Seu abraço, uma fortaleza

Talvez você sinta que tudo o que você percebeu anteriormente, do viés pelo qual você percebeu, está finalmente caindo aos pedaços. Osso por osso. Perder as formas e as pessoas faz funcionar as loucas velocidades de alguns pensamentos destrutivos. Ali em pé, na praça, olha a chuva e sente um gosto de derrota forte na boca. Pés encharcados, calça úmida, esbarrões. A chuva nos poemas é bucólica, linda, te coloca pra pensar na vida. Coisas modernas. Se você perguntar-se com paciência e cuidado sobre as escolhas e as prodigiosas lentidões do viés das coisas terá uma percepção da potência de captar micro fenômenos, micro operações. Micro-gotas. Arrepios. Dá ao percebido a força de aceleradas ou desaceleradas, decisões. Elas só estavam esperando para se multiplicarem. Segundo um tempo flutuante que não é mais o nosso e necessidades que não são mais desse mundo: desterritorialização. Estamos sem lar.

‘Eu estava desorientado’ ouviu no ônibus. Ele mesmo não é mais senhor das velocidades, e alguns andavam como se estivesse vivendo. Só penso que quero isolar-me, ir para casa, ensimesmar-me. Talvez com rádio, boas baterias, melodias. Pois o que seria um futuro bom seria no abraço. Aquele. 

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George Rodger, Pondo women of the Transkei, South Africa, 1947

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Deus é a sua solidão

Talvez um projeto ambicioso, uma micro performance inspirada na solidão e no contraste entre a esperança e o medo, alçado pelo poder do mito e pela importância das palavras (lembra da dificuldade da construção do eu, aço preto).

Evidência. Anotações em pé de página: empatia – estar com. (Olhando em seus olhos, olhando em seus olhos, olhando em seus olhos, eu estou olhando em seus olhos). Brinca com a aceitação, com a ação e o movimento.

Deus sempre nos deixou sozinhas.Um contraste semelhante que diz muito mais a respeito da geografia do que da filosofia, é criado baseado no tema de deserção motivacional. Era dilacerante ser insultada sobre as qualidades do meu pequeno corpo quando eu ainda era uma criança espiritual. Sentia que tinha que me tornar fisicamente capaz de me organizar e fazer o que precisava ser feito. A auto alegria, permanência e auto preservação me impeliam contra a conformidade religiosa predominante.  A grande questão da revolução está nos objetivos a serem alcançados, não nos meios para alcançá-los. Sobrevivência.

Estava gastando muitas horas da minha vida a fazer este trabalho, e se ia continuar, eu realmente gostaria que tivesse significado para mim. O começo com o som dos sinos da igreja, soavam como se a zombar, escarnecer da nossa existência. Enaltecer esse escárnio dando facetas redentoras do sofrimento é um ato violento. Exigência da não conformidade com as regras vigentes. A impressão geral é a de um dos pensamentos conflitantes: uma tristeza ao pensar que a religião pode não ser verdade, e a difícil força de eliminar a esperança de que um poder superior pode ainda estar presente, mas em silêncio. Se vivemos situações em que sistematicamente e constantemente se amordaça o feminino pelas tradições, a reação deve ser violenta. Nada disso faz sentido algum. Não mais ficar de joelhos diante do masculino divinizado.

A solidão do som, o silêncio da palavra é um reflexo do tempo, que durante a gravação, o artista mergulhado em sua própria psique, procurando significado e independência.

A luta é aparente no desejo do violoncelo tocando ao lado, banhado em lágrimas. Muitas vezes, o desespero parece ganhar, especialmente quando uma voz distorcida entoa ‘um mundo de trevas lhes aguarda…’. Este sentimento de não pertencimento, talvez um pouco demasiado óbvio (ainda um reflexo de raízes hardcore) reflete, no entanto, as palavras: “O que mais dói é esta – que Deus não é mais poderoso”. O minuto final não seria fora do lugar em um funeral. Com um número cada vez menor de pessoas que lêem, a música pode ser a nova literatura.

Parte II: A necessidade de sobreviver  é o próximo na súmula. Por agora, muito em que pensar. Se as duas partes seguintes são tão fortes quanto a primeira, será um tríptico incrível. Cabeças e corpos por todos os lados.

Renunciar, convidar e abraçar tudo de uma vez. Preponderando a mudança.

JAPAN. Tokyo. 1996. Waiting for the tube.

Gueorgui Pinkhassov, Waiting for the tube, Tokyo, 1996

É o meu corpo

Eu sou muito sensível e um bom pedaço desagradável. Eu não sou uma pessoa perturbada nem nada, mas definitivamente uma pessoa (em crise). Se pode lidar com isso ou contra isso. Tanto faz. Havia sempre trabalho para fazer e muitas outras coisas que eu estava interessada. Encontrei-me nesse lugar de angústia e algumas perguntas por todo o caminho de volta esteve sem resposta. Naquele ano crucial… Então percebi como – isso soa pouco um clichê – em uma ação voluntária, esvaziar-se de tudo o que se é, é libertador. Não há nada lá, nesse lugar de alma. É uma ideia. É um conceito. Não é real. Estou confortável com ambos. Você pode me chamar de qualquer coisa que quiser.

Passeando sobre esses conceitos e as outras pessoas decidiram o que era ou não em relação a essas coisas. Não me identifico com essas possibilidades. Eu só tenho esses pensamentos. Eles incentivam você a fazer declarações e ser uma pessoa provocante sem ser matizada.

Mas esses dias acabaram. Nós não vivemos nesse contorno mais. Algumas pessoas ainda vivem neste mundo sombra de falta de transparência e inautenticidade. Eu acho que o mundo está nos sendo roubado, compartimentado e estamos sendo excluídos. Pela causa, há diálogos a serem realizados, o que lhe dará os elementos-chave para decidir sobre as escolhas que precisaremos fazer. A superabundância de enfeites e distrações entorpecem. E acabamos por amar nossas prisões, ou pelo menos a grande maioria.

Você realmente não pode mentir mais. Pois que havia sempre muito trabalho a se fazer e não confie em coisas que parecem fáceis. 

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Olivier Valsecchi, Couple

Foi agorinha

Você chorou embaixo das árvores domingo de manhã, bem reparei. A árvore esqueleto no vidro da janela, persiana do vento. Oh, nada é de graça, nem uma vela. Bem, talvez você possa ver e me dizer para onde foi. Folhas caídas enredam através do céu visto daqui. Uma lua nervosa incandescente do branco como o fogo, só deixo estar. E volto a respirar.

E está tudo bem agora, está tudo bem agora.

Música como na garganta de uma sereia, e estou te chamando, é minha voz. Você é um homem novo agora, que acorda coberto de sangue que não é seu. Cheio de energia proibida, cintilando na escuridão. Tinindo. Percebe que tem que romper com estruturas, percebe o que lhe falta para isto. Você chorou embaixo das árvores no domingo. Eu bem reparei.

 

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Lina Scheynius, Amanda in London, 2014

Será que você tem um monte de carinho?

2.3
Você é um pessoa muito bonita. Mesmo quando você está em pausa (e as circunstâncias a pedem), você parece não entender completamente o que significa ser uma pessoa bonita. E aquele amigo muito próximo que tem como principais qualidades (humanas) alguma paciência e doçura suficiente para um impacto direto sobre seus pensamentos irá te explicar. Chegará a te desarmar. O que você vai experimentar tanto em terra como no além-mar é que o melhor é que justamente as armas caiam. Isto é tanto uma certeza e uma verdade, mas no momento não ousaria permissão para dizer mais.

2.4

Naquele momento, isso teve um impacto maior sobre suas questões do que poderia imaginar. Uma prioridade é a amizade que você tem com ele. Sei lá se poderia  levar a gestos inapropriados de cá da sua parte. Você deve falar com ele para garantir que nenhum dano aniquile com a ideia. Será praticamente impossível de fazer, mas deve se esforçar, reforçar.

2.5

Franqueza e clareza em suas explicações poderiam levar a um debate ou uma discussão sem fim, então é melhor transmitir seus sentimentos com a esperança de que você os entenda.

2.6

Um cuidado especial para limitar os danos, porque este homem não necessariamente irá aceitar o que você diz. É aqui (de sua parte) que começa a negar uma realidade cada vez mais evidente. Mesmo que este homem não entenda você, ficará claro que não fazem mais do que o necessário. Goza de liberdade dentro dos limites que você criou para si mesma, ele repete. Tenha em mente que a água ocupa um lugar especial no toque e na pele. O seu papel não é claro, mas a sua presença é muito evidente.

conceitos-chave: coragem, originalidade, ilusão, equilíbrio, insegurança, campo, peixes, segunda-feira, mês de janeiro.

 

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Ivana Almeida

Demorei para guardar os sonhos na gaveta

Quando você for mudar, com muitos lampejos de inspiração que, se bem organizados, podem ser  certeiros, guarde o seu descanso. Que não se esteja disposto a deixar o visual mundo e se você o quer mais escuro, sopre as velas. A menos que se tenha aquela coisa assim, não espere por nada. Você é igual a mim mas eu vivo fora da cidade, e sei que você não deve mudar o endereço da sua correspondência. São os números, lapsos cíclicos, vagares, como a filosofia, como a arte, como o próprio universo… não tem valor de sobrevivência; pelo contrário, é uma daquelas coisas que dão valor para a sobrevivência.

Anda a olhar para a beleza e os significados entre os destroços espirituais que encontra jogados pelo chão. E  sentada na janela aberta (às quatro da manhã), imagina como seria a queda de costas do segundo andar. Tipo poesia, mas que se desintegra em inverdades para qualquer um que já tenha sido impulsionado pela bondade forte e amarga de um amigo, ou sobre alegrias amplificadas por uma estranha disposição em frente à crise.

Se tira força e algum sorriso é mais por mania do que por alegrias que encontra. Provavelmente você não estava muito bem quando me escreveu, sempre a olhar os prós e contras, atrás de melhores sonhos. Não faz sentido ir contra atrasos e obstruções em inspirações mais sutis. Ventos de boa sorte irão soprar em sua vida em breve, dizem as cartas (onde há uma mulher nua ajoelhada à margem de um rio) e o curso da sua vida cotidiana se tornará menos conturbado.

Uma onda de introspecção, que merece cigarros miúdos. Muitos.

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Ivana Almeida