância está na capacidade de expressar através do trabalho por que ele precisa existir aqui agora. Algum bom trabalho antiquado e esforço prático para sua rotina e estrutura diária. Tem que haver uma necessidade absoluta e nem sempre acontece dessa maneira. Os códigos de acesso de quase todas as zonas pareciam estar ali, na sua frente. Amanhã de manhã, a não ser que estivesse planejando umas férias…

Você precisa se coreografar, como dançarina de cabaret faz, em certo sentido, você deve desenvolver seu material interno bruto. Penso que se você tem uma inclinação para uma vida dançada – não uma carreira de dança, mas uma vida dançada – como você percebe o movimento talvez seja exacerbado, entende? Acaba que estamos um pouco mais inclinados a sentir uma intensidade quando envolvemos qualquer tipo de paixão.

Alguma coisa deu errada, a crença, que achou ser uma peça interna, explodiu numa espécie de terremoto. E segue planejando-se à moda antiga depois disso.

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Mas não se esqueça de olhar

Há amor, respeito, igualdade e unidade aqui. A voz ficava dentro de nós: I’m broken.

Não há nada a dizer. Muitas vezes, durante alguma meditação os pensamentos que insistem são inteiramente banais – o freio de uma calçada da infância, luz de cinco e meia da tarde caindo em um prédio familiar, um buraco na parede, um arame esquecido amarrado no poste – mas em sua aparente forma banal,  intimam a existência do eu anterior que habitara esses momentos. Um eu que parece tão pouco estranho e mesmo assim tão remoto. Ainda um para o qual estou sempre atrapalhada por essa lembrança meio consciente. Ele trabalha em isolamento – não como uma punição, mas para que ele possa se concentrar no que precisa ser feito.

Acreditava que grande parte daquela estrutura, ainda que invisível, era imutável. Com uma taça nas mãos, circulei pelo ambiente à procura de micro paisagens. E que de pé, sua mão e sua boca entreabrissem e basta-lhe fechar os olhos para desejar salivas. Exige integridade e previsão por você, que poderia te paralisar, é claro; mas se a questão não mora na mente, então é simplesmente condenada à eterna juventude, que é sinônimo de corrupção. Inspira uma nova estética da ciência lírica.

A memória, de fato, é  A memória. Está bem aqui, aponta a testa bem no meio dos olhos com o dedo indicador, na cabeça, mas pode sair, abandonar, deixá-la para trás, desaparecer. Que qualquer coisa – absolutamente qualquer coisa – poderia acontecer, e você pode garantir que algo aconteça. Memória, um santuário de infinita paciência.

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Brecha

A gente costumava colocar uma vassoura atrás da porta da cozinha com o pelo pra cima, para visita ir embora rápido. 

Alguns viajaram para terras distantes, enquanto outros ficaram em casa. Alguns instrumentos acondicionados, algum mantimento. Para outros O assunto era sobre a largura da vida, desde as alturas do céu e as profundezas do inferno até mistérios amorosos, entendimentos sagrados e admiração mútua transcendente. Esses, intencional ou involuntariamente, como o sol da manhã brilhando através de vitrais, se iluminam.

Às vezes, posso andar por quilômetros imaginando meus pés através da água e do fogo. Um sentimento bonito, e quando eu lembro de você se movendo seus braços no ar, como que fazendo desenhos invisíveis, eu não consigo pensar em linha reta. E estou silenciada no momento. Eu acho que é como uma coisa impregnada na pele. Se soubesse o extraordinário que é,  equilíbrio de confiança e vulnerabilidade que a ação pede…  Eu venho de uma época em que: ‘Tudo pode desmoronar agora, amanhã’. 

Se acumulam os buracos que uma goteira provoca no piso. Estamos apenas preocupados quando tudo vai desmoronar, mas na verdade eu acho, bem, talvez não seja o bastante. Por um longo tempo, talvez eu tenha feito esse pouco.
Venha tocar o ar com seus dedos, e por favor, troque as atmosferas aqui.
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Pode ser realmente saudável ouvir não às vezes

Eu acho que você sabe quando está jogando com segurança, quando está estagnando e quando está crescendo. Pra quem se dar e a vida a sonhar. Provavelmente é uma coisa constante – e um equilíbrio complicado.

Ninguém percebe uma presença tão pequena… ainda que esteja aqui na neve, nas brancas e frias ideias. Talvez não ultrapassar alguns limites seja bom ou correrá o risco de ignorar momentos férteis, que podem chegar em momentos  de humor ou crescer em alguns arranjos propositais. Provavelmente tendem a escrever melodias cada vez mais difíceis para se cantar.

Eu me tornei, o que é um sentimento interessante quando você envelhece e você percebe que não há ninguém que você possa apontar e abraçar resignada. Você realmente se tornou alguma pessoa vivendo em um mundo de abstração racionalizada que tem pouca relação ou harmonia com os grandes ritmos meio que mágicos da vida. Tente lidar com essa espécie de derrota – disse. 

Existe uma contradição em querer estar perfeitamente seguro em um universo cuja natureza é a momentaneidade e a fluidez.

Reter a respiração é perder o fôlego.

 

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Mesmo assim, alguma coisa estava acontecendo lá fora.

Elas estão cientes de todas as malditas coisas.

Uma mulher que estava distanciada do corpo, da beleza, da própria vida sentia que o clima do verão era um desconforto extremo. Apenas aquele sentimento geral de não-justiça. As pessoas estavam inseguras e infelizes. E assim estariam ainda por um tempo. Não parece justo.

Eles se encontraram na frente de um prédio e olharam um para o outro e sacudiram a cabeça enquanto digitavam: cheguei/eu tb e se aproximaram num abraço. Olha, não consigo me sentir conectado à humanidade o tempo todo, disse baixinho. É um prazer raro. Eles fizeram ou disseram algo excelente e amoroso. O horrível perturba o excelente encontro; não podemos assistir ou ouvir ou ler o excelente sem lembrar do horrível.

Mas segure-se por um minutinho: quem é esse “nós” que sempre está acontecendo de alguma maneira? Nós somos um escape. Nós somos baratos. Nós somos corruptos. Somos criativos.  Mas para deixar seu foco inteiro, seus músculos se apertarem ao ritmo do mundo ao seu redor, sua respiração acelerar tanto que combina com a velocidade ultramoderna de uma droga percorrendo sua corrente sanguínea, sem trema, precisamos do afeto.

Ironicamente, os tempos são mais rápidos do que se poderia imaginar. A chave para diminuir a velocidade pode não ser a eliminação da velocidade, mas aceitar a desordem.

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É assim que eu te soletro

Branco. E tão-somente a ele, o que ele deve saber. Eu queria te dizer no que fiquei pensando para passar a dor. Apenas para fugir e poder alguma excelência. Por mais que tente, todos os dias, nós estamos nos vestindo para sobreviver. Ironicamente, são sintomas de gênios. 

Domingo, às dez, mais um. Nos encontramos na garagem, está na hora de ir embora, leve o que conseguir carregar. Mãos à mostra, você também, palmas para cima. Saber alguma coisa, algum suspiro, isso já adiantaria. Alguma notícia da companhia de gás? Tenho um agora. Com muita água. Eu vou cuidar de você.

Ela também disse que não gostava daquela banda. Ali próximo à mesa, perto da janela. É a pressão do ar, causada pela explosão, e depois, aquele flash amarelo, e eu… Não havia disputa em casa. Não haveria de ter.

Nós podemos ir para casa agora? Nem todos precisam saber alguma coisa.

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Ela dobra a página para trás

Quando te encontrei, um incêndio queimava em uma colina e a lua estava cheia.  Os volumes da fumaça eram rococós, cercadas de anjos vermelhos. Você não sorriu, mas ficou de prontidão, ergueu-se um pouco na cadeira da qual se levantava com algumas dores e um bom bocado de problemas. Talvez quisesse provar-se que ainda lhe restavam energia e agressividade.

Seria útil recolher os restos, os ombros. Com desejo cinza, olha louco seus olhos azuis pedindo paraíso. As árvores negras bloqueiam o caminho. (Seu caminho está em consternação). Canta como em algum mundo de trovão e raio, pedindo para ser banhado em luz para ser exemplificado como desejo.

O mundo está agora enrolado em redes de telecomunicações que transmitem modelos integrados de comportamento social, político e econômico. Grita! Eu fui forçada a olhar para mim e para a minha vida com uma clareza severa e urgente.

As pedras quebraram vários tetos de vidro. Não falar e falar são ambos modos humanos de estar no mundo e a vulnerabilidade da visibilidade impede de quebrar nossos silêncios. Às vezes o medo dorme, mas nunca desaparece. Hoje desejo ser forte, mas não sei como e você ouve meu coração inquieto.

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Sempre esperando que o machado maior caia

Por trás de nossos rostos, não há segredo que governaria nossos atos. A brincadeira e a reinvenção tornam-se impossíveis. O cinismo elimina milhões de pequenas ideias de mudas, de pedaços, de fotografias. Significa que sua resposta automática se tornará o “não”. Deve ser um diabo entre nós a dizer algo sobre o tempo em que eles foram feitos e como estão configurados ou acorrentados.

Unicamente, a série desses atos imaginários e essas impressões erradas.

As séries? Uma vez que a matéria e o espírito, que são continuidades, são negados, uma vez que o espaço também foi negado, estamos ali, todos cheios de ansiedade de que este mundo não é para se sobreviver. Não sei o que é o direito a essa continuidade… o que é o tempo e a alegria de ver com o olho treinado e o desespero de fazê- lo. O céu (da boca) está queimando agora.

Sua própria natureza frágil e precária pode ser jogada e se sentir ainda mais inútil ou vulnerável. Não em qualquer momento, mas agora, não em qualquer lugar, mas aqui.
Ninguém além de mim queimará assim.  Eu acho que muitas pessoas conseguem entrar em alguma lucidez e aí então eles se perguntam por que ficaram loucos.

Eu saí hoje e me comportei como um lunática (soluço) sobre uma terra molhada, um prado, algumas ervas e grades de caverna. O testemunho diz que há algumas pessoas no andar de baixo que se dirigem a todos os lugares e não admiram nada. Mais que nunca, é obrigação usar nossas habilidades para manter este lugar vivo, aqui em cima. Aqui mesmo agora. Eu sou o que realmente vejo para minha própria consciência, os centímetros que meus olhos caem sobre e enquadram. Talvez juntos possamos permanecer nesse sorriso do seu rosto.

Por que diferença, que diferença, que diferença uma pequena diferença faria.

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O imperador

Uma admirável descoberta com algumas poucas palavras sobre o amor ao longo da vida, surgiu como uma âncora da realidade e um contraponto para a certeza. (As certezas).

Estou pensando sobre o tempo esta manhã – sobre como ele se arredia quando intencionamos ao menos triscá-lo. Não me preocupo tanto em ter controle, o que talvez não seja tão divertido, mas ainda sou capaz de se fazer o que se tem para ser feito.

Eu realmente penso muito em emoções, talvez mais sobre comportamentos e reações. Às vezes, isso é bom, mas às vezes não é tão bom, sabe? 

Quando dirijo, sempre fico ansiosa. Há muito no que se pensar além de ficar focada na história dos cruzamentos. Era difícil para ser solta o suficiente e ter que fazer essas coisas sem me perder nessas cenas cotidianas. Difícil separar a parte do cérebro que tinha que ver tudo e a sua invulgarmente fina emoção número oito, ou sua não tão longe emoção sete, cutânea. Sempre empurrando para uma eternidade lenta, através dos arrepios da pele. Para continuar. “Pobre coisa antiga, você deveria estar em uma caixa!”

A cor me afeta. Eu realmente não estou trabalhando com nada além de cor, então tem um impacto emocional e físico em mim.  O meu processo envolve me afastar – é claro, não totalmente, isso não é possível, mas é uma ideia de abraçar a luz do dia, sol a pino. Você sabe quem é John Cage? Um começo de vislumbre de uma (im)potência especial.

Acho que percebi que estou mais em paz do que penso que sou capaz. Talvez alguma abundância na vida que para mim, de certa forma, regenera. Mas a pausa seria apenas temporária. Os sintomas retornariam, ainda desprovidos de uma explicação concreta ou melhor, com explicações concretas demais.

Há gente pulando das janelas para escapar do inferno ardente.

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Estonteada

A única presença humana que conseguia sentir ali, eram os postes que iluminavam um cruzamento. Cenário de fotografia preto e branca.  A parte baixa, deixada sem ser dita, talvez porque é muitas vezes indescritível, é o que a gente quer então…

Que não há um jeito sólido de dar uma resposta constante – somos muitas coisas e muitas pessoas. Em histórias que nos contamos sobre nossos passados ​​privados,  caminhos diferentes de como pudemos viver a nossa personalidade, quem imaginaria eu estar aqui, reduzida a uma esperança tão estapafúrdia…  Mesmo que em nossas vidas regulares estivemos vivendo do outro lado da rua, um do outro, sem o encontro. Quem diria. Pode-se ficar semanas pensando no beijo, quando encontrou a coragem de cruzar a rua, de um pé só, e olhar o céu da noite e os reflexos na água.

Eu olhei e caí, engatei o riso e caí novamente. O Sr. deu uma olhada em mim, e vestiu os óculos escuros, junto com uma óbvia dose de reserva e um pouco de repulsa. Ele negou isso no nosso dia de morte, mas era verdade. E as mudanças que sofremos, maravilhosas e terríveis, são surpreendentes, embora inúteis. Os movimentos vitais e transformadores que não poderiam ser previstos – escorregões e dores nas articulações (porque não se consegue  se manter muito lúcida e bem humorada em estado de dor). É também um tempo de pesadelo.

Vemos que também sou vulnerável ​​ao infortúnio, que não sou diferente das pessoas cujo destino estou assistindo e, portanto, tenho motivos para ter medo de uma inversão similar.

Não é maravilhoso o modo como o mundo nos mantém graves e inesperadamente despertos?

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