Antes de qualquer coisa

Para deixar claro que as mais procuradas eram aquelas palavras, por assim dizer, que voluntariamente fariam esquecer muitas recordações do passado. De se abrir mão de prazeres (mesmo que em recordações) (o que não são capazes de fazer algumas imagens lembradas, hein). Esquecem que o resultado natural de uma alma é o desejo. O abandono de ver a imagem que reflete um passado quase recente acaba por fazer mentir a nós mesmos (e quiçá nos agradar) — um trabalho incansável de engano.  Ahn! Que não faltará uma legião de “bons conselheiros” querendo se meter na sua vida com nossas próprias mãos! (Mãos, só as minhas). Agora é possível dar uma reviravolta (suspiro), se lhe apetecer. (Caí nos meses passados mas estou inteira, só com um pouco de dor) (desconstruída, descabelada, amarga, sedutora, ameaçadora). Emocionalmente menos estável — síntese de um corpo ancorado por pura angústia, pressa. (Lembrando do que passou você merece o amor). Aquilo que evitamos não deixa de existir (pudera que assim fosse), apenas passa a atuar de uma forma mais sorrateira. Aí sobrevém: acontecer depois de (outra coisa) o desejo de (re)existir.

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Voltou para casa sozinha

Poderiam deixar você nua em pêlo no meio da rua que não iria adiantar. A revolução de enterrar ou incinerar experiências, principalmente as não completas, permanecerá flutuando na íntima e desenvolvida vida. Pelos risos afora, com uma frequência bastante assídua, a flutuação seria o antídoto necessário para que ninguém estacionasse tanto em seus hábitos e costumes quanto ela. E que de um moralista discreto se transforme numa alma boa. O controle que se impõe ao treinar a aterrissagem trata-se precisamente de uma mente focada, calma. Ela faz tudo de si pra si e, escondida na sua não tão frágil sensatez, a pretensa liberdade aviva com um sistema mais afinado. A realidade e suas tragédias podem ter escapado às suas tentativas de controle e manejo exigindo um movimento brusco para manter o olhar altivo, ainda que se curve em demasia na presença de lembranças já anêmicas. 

Deu uma volta nos calcanhares e seguiu.

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Vivian Maier

 

Busca do sublime

Se a vida acabasse em mel, perplexos seguiríamos em aparentemente normalidade – disse o brincalhão. E já em idade de se comunicar, o menino ainda não fala e por motivos pessoais os pais resolveram buscar em muitas e outras organizações religiosas a palavra perdida. O cosmos é íntimo numa forma como a alma se identifica com a vida. Mas uma coisa não poderá esperar: sobriedade, pois sua alma estará muito mais interessada em perder a cabeça do que em mantê-la no devido lugar. A mudez do menino atordoa quem não compreende e em meio a exames, bençãos, rezas, súplicas, ele simples está. Busca o sublime (não conforma com a banalização)aquela aventura que te tire dessa existência ordinária com a qual já discorda visceralmente. Não, não teria idade para isso ainda…  para pensar sobre os ordinários dessa vida. Mas de alguma forma reage a elas com mudez.

O sublime está longe, mas está perto também, está no viés dolorido do entardecer de outono.

O sublime pode ser encontrado em alguns pensamentos e que ao observá-los fica surpreso na qualidade e profundidade desses. Imaginava incapaz de produzir poesia, mas eis que se pega em pensamento descrevendo poeticamente os acontecimentos. Encontra o sublime  nos comentários surrealistas, nas ladainhas, nas luzes na sua garganta, medidores, instrumentos cirúrgicos (que te sequestram da existência almejada e te devolvem ao lugar onde está).

Um dia irá gritar aos quatro ventos: a Vida é sempre surpreendente. Por enquanto, boca miúda. Vosso pai evém chegando.

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Por uma vida encarnada

Chega de ilusões, ainda que uma parte sua evite a todo custo perdê-las. Sem querer e sem buscar, de repente se depara com tua própria alma e não sabe o que fazer, pois o momento evoca aquela circunstância de encontrar – que nada mais é do que uma interpretação espiritualóide para um fenômeno bastante natural do próprio corpo: sonhar acordado. O dia estava nublado, cinza escuro, ventava forte e nas mãos trazia pedrinhas. Não via ali nada que pudesse ajudar a atravessar aquela fronteira. Fora covarde. E a chave não está ali.

Alguém que supostamente deveria saber o nome daquilo, mas que não conseguia, nem se importava, recordá-lo. Mesmo passando pelo constrangimento de ter de conversar com essa pessoa, espreitando pelo momento ideal em que ela teria de refrescar a memória. Tamanha displicência com a necessidade de fazê-lo (por puro medo de sofrer) a jogava naquele limbo desmemoriado. Auto-imposta, a força da memória é dolorosa (melhor não lembrar, não falar, não tocar, não ver, não nada.)  É um modo de querer que tudo o que não nos bastamos sejam do tamanho do fato que teimamos em viver com o tudo (pouco) que somos. Cobiça de ser o que imaginamos. Um assunto, porém, ela prefere evitar: o improvável do invisível que nos levariam a uma outra humanidade. Hoje seu sonho fora sobre o toque, a carne macia da mão. Mira, antes de tudo, o passado.

Uma sobrevida.

 

 

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Alívio intenso

Seja de um jeito claro e direto, ou obscuro e retorcido o (temporariamente) temperamento frágil desperta tanto amor que se descobre incapaz de se interessar por outras pessoas. Faz sorrir e enternecer e ainda jura entender os sentimentos de afeição pelos meios que fazem com que se pareçam com um ser humano.

Um é a projeção do outro, da voz, do ouvir. Então, é risco o tempo todo…  enquanto digitava no celular as primeiras impressões de um amor desfeito, todos estavam em silêncio a olhar. O som que vinha das roupas aquecia, e fazia desejar. Quando se encontra algo que faz efeito, a gente acaba que coloca isso no coração, na alma. Quando dá certo é um alívio muito intenso.

Com os bolsos vazios de sentidos, os dias (vazios) minimizam a incapacidade de se relacionar com gente viva. Estejam ou não por trás dos aparelhos. Para saber o que pensam do mundo e o que sentem de verdade: carência, frustração, insegurança, desnorteamento, medo e hipersensibilidade (às reações danosas, desconfortáveis e às vezes fatais produzidas pelo sistema imune normal) em relação aos próprios dilemas num resumo de uma realidade melancólica.

Que os aparelhos salvem-nos da solidão.

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Laura Henno, Rainy silence, 2007

 

 

 

Não fazer absolutamente nada

Eu não vou mudar de assunto, mas a compreensão de tudo que está envolvido nos faz perder o fôlego, e possivelmente, suar frio.

O tanto do que está à nossa volta não acontecerá de forma automática, impera a vontade de tomar a iniciativa de enxergar além de alguns conceitos e (auto)convencimentos. As coisas têm uma dimensão muito maior do que parecem. (Em poucos segundos eu serei capaz de ler seus pensamentos!).

Presente nas situações de afeto, a dor facilita se colocar no dualismo do mundo perfeito. Dentro da cabeça as contrações, a falta de fome e sono, euforia, taquicardia, suores e umidades, centros do prazer estimulados, vontade ardente de conexão,  forte atração, admiração, e a vontade de liberar sentimentos ruins seriam formas de não permitir que eles se acumulassem dentro de nós. Só que esse não-acúmulo acontecerá de qualquer jeito.

Não fazer absolutamente nada é melhor do que tentar algum processo catártico, usando o bom e velho respira, respira. Encontrar o meio termo assertivo entre a passividade e a agressividade. A sabedoria roseana, que propunha caminho do meio, o terceiro, a terceira margem, não estava tão longe da verdade afinal. Você e o outro, você e o mundo, esquerda-direita, em cima-embaixo, bom-mau, grande-pequeno, rápido-lento… na realidade, o que está além das palavras ou das ideias é que interessam.

Subterrâneo. 

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Um cigarro entre os dedos

A luz vinha do corredor enquanto ela descansava a cabeça no seu peito.

Eles entenderam cada peça mas não conseguiam vê-las como um todo. Acordou de sono intranquilo e a queda teria ocorrido de qualquer maneira. Falou da lua e da noite e das botas cheias de lama. Não conseguira entender o que eles deveriam fazer ou às vezes até onde eles estavam, ou deveriam estar. Foi-se o tempo que ser beijada por um anjo era um casual encontro de dois mundos, sem trono, sem realezas. Confissões inconfessas, intensamente o que é mais importante não é dito, nunca é dito.

Queria fazer uma música. A diferença é que talvez você não perceba o magnetismo que há entre eles e o controle dos corpos, corpo controlado. Ao sabor da decepção com a reação ‘ela gosta de’ e em seguida ‘você não vai ser a mesma’. Experiência única. Não me peçam para ser mais precisa! Essa proeza só fazia crescer o (des)limite. Deixou crescer a barba em pensamento, comprou um par de óculos para míope e passava as noites espiando o céu estrelado com um cigarro entre os dedos.

Traduzindo em miúdos: a fumaça em loop.

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Ibrahim Mahama

 

O corpo boceja

Deixou as memórias no corpo – apoderou-se astuciosa da sua (c)alma. Aquela noite me tornou, retornou-me. Eu recobrava a vida, para logo perdê-la, desenrolava-se em outra que a atingiu, a adoeceu. Alimentando, assim como eles, de tradições e poderes apodrecidos.  O desperdício de seus tecidos era o que aflorava ao longo do sono, tornando tudo absurdo diante da biologia que rege. Permite e reforça a exigência das curvas sempre exatas e os afagos na cabeça tinham deixado seus sentidos mais agudos e precisos. E conversas baixas depois de ter o corpo perfurado em diversos pontos para a retirada do tumor. Comum, não limpo.

 

Não será um traje que irá impedir, de tão complexo que se desenha o panorama. Enquanto teu corpo boceja, vamos colorir?

 

 

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Os absurdos foram terreno fértil

Propôs no começo da década e era,  aliás é, como você vive no mundo onde eles acreditam ou fazem algo que outros não conseguem fazer. As alegrias e sacrifícios mal disfarçavam o desejo de se diferenciar. Era que seriam melhores que da outra vez, isso simA questão dos abusos não-verbais radiantes e inspiradores estão na verdade extrapolando o denso e raro em seu meio. Sim, deu positivo. A letra do bilhete insinuando que rejeitara todas as preliminares, não raras vezes, de forma errônea. Dizia que poucas têm coragem de tocar e de traçar um caminho mais longo.  (Rejeitou todas as preliminares).

Então como eu posso ter as três estrelas que riscam o céu? A noite, afoga-me. Ele chutou minha bunda, e como então dirigir sem que ele não se sinta ainda pior?  Antes de pensar nos seus efeitos que se mantém pela vida toda,  eu fui pra casa. Foi quando  me diverti transitando o tempo todo entre essa pessoa que foi  notícia tardia para alguns, e aquela menos fragmentada. Mas muito além de mobília exótica, passaram a ter acesso a populares acessórios. Não foi a única de quem me desviei na rua. Tem donos, apanhado de emanações, como diz a poesia de um menino. Eles aparecem à noite e você tem que aprender a viver naquele mundo. E não é isso, é o gênero. 

Depois, ainda comprou uma maça vermelha e saiu com ela nos dentes.

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Inoxidável

Exatamente assim que o descompasso entre mim e as coisas, de seus próprios quereres, improvisa o sentido. Eu queria que fosse, ouviu? Onde a tortura nunca para e às vezes até muda de nome. Reencontro inesperado de dois velhos conhecidos num sentido geral tende a ser um excelente momento para embelezar-se diante do outro. Porque queria que assim fosse intimidade: mais úmida. Como  obter respostas do nada? Adaptados estavam a si mesmos. Criando imagens de tolos, essa não sou eu. Pensa que precisa desativar essa vigilância e ele está falando de suas expectativas. Permitindo-se atos de diversão e espalhava o ar de sua graça naquelas coisas que havia imaginado.

A umidade do pranto cria uma membrana que separa as coisas elevadas, com um certo regalo. Lhe contando coisas se agitava e requisitando opiniões envolve as palavras como um agasalho em forma de rolo – pra embrulhar as mãos para protegê-las do frio. Uma espécie de rede. E pelo tamanho de seu desprendimento e de sua capacidade de engolir o pranto, até de uma forma original, o momento é particularmente propício para o amor.

 

 

Um corpo que não se pode controlar

E tão destemido é nosso corpo quando tocado de uma forma afetiva e real,  se aspectando harmoniosamente alma e pele. Focando menos no que os separa um do outro e mais no beijo com mordida. E quanto mais cuidavam mais se apegavam. O que é isto? Onde é que vão se amar? E vocês tratem de encontrar, ou ela mesma tomará uma providência antes do fim da semana. Mas nem todos queriam assistir àquilo, na casa de Emanuela. Viver daquela forma parecia perfeito, e quando chegar, seja razoável. Ainda há muito a aprender.

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Laços reais e vigorosos

Existem novas possibilidades afetivas a se reforçar posteriormente com uma sobrecarga seletiva de memórias. No sistema viciado que culminou no trabalho dessa conquista: quatro não é um grande número, nem de longe a metade, muito menos a maioria numa forte insegurança que os perfeccionistas têm. Irresistível alegria de não saber, assegurar a própria existência a todo custo. E por prudência toma medidas para que não. A porosidade fundada no isolamento e na inatividade, entre o aborrecimento e a miséria como uma forma de paz, darão espaço a novas forças da natureza capazes de se desfazerem rapidamente. Uma habilidade adquirida.

Não sem uma excelência acadêmica estimulante quando em quantidades excessivas, os frios e borboletas no corpo foram sentidos como prova de que vivia algo real. Durante muito tempo percebeu que não se deixaria enredar se apegando a não-brilhantes acontecimentos. Quis e assim o fez com grande carga de emoção.  E novos laços ricos em tramas e criações estéticas explodiram igual cogumelo (o que foi considerado uma raridade – mesmo dez anos depois).

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Toco a sua boca com um pensamento

Como se fosse pela primeira vez, sorria debaixo daquele véu que torna todas as coisas rendadas. Onde que os corpos abandonaram as almofadas, os lençóis, os beijos e se perduraram seres em estado de fraqueza e pouca nitidez. E que de pé, sua mão e sua boca entreabrissem e basta-lhe fechar os olhos para desejar salivas. Desfazer-se de tudo mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nos seus ocos, onde um ar pesado vai e vem, levantando levemente aquele tecido que já se manchara de batom (rubi) de tão próximo que estava do seu rosto. A voz, a voz ficava dentro de nós.

O véu aprisionava, protegia, e ali ousava desejar, pensar, sentir-se e quando tinha ímpetos, tocar-se. Tudo com um perfume antigo e um grande silêncio. O fôlego ainda juvenil, um pouco às cegas, seguindo o andamento da narrativa. Sem isso nunca iria saber o desfecho. A certeza de que aquele amor exacerbado não cabia em si, em todos cantos há aquele desespero também. Mas soou mais úmido que antes, as palavras queriam esgotar o excesso. Um brinde à amizade (im)possível.

O véu e ela própria seguiam pelo corredor, com as mãos postas para receber o alimento sagrado. O ápice de  gozo silencioso que é puro corpo, pura solidez.

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Daido Moriyama

Aceno

De fato, ela tinha razão. Esse seu amigo a pegou pela mão e ali percebeu que talvez nunca sentiria tanto tesão por outro toque. Seguia por aquele corredor escuro e gélido acompanhada (pela primeira vez) e como uma forma de sensibilizar a pele uma ligeira umidade se concentrou na sua nuca, e ali desejou que suas mãos ainda estivessem secas e não-trêmulas. Suspira, enquanto sente seu corpo ficando erógeno da cabeça aos pés, e na tentativa de prolongar o corredor e os arrepios, anda devagar e para como se dissesse: chegou a nossa hora. Ela não queria nada mais que isso. Tudo parecia parado demais, ausente. E essa lisura da pele lhe dizia mais uma vez que estava mortalmente apaixonada. Com um pequeno solavanco o casal prossegue a caminhada, agora ritmada. O corredor já estava acabando e via a distância a ser percorrida (juntos) inexistir. Aperta levemente os dedos agarrando aquela palma de mão sentindo um bem-estar inusitado que apontava para o desfecho. Um minúsculo aceno. Pega o espelho na bolsa, e tem medo de não encontrar a mesma cara de antes.

 

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Precisamos dormir

No sentido de lhe conferir lucidezum ornamento para uma vida confortável, para trabalhar e utilizar o tempo (fonte dos bons momentos), decide. Disse que nunca lhe deixaria: uma mistura de surpresa e desaprovação…  Não parece ser daquelas afirmações que levam a um futuro brilhante. Já que não podem ter uma vida tranquila aqui, conversas ficaram mais profundas e que não se torne a felicidade um jargão inútil. Um período levemente crítico que colidiu com outro e o sucesso está fadado a apenas algumas palavras, algumas músicas. Um sentimento de empatia maior em relação aos outros pode ser propício e salvador, sem uma ação que gere preconceitos. Alguns hábitos saudáveis hão de ser cultivados. O modo como vivem os faz foras-da-lei.

Há algo muito pessoal sobre demonstrar afeto.

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Adam Amengual, Homies (LA Gang members)

 

Requintados torturadores

Ainda em ânimo para mudar a sua vida que parece fluir descontroladamente. Encontrar sentido sobre o que se passa mas busca o prazer carnal (em se amordaçar) onde mais frequentemente lhe encanta. Demonstraria, se lhe fosse dada a palavra, o quanto há de mortal em vários dos seus gestos e pensamentos de deusa. Sabe  que podem ser perniciosas as perspectivas exageradas e dramáticas nas famílias e nas vizinhanças, que  agem com suprema covardia diante da (falta alheia) (falta?). Gostava de usar um pijama estampado idêntico ao descrito por ele. O cuidado de se abrir à possibilidade de muita frustração passa por essa situação de desconforto e a estabilidade almejada se esvai.  Exames iniciais mostram que o provável é que esses números quase circenses sejam apenas a ponta do iceberg. (E pensei que voltaria) iluminando e clarificando as belezas. Nada de pensar, nada de imaginar são reações paradoxais às violências geradas de pequenos gestos (contra elas)  transmitidos ( de alto nível de toxidade). O fato é que reescrito ou redistribuído não mudará muito o teor, e a pena viver o lado de alguém sem número,  assumindo o outro em silêncio é arrebatador. Não é preciso ficar infeliz para semprepor outro lado, o aceite legítimo da sociedade dos hábitos contraditórios é muito normal. Nesses motivos será possível contar com o outro? (Convidada a prestar esclarecimentos).

 

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O quarto que não conheci

Que as horas correm tanto mais rápidas quanto mais agradáveis são, e é bastante provável que se queira dar um pouco de beleza ao ambiente, na sua casa (ou quarto), que são um só.  Os detalhes fazem a presença e um fenômeno às avessas se faz sentir tanto mais demorado quanto mais ausente são as lembranças. Porque o gozo não é positivo, mas sim a dor, que a beleza traz. Uma dificuldade extrema em reconhecer isso,  e que cessem os movimentos a fim de fazer escolhas mais racionais.

As escolhas a partir de caminhos aparentemente mais fáceis,  por impulsos emocionais levianos, gritam:  aceite! A dúvida!  Necessidade de algo que liberte, que permita que se pense melhor sobre tudo. Detalhes, pele, movimento, janelas em quadradinhos, riscos no braço, cores, azuis e vermelhos. Quase se escuta a respiração. E quase se perde o ar com o que ouve. ‘Não se deixe guiar por impulsos emocionais e dê tempo ao tempo’.

Este é o momento certo para harmonizar seu próprio quarto-corpo, e a coisa toda começa com você se tornando um lugar mais bonito, pacífico, tranqüilo. Simplesmente mudando a disposição dos móveis, abrindo a janela. Rompendo portas. Os prazeres das pequenas coisas. Ficar em casa assistindo a um bom filme, lendo um bom livro e o desejo de cultivar um bom relacionamento e uma boa história com alguém.

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Fogo fátuo

Apoderou-se aos poucos do espaço. O que antes dormia (sempre um desejo de tentar dormir horas seguidas) encolhida, forçando a abrir as pernas e os braços. Fazia sempre como um exercício de yoga, tensionar e relaxar, se permitir e, mesmo que dentro de um aprendizado, expandir.

Sempre tão contida, tão mínima, voz baixa, gestos curtos, roupas escuras, sempre à procura do silêncio.

Vicente lhe dizia sempre da sua beleza, mas nunca sentira isso de fato. Algo contido, doído dentro. Aquele limiar do inativo para o prestes a explodir, o que nunca aconteceu, sempre na lentidão. A brasa, o suspiro. Desejara a solidão para que pegasse fogo. Um dos exercícios resumia a se olhar nua no espelho – como era difícil olhar as pernas, braços, ventre, seios (um bem maior que o outro).

Um dia encarou-se olhos nos olhos. Frio, esse frio que não passa.

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O ar e a batida

Sorri, enquanto o ônibus sacoleja lembrando daquela noite. Outra meta foi estabelecida e percebeu que foi capaz. Desceu no ponto perto da sua casa, sentindo ânsia e palpitações e raiva, por um lado, e uma firmeza que só um objetivo de sobrevivência estabelecido proporcionava. Subiu as escadas e tirou as sandálias cheias de poeira vermelha, e limpou os pés (pareciam de crianças quando brincam de havaianas na terra) no tanque.

Aquela esquina se tornou um ponto a ser ultrapassado, e quase, quase conseguira. Muitas vezes o quase a enraivecia, hoje ela percebia no quase uma vantagem. Porque sabia que não desistiria. Quando elas próprias não foram explicadas de forma satisfatória, os ataques de pânico não são uma boa representação de si.

Relativiza a culpa da escravidão, ou quase isso, a que se submeteu, por inconsciência, por escolha, por falta de alternativas. Não é isso que deseja pra si, não é aí que quer residir.

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Deslocada do sentido (porque ainda sou machista)

No seio de uma vertente não tão alternativa falara muito, mas pouco claramente, porque era impedida (por si mesma) pelo medo da fúria, da resposta, do silêncio. Porque achara que falar a verdade incomodaria demais. Falou (pouco) e voltou atrás mil vezes, sempre na opção delete, suspirar, dois passos atrás. Pra não ferir o ego alheio, pra não ser desamada (porque falar traria desamor?). Daí vai ficando algumas amizades e amores na névoa, em que tudo acontece mas ninguém deixa claro o que acontece. Passara a usar os sobrenomes, ao invés de dar os nomes, era uma outra muito pouco conhecida forma de se proteger (de quê, afinal?) que merecem todo o respeito (sic). Toda sorte de inúmeros absurdos em sua biografia: ser sempre simpática, útil, amiga, amélia, amante, prestativa e bem-humorada para “compensar”.

A sua face amorosa está sujeita a abusos muito mais constantemente do que vai dizer sua consciência. A passividade que acontecera (que fere) desejara que isso não existisse mais, mas as consequências por tentar ter sido franca quanto (aos rótulos) são insuportáveis. Todos direcionados a si mesma. As mulheres estariam sempre na linha do ‘tinha que’. Entendera que qualquer mulher que fuja do padrão do mito da beleza e do comportamento ideal o faz de maneira caricatural e estereotipada aos olhos feridos. Sem pensar a respeito disso iria ser engolida. Uma equação difícil de fechar. O voltar atrás não é sempre a melhor solução. Nem a solidão tão pouco. Essa sensação de burrice não passa.

É cansativo, mas se não for assim, fica mais difícil ainda.

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Disposição afetiva

Pela primeira vez, a maior intensidade, este momento. Definir isso é importante e conversas incomodariam! Ouvir coisas seria melhor se se tornassem mais proveitosas, afinal. O entendimento muitas vezes, provavelmente, é ter idéias mais harmoniosas e outras vezes… coisas que nem são, senão em outros momentos, prioritárias.  Já é considerado o maior movimento aquele que você se volta tanto para si que consegue caminhar sozinho. Pode ser desfavorável, dirão. E, provavelmente, estarão certos. O curtir a si mesmo (mesmo que em fossa) forma uma harmoniosa jogada e alguns elogios a respeito de suas melhores performances virão sinceras.  Diz respeito a que você e sua sensibilidade estão voltados.

‘precisa melhorar’, ‘talvez se você tomar consciência das coisas que estarão salientando suas virtudes’, ‘tudo está na sua mente’, ‘saia para andar de skate se aí não fosse tão ruim’ ‘e falando mais ao sair de uma condição de válvula de escape’, ‘sim, funciona’,  ‘estarão em busca de seus próprios desatinos’, ‘delas se lembrando, das coisas que se reencontrarão em poucos dias’, ‘quem sabe perceberá que as outras pessoas…’, ‘falta aparar’, ‘que haja uma conciliação se tais entendimentos envolverem questões difíceis’, ‘pedem a companhia da fala?’, ‘as coisas que sente, naturalmente fazem sentido’,  ‘…’

 

Pequenos passeios agradáveis, com capacidade de coagular carências.

 

 

 

 

O vento assobiava

A causa desses enganos tem a ver com palavras, e o eixo que está fora do prumo se torna vida – suavemente desse desequilíbrio está fluindo uma pálida luz. Como um instrumento para examinarmos expressões e olhares para tudo com abertura significam a mesma coisa e desde ponto de vista dualista é o momento da mais alta satisfação. Essa matéria está dentro da gota de orvalho e como este momento talvez possa ser mais um mal entendido de outras tantas coisas. Ninguém sabe o que significa o que fazemos conosco –  próximas e distantes. Disse durante os primeiros encontros dessa amorosidade mútua com palavras próximas a navalhas cegas. Palavras agidas são um lugar livre para todas.

Podemos pensar sobre este saquinho de pele realmente, na imensidão, determinando não apenas este movimento como resultado da percepção mais ácidas das coisas, mas também a serem preferências de violência em nós. Então ao mesmo tempo teremos conhecimento intelectual. O olhar profundamente domina.

E assobia, ou assovia. Tanto faz.

 

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Luigi Ghirri, Lucerna, 1973

 

Não toquem em nada

Na perfeição que encontramos na reparação e no auto-perdão, na renúncia do nosso orgulho,  talvez possamos existir e ampliar a experiência do afeto pelo outro… eliminar a culpa e a angústia que sentimos quando ao agirmos fora do padrão, amamos. Alucina. A moral  de uma atitude nossa que de um afeto tão grande (uma vontade boba de mexer nos seus cabelos) gerado assim que sentia e ouvia perfeitamente o ruído do carinho nas suas costas. Naquele instante (não) em sua mente (paira no ar) sente que deve deixá-la ir (a boa do afeto compartilhado) da mesma forma que vieram, sem tocá-la, compará-la ou julgá-la.

Conseguimos renunciar às desarmonias e junto e dentro compartilhar uma porção de coisas que produzimos em nós mesmos, pela nossa vida ou morte e iluminação e desilusões e incapacidades e desentendimentos. Pode ocorrer por deslocamento (de sentimentos e emoções) ou por projeção (de desejos). Compartilhar muito. E teve vinho e cigarrinho.

Unir-se às pessoas certas.

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Jan Groover

 

Sobreposição dos tempos

Admirava capacidade de alguns de acumular energia quando submetidos ao estresse.  A procura por reviver o passado talvez de forma diferente persegue, em um apego incontrolável. Minhas crenças nesse momento não importam, embora a resposta cortante tenha marcado. Agiu de uma maneira muito simplista para reduzir a questão.

Há profundas aspirações que temos que podem nutrir nossa vida ou envenená-la. Numa forma quase natural de ser refém de si mesmo – uma força cega numa motivação ampla e justa é comum. Duas ou três posturas altamente semelhantes e ao mesmo tempo díspares. Podemos fazer muito mais do que somente usar as ferramentas que conhecemos (cozinhar à distância).

Um nó imaginário em torno do seu pescoço ajuda a fornecer insights de vida. (Quando isso a fez entender  que o fato deixou de fazer diferença?) Por que tanto apego à existência se sequer sabemos o que fazer com nossas vidas?

Acho que vou procurar um bom vinil pra escutar.

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