Tornar-se pedra

Quais são as providências que você anda adiando?

Contudo, por muito tempo, tais exigências não existiam. Aconselhava-se escolher dentre os dois exílios o que parecesse dominar com maior propriedade, o que tivesse “maior vigor” ou “maior calor”, talvez ainda o “maior contraste”. Estranho que já não estou tão nervosa. Eu fico com medo de não ser suficientemente boa a escolha e preocupa o bastante, interrompido. Assusta por não ter sido verdade. Você não está amarrado às suas camisas e paletós, empurrar-se ao limite.

Passam a explorar completamente em nome do OCO que é ruído, basicamente um registro de ruído. Leve re-criação pura do que poderia ter sido um artifício que sopra os restos da ordem anterior. Distância. Fomos chamados a uma alternativa significativa nos momentos em que a maioria das pessoas está dormindo no escuro, enquanto os sortudos ainda estão dançando nas luzes. Evidentemente pega no meio,  inundada de indecisão, crescendo e desaparecendo em várias direções ao mesmo tempo, perdendo o lugar do sorriso.

Nãoo, você não precisa fazer muitas coisas. Pode ser sem sentido, mas há algo em deixar este lugar onde permanecem os passados melhor do que já os deixou anteriormente.

    Há algo naquilo que se sente bem, no fundo do seu núcleo. Eu vou com isso. E estou apenas tentando entender tudo.

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    Quando paraíso

    Acreditava que grande parte daquela estrutura, ainda que invisível, era imutável. Com uma taça nas mãos circulo pelo ambiente à procura de micro paisagens. Desejo de voltar às flores, ao sol e a todos os azuis (sentimento de afeição). Logo após um dia particularmente feliz, onde os caminhos estiveram por tanto tempo obstruídos, edito minhas imagens e sinto-me refeita, já que não precisavam de filtros. O olhar necessita cada vez menos de edição. Claramente, a mente tem um poder tão grande de se concentrar em qualquer momento que parece não ter um único estado de ser. E vou finalmente conseguir esquecer, perdoar, aceitar e compreender (…) não nessa ordem. Não em ordem.

    Quando vi um dos dois entrar no táxi senti como se mesmo depois de separados eles certamente se reuniriam novamente. Separação temporária. A obviedade do que as faíscas que saíam dos dois significaria é desconcertante. Acontecem, sabe-se, quando o natural seja que se alinhem. Tenho um instinto profundo pela aurora, um trisco de racionalização e naquele estado (onde mais vulnerável) poderia ser facilmente abduzida por meus próprios delírios. A certeza acontece, pois que a incompletude gera encantamento. Pastel frito. Melhor pedir mais um, estou com fome. Sabe? O desnível da encosta era para se equilibrar. O reflexo na porta automática mostra alturas, diferenças e muito sorriso.

    Aqueles que prezavam pela renovação da língua ou pela palavra nova que se inventa, ardiam naqueles dias. A violência atinge quem amamos que tornam-se vítimas no espaço onde deveria existir cuidado. Onde deveria existir a comunhão. Tempos difíceis, tempos horríveis aqueles. Há um grande trabalho negativo de destruição sendo realizado. Exigir a limpeza do indivíduo após investidas do estado com agressiva e completa loucura é infértil. Um mundo abandonando nas mãos de bandidos que se despedaçam uns aos outros e destroem os séculos. Tempos difíceis.

    Das linhas paralelas se falava muito, enquanto o outono se aproximava, enquanto ainda no verão se esperava. Aqui está a nossa nuvem de diversão; poucos serão capazes de prever tal intensidade.

    Tem sido insistentemente difícil saber o que realmente queremos; difícil distinguir entre amor e luxúria, entre o mundo prático e o mundo subjetivo; difícil não sucumbir àquela repugnante tendência perigosa (até um pouco religiosa) a idealizar e a julgar; difícil conciliar a proximidade necessária para a intimidade com a distância imposta e já necessária para o desejo; difícil aceitar a espera.

    Queríamos dar beijos na boca e também nas bochechas.

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    Carla von de Puttelaar, Untitled, 2007

    Seu abraço, uma fortaleza

    Talvez você sinta que tudo o que você percebeu anteriormente, do viés pelo qual você percebeu, está finalmente caindo aos pedaços. Osso por osso. Perder as formas e as pessoas faz funcionar as loucas velocidades de alguns pensamentos destrutivos. Ali em pé, na praça, olha a chuva e sente um gosto de derrota forte na boca. Pés encharcados, calça úmida, esbarrões. A chuva nos poemas é bucólica, linda, te coloca pra pensar na vida. Coisas modernas. Se você perguntar-se com paciência e cuidado sobre as escolhas e as prodigiosas lentidões do viés das coisas terá uma percepção da potência de captar micro fenômenos, micro operações. Micro-gotas. Arrepios. Dá ao percebido a força de aceleradas ou desaceleradas, decisões. Elas só estavam esperando para se multiplicarem. Segundo um tempo flutuante que não é mais o nosso e necessidades que não são mais desse mundo: desterritorialização. Estamos sem lar.

    ‘Eu estava desorientado’ ouviu no ônibus. Ele mesmo não é mais senhor das velocidades, e alguns andavam como se estivesse vivendo. Só penso que quero isolar-me, ir para casa, ensimesmar-me. Talvez com rádio, boas baterias, melodias. Pois o que seria um futuro bom seria no abraço. Aquele. 

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    George Rodger, Pondo women of the Transkei, South Africa, 1947

    Será que você tem um monte de carinho?

    2.3
    Você é um pessoa muito bonita. Mesmo quando você está em pausa (e as circunstâncias a pedem), você parece não entender completamente o que significa ser uma pessoa bonita. E aquele amigo muito próximo que tem como principais qualidades (humanas) alguma paciência e doçura suficiente para um impacto direto sobre seus pensamentos irá te explicar. Chegará a te desarmar. O que você vai experimentar tanto em terra como no além-mar é que o melhor é que justamente as armas caiam. Isto é tanto uma certeza e uma verdade, mas no momento não ousaria permissão para dizer mais.

    2.4

    Naquele momento, isso teve um impacto maior sobre suas questões do que poderia imaginar. Uma prioridade é a amizade que você tem com ele. Sei lá se poderia  levar a gestos inapropriados de cá da sua parte. Você deve falar com ele para garantir que nenhum dano aniquile com a ideia. Será praticamente impossível de fazer, mas deve se esforçar, reforçar.

    2.5

    Franqueza e clareza em suas explicações poderiam levar a um debate ou uma discussão sem fim, então é melhor transmitir seus sentimentos com a esperança de que você os entenda.

    2.6

    Um cuidado especial para limitar os danos, porque este homem não necessariamente irá aceitar o que você diz. É aqui (de sua parte) que começa a negar uma realidade cada vez mais evidente. Mesmo que este homem não entenda você, ficará claro que não fazem mais do que o necessário. Goza de liberdade dentro dos limites que você criou para si mesma, ele repete. Tenha em mente que a água ocupa um lugar especial no toque e na pele. O seu papel não é claro, mas a sua presença é muito evidente.

    conceitos-chave: coragem, originalidade, ilusão, equilíbrio, insegurança, campo, peixes, segunda-feira, mês de janeiro.

     

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    Ivana Almeida

    Não morrer demais

    Alegrias conceituais bem sucedidas são difíceis de retirar do pensamento, mas o novo bate bem as metas das probabilidades. O escopo é ambicioso: a relação entre substâncias e poesias. As fontes são originais: transmissões de rádio, mensagens codificadas, bordados, bolas de lã e guardados das gavetas. E, no entanto, apesar do que se poderia imaginar, o som permanece puro e escuro, mal-humorado e eletrônico. Pode-se creditar isso ao grande volume dos contrastes dos amores disponíveis…  Enquanto debruçado sobre as pedras, se concentra em pequenas máquinas e engrenagens. Encontrar relação dos ritmos entre o diálogo do rádio antigo e o som da água.

    A imagem dominante é a da tempestade se aproximando (que atingiu nos atingiu durante a noite, imprevisível), seguida pela perda sem precedentes da vida e da terra, e, finalmente, o rescaldo.

    Mas outras histórias estão em jogo aqui, também no que se refere a uma barreira construída para a tal tempestade; um preciosista, que observando que a área está abaixo do nível do mar, abaixo do nível dos olhos, brinca que podem estar cavando suas próprias sepulturas, que faz com que o tempo não vivido permaneça… não vivido…

    Então, você está com medo de quê? A resposta é de ser a mesma de antes, a mesma no canto, quieta, aquela que não diz tudo sobre si… enquanto a chuva cai. A maioria sabe que se inundando apenas de uma história não se encerrará com o período de chuvas. Mas com ou sem tempestade, a água estará sempre a subir. Na tentativa de fundir ameaça e reconciliação, buscando o mesmo tipo de harmonia que sente em ouvir sua música preferida ao gosto de um café antes das oito horas da manhã, quer se aliar com a experiência.

    Quer ser devorada pelo mundo.

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    Eva Besnyö, Self-portrait, Berlin, 1931

     

     

    Irresistível

    O papo é solto e o frio acontece na espinha quando as peles roçam.

    Por vezes tão cansada que fecha-se por mais de quatro horas sempre gerando algum desconforto, além de desejos e intenções segundas em uma espécie de re-sentimento. Quando os tempos estão assim segue ficando no incerto. E até que o tenha de alguma forma sob a pele, vibrando, como a sensação eletrificada, seremos em suspenso. Porque você se parece com chuva, diferente a cada vez. A carcaça está a desmoronar-se e você finalmente poderá deixar que eu entre na sua vida. Será no tempo de frio, eu espero.

    Os amores ficam bons, aconchego. Penso em escapar dali, ir embora, descer o elevador, devagar, lance por lance, para pensar. Vou de escadas, decido muito antes da minha saída. São mais felizes quando as coisas boas são esperadas para acontecer e não quando estão acontecendo. O ritmo é um dos mais poderosos dos prazeres, hum, e espera que continue assim. Ficaremos ali, a nos olhar, com Coltrane nas nossas costas tentando materializar o tão sonhado arrepio doce. Abrandar a respiração o suficiente para caminhar. Há de fato uma coisa como “tempo”, grita. Mas Matilde reverbera – pois é o segredo do bom tempo, e eu só vejo degraus. Arte, só por amor.

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    Shoji Ueda, Girls, 1945

     

     

    Esbarrei no espelho e pedi desculpas

    Vez que você estava livre de trauma saiu por aí alegre e tagarela. Indo para lá depois da esquina deleitar-se com prazer e felicidade e isso poderia ser tão estranho como uma conspiração.

    Há maneira de ser o que se quer ser, deu pra ouvir. Quis o fim da tarefa no naipe da lisura do seu corpo – a sua beleza era uma espécie de gula divina, eu deveria dizer. Escrevera aquelas palavras com fluidos corporais em seu caderno, como em um novo transe, sim, foi uma entrada muito aguda, muito mesmo. E que seja para o exorcismo de seus próprios demônios! Como mergulhar num buraco negro a tensão entre o mundano e o sobrenatural quando a mente não consegue pensar abstratamente?

    Pois que a realidade sempre se alivia com o prazer, já que há o comprometimento de cada um com seu mal-estar generalizado. Ela só pensa em se pintar, cabelos, unhas, lábios… Mas essa era toda a questão: como se passar em pinceladas; e até você conseguir isso, não importa que o assunto seja ostensivo, era pra se ter harmonia entre as partes.

    Do início de uma letra, no meio de uns abraços, no final de um dia no campo. A confusão agradável que sabemos que existe cá em nós.

    Daniel Egneus
    Daniel Egneus

    Cantarolando

    Na parte da manhã quando eu acordar e o sol estiver atravessando a janela, você encherá meus pulmões com doçura. Preencherá minha cabeça com você. Devo escrever uma carta? Penso pedaços de uma música que eu não consigo esquecer e deixar sair. Eu posso estar perto de você? Posso levá-lo para uma manhã de sol e café imaginando campos pintados de ouro, lá onde as árvores estão cheias de memórias dos sentimentos, nunca te disse?

    Quando a noite puxa o sol para baixo e o dia é quase completamente seu e todo mundo está dormindo, mas os mundos são você. Posso ser perto de você? (Ah) oh  [assobios]. Já faz um tempo que, então, eu realmente gostaria de conhecê-lo, mais, você sabe. Eles cantam uma canção assim, gostaria de ir até o horizonte. Apenas para você todas as lisuras estão girando em mim e tudo, tudo aquece. Lá pela linha de tristeza, sim todas as menos definidas listras dos gatos mais frios. Mas então estar-se a refinar, oh sim. E eu quero ver coração coração coração coração e alma.

    Coração e alma porra, meu coração e alma. Por instante.

    Sabrina Arnault
    Sabrina Arnault

    Pulos

    E havia desistido de ser anjo, ou anja. Ou santa. As asas estavam vermelhas já. Dentro do quarto, quis a nudez, sem blusa sem sutiã, sem calcinha. Estava úmida, sentia-a já nas pernas. A conversa a deixara quente por muitas horas. Um pouco mais, um pouco menos, sentia ser múltipla nessa vida, existia o corpo, mesmo que por muitas vezes preso às narrativas inventadas do dia a dia. Deu pequenos pulos de alegria, o vento frio coloca limites, pele arisca e arrepiada.

    Às vezes tinha a sorte de ser lida no transe, nas estrelinhas púrpuras que sentia pular dos olhos. Decidiu há algum tempo procurar apaixonadamente suas narrativas que aceleravam o pulso; o céu estava claro e assim permaneceria, sentia. Gostaria dos pingos grossos que refrescassem a noite que chegaria aliviando a secura do ar. Tomou duas doses de cachaça (entorpecer é quase sempre maravilhoso) que conferia certa delicadeza dos movimentos.

    Era bom e sabia que seria bom quando acontecesse. Pulos.

    Amy Judy
    Amy Judy

    Mas a boca

    Porque isso sou eu, e tudo o mais depois disso. Isso poderá fazer mais mal do que bem, saiba disso. Tinha um perfume cítrico e suave, de maracujá, desses que adorava passar depois do banho. Poucas coisas alegravam tanto o seu coração quanto aquele cheiro. Se encarregava das questões de dinheiro de forma cautelosa e prática, em um esforço contínuo pra fazer tudo dar certo. Quando pela primeira vez esteve doente (daquelas doenças) ficou só, despedida por capricho. É difícil, eu sei, mas é assim que funciona, dizia. E nem é novidade, já previa. A boa notícia é que quase sempre nos curamos. Sua companhia foi uma descoberta agridoce, disse o outro. Era para qualificar a tal “agitação profunda, dores fortes, medos irascíveis”…  Quis dizer: eu prefiro que seja pelas minhas veias aparentes nas mãos mas eu reconheço uma melancolia nos meus olhos.  Eles são verdes, e um pouco transparentes para os dias de hoje. Meu cabelo está prateando também. Minha esposa diz que essa é a minha distinção. Quando eu tomar seu tempo para introduzir pensamentos coloridos, confie em mim. Agora… os gestos (que não se precise falar tanto sobre eles). Surgirá a leveza a partir de experiências técnicas e de um tipo que pessoas alheias a ela também. Eu sou o Cavaleiro das Flores e esta é minha história! Eu tenho minhas próprias forças sobre como ser criativo, sou prenhe de ideias espirituais que deveriam ser tratadas, e eu não sou tímido sobre deixar minhas opiniões conhecidas. Não é que eu estou sempre certo na minha visão, mas eu tenho a melhor maneira de chegar ao sol. (Eu geralmente tenho os melhores atalhos também!) Eu não tenho tempo para metodologia ou pragmatismo, se você quer fazer as coisas da maneira dinossauresca vou marcar um caminho sem você. Mas, se você está parado e precisa de inspiração, eu sou o homem jovem vibrante que lhe chama. Segure-se firme que vai ser um selvagem a guiar! Eu sou destemido também, o meu sorriso brilhante dependendo de qual lado, é irresistível quando eu preciso para jogar. Meu cabelo ruivo brilhante é uma característica física da minha paixão, e ninguém pode resistir aos meus nítidos olhos de esmeralda.

    Sua falta de água o faz impaciente com a sensibilidade e o saber que amar você é errado… Mas a boca não disse palavra.

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    Oana Farcas

    Os três copos

    Você perdeu a sua personalidade porque andou em cascas de ovos para manter a paz? Tente não se preocupar muito, menina, a mudança de vida acontece quando encontramos uma direção. A tentação traz para você uma luta formidável com o que seu coração deseja e o que é certo para você… e o potencial de fazer a escolha errada. Você tinha um monte de ferros ali na brasa, não é, e se queimou! E por causa da natureza requintada de como você foi reparada (com ouro?) deu-lhe mais tempo para desfrutar de um sabor de liberdade. (É que os antigos acreditavam que não se tenta reparar como novo, tenta-se reparar para que seja melhor do que um novo). Porque depois de reparar, as linhas das cicatrizes tornam-se caudalosas como rios. É tão natural destruir o que não se pode possuir, negar o que não se compreende, insultar o que se inveja. Queimaduras da nossa vida continuarão a arder em nós, mesmo quando o amor humano (re)começar. As formas sutis, subterrâneas, mas o que involuntariamente se retêm destina-se a ajudar-nos a avançar. Aquele anjo, muito doce, cheirando a dama da noite, também a aconselha a procurar os significados sutis além desses eventos diários. Esta próxima amnésia que espera por você é apenas um outro tipo de graduação, mais um passo na vida de muitas graduações.

    Cumpre abrir espaço… venha, sente-se e faça aquele papel que representa a grande reunião que os antigos acreditavam que aconteceria uma vez em todos os tempos. Este foi o momento em que as almas são colhidas e levadas de volta para seu lugar de origem, fora do sistema solar. Você não está à deriva, está no pó. Todos os quase-acidentes, toda a curiosidade espontânea acabará por começar a dirigi-la exatamente para a direção… certa… magnífica.

     

    rodrigohmfotografia.com
    rodrigohmfotografia.com

    Conatus

    A gente busca uma realização da natureza primeira, talvez o segredo esteja na abordagem das novas ideias.

    Mas se bem que produzir por produzir é vácuo. Perpasse a pulsão em todas as suas ações e nas dúvidas (as pedregosas também), se tiver fôlego. É que às vezes precisa de tempo pra se fazer, precisa quebrar a cara algumas vezes, e mesmo assim, continuar.

    Seja no silencioso sentar à mesa, esticar a toalha, ajeitar as xícaras, várias vezes em um único dia, dia após dia. E só jogar aquilo que se sente verdadeiramente como jogar. O que está em minha alma no momento é o que eu quero fazer, muitas vezes um emaranhado de mudanças que não podem ser enfiadas nos carretéis habituais: E no pensar, eu o avistei. Corri para alcançá-lo. Apenas caminhamos lentamente lado a lado em um exercício que durou de 5 a 10 minutos. Ele disse, pode-se causar reflexão e discussão, que é tudo que você pode fazer. Eu tento não olhar para trás. Eu estou olhando para a frente. É tudo pelo menor conteúdo de doloridos. Bem, deixe de dar alguma olhada para trás. Todos eles estão apenas imitando outras pessoas… Penso sobre o que ocorre dentro e fora de nós enquanto ouço aquilo. Não concordando o caminhar ficou mais lento. Desacelerei até estar só novamente, para novamente correr para alcançar. Movimento que se repetiu várias vezes, por um tempo, por uma vida. Assim era como se vivia naquele tempo, sonhava. Alcançar e desalcançar. Sentir e dessentir, amar e desamar (ou pelo menos aprender a amar de uma outra forma). Foi perdendo o fôlego. Foi perdendo a vontade (queria que mudasse seu caminhar também) mas não o desejo. Era inútil, percebia, mas não se convencia… queria que as atividades da vida cotidiana fossem interligadas formando uma única prática, o caminhar acompanhado.

    Como era tacanha nesse pensamento, então. A recusa de alguém à sua companhia era dilacerante, mas não deveria. Dizia-se que atrito gerado por este processo (enlanguescer-se) – integração da vida cotidiana no movimento e pausa – pode, quer, deveria fornecer a energia que cria mudanças para quiçá poder crescer. Enquanto isso, outros acompanhares surgiram, permaneceram, desapareceram, se importaram. Diante de uma dificuldade, não conseguia manter o esforço contínuo. Era coisa sua, deveria de ser. Tenta resolver os problemas por pura angústia, pressa e o pior nas coisas acontece. Quase desespero, incompreensão de si mesma, porque duvida da sua sombra. Descansa as mãos e o peso do corpo nos joelhos, pra recuperar o fôlego, pois como? Se estava apenas a caminhar. De onde veio essa exaustão de existir? Certamente haveria uma inclinação inata de uma coisa além corpo para continuar a existir e se aprimorar. Pés de chumbo, a mente, a matéria, ou uma combinação de ambos, tempo real para modular vibrações, desejo de viver. Não desejava o toque. Só a não despedida. Era difícil perder de vista. Colocando suas lutas internas em exposição, sobrevivência vista. Mesmo sem querer. Teve vergonha da sua fraqueza, teve vergonha de si mesma na tentativa do alcance. Vergonha de ali, no prosseguir abandonado, aprendendo a (re)viver ou acalmando as ondas, perder o ar. E o que via ao longe era regalo. Esses são os dois temas que eu sou mais interessado com – disse, relativo ao meu estado de consciência enquanto o usa (tudo era afinal sobre si, mais ninguém). Isso importa? Maciez e ternura na auto-palavra. Não mera gentileza, um escasso aliviar.

    Eu sou uma pessoa mais velha agora.

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    Rita Bernstein

    E eu sou só eu, só eu só, só eu.

    Tu que andas pelo mundo alivia, diz por favor, canta passarinho, alivia… Eita que música linda. Coração vazio perguntando e vivendo a dar psiu, alivia… Tem pena d’eu. Como dizem, não tem jeito. O rei de ouros: tesouro, riqueza, soberania, inteireza e quiçá alegria. Aquelas alegriazinhas de nada, zabumba esquisito, um frio pequeno. Aquele que extrai a riqueza de seus esconderijos, aham, isso, os esconderijos.

    É moderno, um pouco imaturo, um tanto afetado, intencionado a atrair a atenção para si aos poucos. Vai e volta, é um vício. Um isqueiro (pra modo de poder fumar), grande ou pequeno, grande, qual cor vermelho, amarelo ou azul, azul piscina vintage. Um chocolate sabor café, sempre o café, vem mordido, que delícia meu deus. A vontade é de conectar pontos, que nem alegre nem triste e nem poeta. Pra todo mundo eu dou psiu, satisfação. Selvagem e inconstante sinto sem coragem para desenhar muros. Ainda. (I wish). E nesse dia branco, se branco ele for, se rosa ele for, se bonito ele for… se você quiser… e vier, será memorável ouvir seu coração. Se a chuva cair, um pedaço de qualquer lugar, tão grande e imprevisível.

    Um tição, esplêndido como um dia de verão, suscetível aos vôos de êxtase e das chamas de um leve tormento interior. Os pingos caem leve Emocionalmente sente-se como de frente para o mar, não o mesmo mar que você conheceu. Não mais. Suspenso. As coisas desse mundo estão muito erradas. O discurso de ódio toma conta, monte de ódio como forma de vida. Pode ser mais fácil viver a vida do outro do que a sua, imagina, onde isso nos levará. A chuva enternece, atividade fora de moda essa, tomar pingos na rua. O cabelo fica todo bagunçado, arco-íris seria um brinde (que não vem). Proibida, era, eu queria era arrumar jeito na vida. E algumas gargalhadas.

    E eu sou só eu, só eu só, só eu.

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    Emmet Gowin

    Verbo

    Silêncio. Retreat. Retirando-se do mundo exterior. Proteção e ocultação. Calmo e contido exame de consciência. Buscando a sabedoria e entendimento dos nossos padrões maiores na vida. Orientação ou aconselhamento de uma amiga querida. Peregrinação por dentro da pele. Pesquisando, vagando. Um filósofo de cavanhaque. Habilidades emocionais reforçadas pela paz e liberdade de pensamento. Foresight (because prevention is always cheaper than cure).

    Prudência. Conhecimento. Um estudo a respeito da natureza e os limites que se colocam em nós, como os efeitos das estações, tempo, etc. Reflexão. Deixando as riquezas materiais em busca do espiritual (sic). O celibato. A cura. Resolvendo problemas sérios. Recuperando. Valorizando o tempo sozinha. Ter tempo para lamber as feridas e a cria. A Paz. A natureza solitária pode ser uma condição positiva. Desejando paz e clareza ou transformação. Por outro lado distanciando de reais oportunidades e boa companhia.

    Sentada em seu sofá, em lamento numa ideia perdida de grandeza de alma. Ela representa o melhor que ele ou ela pode chegar a. Enquanto que o valor – a partir da posição das pernas, é aquecido.

    – Essa é a ideia geral da coisa.

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    À margem

    A imagem de uma mulher domando um leão pendurada na parede destoava. Provável ter sido a última aquisição para aquele amontoado de memórias, de tão nova que estava. Tudo dentro de seu círculo começa a transbordar alheio àquela solidão escolhida ou imposta, melhor seria tirar os pés do chão. Não vai mais se contentar com sua vida atual apesar da onda de introspecção que isso lhe trará. Tem 47 anos, rugas no rosto e nas mãos e ainda tinha esperança de que haveria melhora. Deitar debaixo de uma árvore e não saber se irá se levantar amanhã, tomar uma caneca de café com leite e não saber quando será a próxima refeição, dores muito fortes que já experimentara nas carnes. Tem que haver uma fase que permite estabelecer quem você realmente é e eu não me sinto como se eu estivesse lá ainda. O básico, sabe, o primeiro de tudo, é sobreviver. Depois a gente pensa na vida, né, nas curvas da alma. Mas a fome e a fraqueza embaçam a transcendência da gente. Às vezes queria ficar em casa mesmo, assistir televisão. Queria tomar uísque de manhã, como nas novelas. Até muito recentemente eu não senti que eu tinha a confiança necessária para estar em algum lugar totalmente diferente, mas agora sinto-me um pouco mais livre. Me lembro de estar realmente incerto sobre se eu deveria mudar. Eu fiz uma coleção de tudo o que foi preto-e-branco na minha vida, as cores são só para alguns. Uma mulher usa um chapéu na cabeça – exatamente o mesmo usado pelo Mago daquela revista. É calma. Ela usa um véu – talvez ela viva fora do mundo, aprendendo através dos livros e não da experiência.

    Há diálogos a serem realizados enquanto as coisas se transformam em algo sólido. Meu sonho é viver mais um dia.

     

    na parede

    Alpendre

    Simplesmente não lembrava de um mundo sem distinções, exato. Sempre aquela relatividade insuportável, com transições entre as vidas e as mortes quase fantasmagóricas.

    Eis que em uma vida pequena tudo faz sentido leve, como em outra vez existia em uma vida quase plena com cadência e claro movimento. Desconstrução como a de uma dose de cachaça no final da tarde, na janela de casa (como se fosse morrer naquele momento, mas não queria morrer) onde a tudo se pertence. ‘Achei que não sairia viva’ e agora haverá de conviver com a quase não sobrevivência e prosseguir acreditando nos bons corações – mesmo rodeada de situações-ódio.

    Pegou um megafone e gritou, berrou, trabalhada na voz, no discurso, clamou pela humanidade, pela beleza. Tudo dependia da nossa capacidade de prestar atenção. Lutar com o destino que é contra a nossa vontade, e não quer e não vai se render. As palavras escorriam, usadas e já sabidas. Como se construir esperanças sobre bases de vergonha e sordidez? Saber, já se sabe. O que fazer com o que já se sabe? E não se soube também em qual momento explodiu uma pequena e quieta batalha dentro do seu peito, alheio à sabedoria e às bençãos desse mundo. Só pensava nas manipulações de sons e sentidos. Aliviar o sofrimento.

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    Ilse Bing

    Havia a necessidade de se colocar os medos para descansar.

    O café não estava quente o suficiente. Segura a caneca com as duas mãos pegando emprestado um pouco de carinho. Aqui é o ponto onde se pode cair pela segunda vez, mesmo com os avisos de sempre, as coisas que já se sabe desde sempre. Em uma semana sentimos que tudo vai tomando seu rumo e o que mais se deseja é força, força de vontade. Pode ser que todos os produtos químicos que se acumulam no corpo tragam essa sensação de limpidez, sisudez. Pois que se sente como na mais longa pausa de inverno. É de apenas três dias, mas é muito mais do que realmente se pode suportar, não são essas pessoas que desmoronam afinal. Estão ali, bem onde matam a memória e a melodia.

    E se eu tomar bastante tempo e amor não errarei você.

    Então muito daqui é a parte onde peco por pensar que não devíamos tirar algum tempo (ansiando para que a solidão nos faça alguma coisa boa), pois que logo se descobre quão não se pode ser o que se é quando só, nesta casa mal assombrada. Alguns pensamentos se sentam bem onde matam os cheiros e se tomar bastante cuidado não se errará tanto e sempre.  Abrindo-se a formas não-lineares de saber, a pessoa que instantaneamente aceitou o desafio, já sente forte harmonia e equilíbrio na sua vida… existirá a possibilidade de permanência. Que se destinará a trazer-nos p(r)az(er) de espírito.

    Qualquer coisa, se tiver tempo suficiente.

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    Ben Zank

     

    Sabe do que fala.

    No quintal, um dos cães começou a latir no portão. Ela serviu-se de conhaque em seu copo e balançou a garrafa. Levantou-se da mesa e foi até o armário e apanhou uma outra. Magro, rígido. Um rosto escavado, olhos fundos. Modos sarcásticos. Ora cansado, ora ardente. Sempre generalizadamente ansioso. Era assim que o via. Exatamente assim. No momento em que você tende a se sentir mais segura e serena, é a hora que os cães ladram pra que não se esqueça que a calmaria é ilusão. Hoje em dia ninguém é capaz de compartilhar uma sensação com o outro. A noite, alguns cigarros e algumas bebidas funcionam bem pra clarear os pensamentos. Eu não sei como você chamaria isso, mas eu tenho certeza de que não chamaria de amor. Eu conseguia ouvir meu coração batendo. Eu conseguia ouvir o coração de todo mundo. Eu conseguia ouvir o ruído humano que os cães faziam, sentados lá em outros quintais. Nada de mim se movendo, nem mesmo quando a cozinha ficou escura. Suspirou, mas sem nenhuma vontade de acender as luzes. Amanheceu ali, na mesa da cozinha, um pouco bêbada e um bocado lúcida. Sentir o que se sente depois de uma noite assim. (Na verdade, era uma pessoa que não sabe o suficiente para prever (ou entender) seus pensamentos e ações). Então foi feito tudo o que podia ser feito e, nesse começo de manhã, estava dando pequenas risadas anunciando pequenas alegrias.

     

    Conhaque

     

     

     

     

    Um sentimento de cada vez

    No começo eu estava interessada na música que estava ouvindo em seu carro, depois de acúmulo de noites de insônia, procurando uma fase mais estável.

    Noites em que a incerteza falou mais alto. 

    Estava sendo conduzida com cuidado e a respeito disso sempre lhe serei grata. Embora não houvessem seringas, aquilo parecia um santo remédio. Agora um novo caminho, mais longo e melhor, com luzes, neons e alegrias de prosperidade. Você segura minha mão enquanto canta o refrão Esperei horas/Eu fiz-me tão doente/Eu gostaria de ter ficado dormindo hoje/Eu nunca pensei que esse dia iria acabar/Eu nunca pensei que esta noite jamais pudesse acontecer/Tão perto de mim… perto de mim.

    Queria segurar seu rosto, deixá-lo cheio de carinho, mas não alcanço. Sorrio na sombra e você não vê, talvez também estivesse sorrindo. Gostava daquilo, de ser passageira, de ser guiada, levada, sem precisar decidir pra onde. Nem o como.

    Textos se acumulavam na escrivaninha sob o teto branco leitoso, eram fixos no seu pensamento. Quando você está no seu interior e se permite contato com o outro, tão áureo, a música ambiente japonesa que se seguiu parece ser a que mais encanta. O minimalismo eletrônico lhe deu uma estranha certeza de que as coisas ruins passariam. Por um tempo prolongado governado pelos que não tinham necessidade desta torção existencial guerreira, seus pensamentos eram o que chamou de cura. Não estou muito preocupado, ele disse. Agora sim, teve certeza de que ele sorriu lindo.

    Acendo um cigarro, penso se deveria lançar óleo em meus humores, naquela atmosfera perfeita. Como a entrar no sagrado, agarrei sua perna e queimei ~camada por camada~ arrepiando a beleza. Por sorte, você queimou também.

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    O azul de todo dia

    Seguia pelas ruas e de dentro do táxi observava pontes e bicicletas. Ele fez cara de mau, aposto que era só pra foto, riu vendo o trio de turistas. Então eu permaneci, destruiu a imagem maior da desistência. Pensava como ali era um paraíso para os fumantes, o seu coração é oco e estou afogada em tristezas, ouvia no rádio. Centenas de pessoas falam, podem falar. Só ter quem as ouça.  Mais desanimador do que a apatia que se tornara o modo de ser deles era a matéria-ódio que se instaurara nos espaços vazios.

    Era quase imperceptível, mas ficou bastante evidente nos meses que se seguiram. Sem a vontade de espera sua pele queimava diante do vazio que estava. Preenchia-se com carinhos, com dedos, letras e café. Se você valoriza sua saúde mental, empenhe-se na direção de coisas que lhe dão prazer. Para entreter-se somente. Vivemos como que nos debatendo como os justos que permanecem em silêncio. Então para não ter que dizer corria riscos.

    Da perdição que é o descarte, agora voltamos ao centro de tudo e o que conhecíamos era insuficiente. Desceu, pagou, e ficou muito tempo ali, na entrada da estação, ao lado da sua bagagem, assumindo sua nova condição. Eu não podia levar você, e eu nem percebi isso. Lembrou do mar estrangeiro tão diferente do seu mar. Eu tenho o corpo sem mente e ele grita como a dor. Mas a boca não grita e nem sequer sussurra, boca calada, porque ‘seu pai evém chegando’. O mais pessoal que está disposto a ser, e quanto mais íntimo você está disposto a ser sobre os detalhes de sua própria vida, o mais universal você é.

    Sorri gostoso quando vê a placa da estação do metrô, de um azul sem pátria, pantone que era.

     

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    Helena Almeida, Inhabited Painting, 1975, Acrylic on photograph

     

    Neurônios-espelho

    Uma noite de novembro na década de noventa esteve sozinha, e se estivesse tendo um dia ruim, não olhariam em sua direção. Talvez sempre se pode ouvir Você vai encontrar instantaneamente como viver. A jovem família tem prioridade, e isso faz com que se sinta um pouco pior. Os dois sentados em um quarto de hotel, diante de uma declaração absurda que era aquela – preferia as que vinham com força de mudança, quiçá equilíbrio. Pensar com prudência e estilo.

    Pois que uma pessoa de tantas histórias, que acontecem em lugares um pouco indeterminados, revela possibilidades bastante limitadas e ainda assim não consideradas. Muitos anos atrás gostaria de saber em que medida a vontade verbal pode ser traduzida. Palavra-ação. Objetos imóveis como pedras, conchas, as forças de areia movediça-escuras, um palácio, água pura, colunas imponentes, uma pirâmide, pinturas nas paredes que nomeamos quando perambulam no nosso sono, rebuliçam a consciência.

    Porquê o verso livre, prevendo uma saúde emocional forte, é mais difícil de escrever do que a poesia calibrada, cadente. Se não há algum tipo de movimentação interna que justifique a rigidez, ele não poderá ser feito. Levanta-se lentamente, segue em direção à janela, abre as cortinas e a noite que poderia ser a mais estrelada de todas para coroar a emoção, e é apenas mais uma noite. Como tantas, sem dono. Desejava algo que torne cognoscível o caminho de algo fora do tempo. É uma forma de hipnotismo, auto imposto. Isto é apenas parcialmente o seu próprio fazer e as preferências são, se não houver escolha, de vivê-las a fundo e perceber que ama (no matter or what).

    As ondas já não vêm como antes, e a produção do medo estancou. “Sinto que todos nós temos esses ‘neurónios-espelho’ em nosso cérebro que nos fazem tomar um pouco de humor das pessoas ao nosso redor.” Arde de vontade por um pouco de humor, por um pouco de persistência, alegria. Uma boa contrapartida se conseguir dormir …

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    Eric Marrian

     

    Então você tem que me amar

    Eu tenho o seu nome e seu número, você parece um pouco surpreso… Talvez seja porque eu posso ser, você sabe, frio como o gelo. Em situações de dias quentes sempre quero vir. E se eu ver você saindo, seguro-te antes que chegue à porta. Eu vou te dizer uma coisa, você é melhor que o inexato agreste. Eu vejo o futuro (eu ouço os mortos). Nele, eles tentarão matar o seu estilo, destruirão a sua forma e desacreditarão seus motivos. Eu vi a maneira que acontecerá, pois te atacarão onde tu é mais frágil. Atacarão tua honra, tua integridade e chegará a duvidar dos próprios pensamentos. Então decore meu número, é por isso que eu tenho um telefone. Me ligue depois que escurecer. Me ligue.

    Posso fazer o sol levantar-se diariamente bem acima de seus desencantos de pintura de paisagem. Estarei na primeira fila mais tarde, quando sua pessoa torna-se uma persona. Penso que talvez possamos mudar este jogo para sempre, sair da mediocridade. Nossa respiração torna as formas etéreas no tempo frio. Eles podem dizer que somos os dois loucos… e eles estarão certos.

    Estou feliz que eu encontrei você, velho. Não quero alguém dizendo ahn não-não “acabou-se o tempo”. Não vou desistir fácil, nós fomos feitos para cruzar a linha do horizonte. Não quero que as coisas que fazemos… Apenas quando precisar me chame. Pessoas o ouvem e sorriem. Provavelmente, naquele momento que disse aquilo, eu estava me divertindo com areia. Então, se você estiver se sentindo da mesma maneira, apenas me chame, entende? Durante muito tempo fui tímido no contato com outras pessoas, que eu me lembro. Só não pense sobre obras de arte como objetos, pense sobre eles como gatilhos para experiências. Você é atenta, e eu confiei no que a sua atenção se dirigia. Porque eu não sabia, mas eu queria saber.

    Tentação pode ser tudo ao meu redor.

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    Osma Harvilahti

     

     

     

     

    Esta é a mensagem desta carta

    (Um grande vento de otimismo vai soprar na sua vida em breve). Alguém escreveu que era um trabalho inédito, na verdade, estava em uma posição extremamente positiva quanto ao futuro, embora inédito não era. Mas também, colocado daquela forma, calma e rasante, recusando a exploração da energia explosiva e força vital, transferidos para o espaço da arte, era como acordar no meio da noite. No que dizia respeito à sua criatividade funcionava melhor. Seu estilo de vida vai evoluir no sentido de criar mais espaço para o silêncio, atividades de lazer e tempo para viver. Os próprios intervalos de verão, milagrosamente perfeitos, seriam em piqueniques com toalha xadrez vermelha. (Permitir que gerações distintas percorram as memórias de Pedro). Lembranças do mar que vão desde o calor de uma noite para dias ainda mais quentes e vaporosos – mais tipicamente esmagados em um corpo que apesar dos suores permanecia intacto. Na bagagem alguns bons sanduíches de presunto, guaraná e bananas. Estava com fome mas já estavam quase lá. Seria um registro de memórias, principalmente de outros povos (mesmo que imaginados) e, ocasionalmente, as suas próprias. Queria um vestido de fios de pérolas penduradas costurado ao corpo, literalmente.

    De uma forma ou de outra, você irá estudar e irá aprender. Irá absorver o que os outros fizeram antes de ti (a sabedoria das pessoas mais velhas, dos seus pais e outras pessoas idosas). Uma fêmea às voltas com frescos, ainda que sangrando e inflamando punções na alma, presos sob a pele dos anéis, sugeria um consentimento eufórico. Sua vida vai se tornar mais estável e positiva em relação ao seu comportamento, vai ser dinâmico e não terá perturbações importantes, o que lhe dará liberdade para implementar seus planos a longo prazo.

    Você não vai sentir qualquer necessidade especial de fugir, a vida real não é difícil pra você.

    Areia, pés descalços, umidade, textura. Alegria dos lanches, alegria da companhia, alegria da vida. Alegria da língua, dos ventos e cheiros, é uma forma de retiro. Não podemos mais acreditar, mas as necessidades e anseios que nos fizeram compõem essas histórias de ir e voltar… Estamos sós, é violento. Ansiamos por beleza, sabedoria e propósito. Queremos viver para algo mais do que apenas nós mesmos.

    É o lugar perto do coração.

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    Faz bem sempre.

    Com a idade de quase cinquenta anos, sentada à beira do oceano, ela mergulha seus poderes. As técnicas de cura evoluíram muito e agora perseguir o fantástico é até aceitável. De forma ocidental, a busca da síntese ainda que de forma pouco racional, poucas coisas querem dizer muitas. Os desejos são fortes e cheios de cor que dão suporte ao próprio poder do corpo. Sentia que de alguma forma um evento irá ocorrer que lhe dará a oportunidade de fazer exatamente isso, utilizar o corpo todo, assim como as pontas dos dedos. É aí que reside toda a graça: trazê-los para o contraditório lugar da realidade. De poderosos, os delírios necessários à nossa mente estão trabalhando em torno do relógio biológico a fim de manter a vitalidade. A impressão que fica é a de que ela vive uma rotina tranquila, serena embora ela diga, em meio àquele cheiro que entorpece de café com biscoitos, que não tinha mais energia para manter suas emoções em versões ampliadas:  grandes espantos, grande solidão, grandes inibições, grandes instabilidades… tinha se aquietado. Nós todos perdemos alguma da nossa fé sob a opressão do convívio, amores, crueldades patológicas da vida diária. Isso devem ser desconstruídos, disse. Sabe aquilo que a Madame Ono dizia? Um sonho que se sonha sozinho… pois é. Sempre a achei bonita, embora nunca gostei de como ela grita. Coloque duas vírgulas aí, menina. 

    Saí dali comovida, com a sensação que tinha tomado o melhor café da minha vida.

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    Propósito na vida

    De acordo com a família, ele foi visto pela última vez em Três Passos. Mas não estava lá e não havia chegado nos dias anteriores. As primeiras lembranças que tinha da infância eram de tentar acordá-lo sem conseguir, ele também não cooperava. Não era um jogo, mas era como se fosse. Agiam como se estivessem blefando, escondendo as cartas e os amores. Tentavam ser impassíveis. Supostamente não havia como reagir pois não era possível reconhecer uma pessoa que estaria  em vias de combate, arisca. Acabaram por se fechar as portas e reconhecerem o estado frágil  do excesso que desejamos. Lembrava dos chinelos com pregos, frases intuitivas, recompensadoras e sensíveis.

    Se esquecera dos seus próprios limites, levantou e saiu. Desistiu da procura. Sem as múltiplas invenções da tecnologia, sem ser notado, de mãos dadas com os pensamentos. Pensava no domínio sobre os versos, coisas e pessoas. Mas havia limites, era o ano da realização pessoal então. Domingo atrapalhado esse.

    Sentiu-se mais eufórico, a desistência alivia a tensão, os ombros caem, o sorriso acontece. Era tudo sobre gaiolas – as que a gente vive porque nasceu, porque escolheu.

    Porque nem sabe. Pensa em pintar de branco sua sala e pendurar coisas no teto.

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    Christina Malman, Woman Trying on a Fur Coat, 1939