É o que não está lá

Quais afetos estão ali? Enquanto você me excita, me levanta, me exponho a ti. Meu corpo é uma racionalidade, uma forma de como se pode estar no mundo para além dos dinheiros e empregos. É uma era da violência insensata essa que vivemos. E como a mais doce taça que eu dividiria com você, ergo um grito coletivo de liberdade.

O que você vai fazer quando as coisas correrem mal? O que você vai fazer quando tudo se quebrar?  O que você vai fazer quando o Amor queimar? O que você vai fazer quando as chamas subirem? 

É um confrontar-se com uma situação de desabamento da possibilidade de respostas fáceis. O que você vai levar para que se faça um sonho brotar, apesar da tempestade que não se acalma, é o que inquieta. Permaneça, repete. Permaneça. Oh, você me levanta até o topo e só aí então, eu posso ver que as luzes brilham e os sentimentos vêm.

Mas se isso não significa nada, quem teria o toque para acalmar a tempestade? São passíveis de vários usos. Talvez daí venha a importância de que ao menos um seja a coragem, com uma boa maturação para quem possa estar desamparado, uma diferença atenta. Lidar com afetos que não se controla, corpos em errância. Corpo fissurado, pequenos abismos na pele onde moram as possibilidades de reação e quiçá um pouco criatividade nessa vida.

Na imagem que está na parede do quarto, vemos um homem e uma mulher que se olham demoradamente e cada um tem um copo na mão esquerda. Nuvens cercam os dois e o tempo pode estar nos dias ou horas e, desamparados de si, estão a fazer brindes.

Longo alcance.

 

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Delicadezas

Tranquilizar a imaginação enquanto toma café com bolachas, diz seu horóscopo do dia.

O gesto de “fechar os olhos e tocar o nariz” tornou-se um pequeno ritual em dias de crises (essa habilidade aumenta com da prática) – como forma de lembrar que tem um corpo – rapidamente se estende para o pescoço, ombros, braços. (Suspiro). Interrompe os toques que já são arrepios e sente sede. É um teste para os sentidos. Estão todos aí, prontos, mostrando seu corpo como realmente é. Este meneio lhe dá a capacidade de dizer onde suas partes do corpo estão, em relação a outras, e espera alcançar o ápice quando conseguir perceber onde estão em relação à sua alma.

É uma sobrecarga nos músculos.

Relaxa e tensiona (como quando se encosta em alguém que deixa sua pele como que dirigindo bêbada). Ser – migo comigo mesma. Este sentido é usado o tempo todo em pequenas formas, como quando você coça seu pé sem olhar para ele: nem para sua mão em relação ao seu pé.

E não há um libertino, que esteja um pouco dentro do vício do corpo,  que não saiba quanto o desejo tem de poder sobre os sentidos…

Hoje nos meus sonhos voei, com seios nus, passeando entre as nuvens brancas gigantes. É a angústia do sagrado, o temor diante da eternidade. Solidão. Segui com medo até o encontro com as já dissipadas nuvens em forma de neblina, deleitando-me no espaço esbranquiçado, como se tudo até então não importasse tanto. São poucos os dias em que alguém pode sentir-se antecipadamente alegre e vívido por apenas estar ali, em um segundo – apenas um segundo. Senti o corpo novamente em aceleração, acariciado.

Então o céu desmanchou-se em um banho sobre meu corpo (já nu). Sigo buscando delicadezas.

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Cédric Delsaux, From series 1784, date unknown