Sobre amores

Talvez dez segundos se passaram antes que eu observe os dois irmãos por trás da cabine, segurando o riso e sorrisos como se eles guardassem um grande mistério. Me viram e rapidamente desviaram o olhar celebrando a ciência e seus segredos guardados a quatro mãos. 

A Lua intensificando sentimentos, pensamentos e a intuição (alegria, abundância e amor). Murchei com a mansidão do dia. Ao lado uma velhinha ganhou uma flor para colocar no cabelo. Ela ria, pensava bobagens, certamente. Nós usamos as histórias de nossas vidas – às vezes até mais profundamente, através da membrana mais interna, física mesmo, que te separa do mundo.

Faziam anos que não o via, a gente se gosta né, o carinho transborda. Sentem-se como sempre. Você está linda! Sempre assim que começavam, aquela prosa solta, boa. Mas eu envelheci. Mas isso não é ruim, é a pele que é diferente na forma como estamos com nossos próprios ossos. É bom. Olho para ele e o admiro, sempre o admirei. Uma fortaleza. 

Você é a aquela pessoa que se pode falar sobre a sombra de uma nuvem, sobre a canção de um pensamento, sobre arte, sobre as micropolíticas nossas de todo dia. Mas conversamos mesmo sobre a pele – esticada, sensível, enlouquecida. Os amores estão longe, uma pena, só mais uns dias. E a Madame nos calou. Estávamos diferentes, estávamos bem. E bonitos até não poder mais. 

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À margem

A imagem de uma mulher domando um leão pendurada na parede destoava. Provável ter sido a última aquisição para aquele amontoado de memórias, de tão nova que estava. Tudo dentro de seu círculo começa a transbordar alheio àquela solidão escolhida ou imposta, melhor seria tirar os pés do chão. Não vai mais se contentar com sua vida atual apesar da onda de introspecção que isso lhe trará. Tem 47 anos, rugas no rosto e nas mãos e ainda tinha esperança de que haveria melhora. Deitar debaixo de uma árvore e não saber se irá se levantar amanhã, tomar uma caneca de café com leite e não saber quando será a próxima refeição, dores muito fortes que já experimentara nas carnes. Tem que haver uma fase que permite estabelecer quem você realmente é e eu não me sinto como se eu estivesse lá ainda. O básico, sabe, o primeiro de tudo, é sobreviver. Depois a gente pensa na vida, né, nas curvas da alma. Mas a fome e a fraqueza embaçam a transcendência da gente. Às vezes queria ficar em casa mesmo, assistir televisão. Queria tomar uísque de manhã, como nas novelas. Até muito recentemente eu não senti que eu tinha a confiança necessária para estar em algum lugar totalmente diferente, mas agora sinto-me um pouco mais livre. Me lembro de estar realmente incerto sobre se eu deveria mudar. Eu fiz uma coleção de tudo o que foi preto-e-branco na minha vida, as cores são só para alguns. Uma mulher usa um chapéu na cabeça – exatamente o mesmo usado pelo Mago daquela revista. É calma. Ela usa um véu – talvez ela viva fora do mundo, aprendendo através dos livros e não da experiência.

Há diálogos a serem realizados enquanto as coisas se transformam em algo sólido. Meu sonho é viver mais um dia.

 

na parede

Esta é a mensagem desta carta

(Um grande vento de otimismo vai soprar na sua vida em breve). Alguém escreveu que era um trabalho inédito, na verdade, estava em uma posição extremamente positiva quanto ao futuro, embora inédito não era. Mas também, colocado daquela forma, calma e rasante, recusando a exploração da energia explosiva e força vital, transferidos para o espaço da arte, era como acordar no meio da noite. No que dizia respeito à sua criatividade funcionava melhor. Seu estilo de vida vai evoluir no sentido de criar mais espaço para o silêncio, atividades de lazer e tempo para viver. Os próprios intervalos de verão, milagrosamente perfeitos, seriam em piqueniques com toalha xadrez vermelha. (Permitir que gerações distintas percorram as memórias de Pedro). Lembranças do mar que vão desde o calor de uma noite para dias ainda mais quentes e vaporosos – mais tipicamente esmagados em um corpo que apesar dos suores permanecia intacto. Na bagagem alguns bons sanduíches de presunto, guaraná e bananas. Estava com fome mas já estavam quase lá. Seria um registro de memórias, principalmente de outros povos (mesmo que imaginados) e, ocasionalmente, as suas próprias. Queria um vestido de fios de pérolas penduradas costurado ao corpo, literalmente.

De uma forma ou de outra, você irá estudar e irá aprender. Irá absorver o que os outros fizeram antes de ti (a sabedoria das pessoas mais velhas, dos seus pais e outras pessoas idosas). Uma fêmea às voltas com frescos, ainda que sangrando e inflamando punções na alma, presos sob a pele dos anéis, sugeria um consentimento eufórico. Sua vida vai se tornar mais estável e positiva em relação ao seu comportamento, vai ser dinâmico e não terá perturbações importantes, o que lhe dará liberdade para implementar seus planos a longo prazo.

Você não vai sentir qualquer necessidade especial de fugir, a vida real não é difícil pra você.

Areia, pés descalços, umidade, textura. Alegria dos lanches, alegria da companhia, alegria da vida. Alegria da língua, dos ventos e cheiros, é uma forma de retiro. Não podemos mais acreditar, mas as necessidades e anseios que nos fizeram compõem essas histórias de ir e voltar… Estamos sós, é violento. Ansiamos por beleza, sabedoria e propósito. Queremos viver para algo mais do que apenas nós mesmos.

É o lugar perto do coração.

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A sobrevivência não é uma habilidade acadêmica

Quem viu, as granadas que estraçalharam dentro do peito, viu que ninguém notou o papel da discordância dentro das vidas sem examinar nossas muitas diferenças.

O que isto mostra sobre a visão é triste e não têm nada a dizer sobre existencialismo.

Pode lembrar amargamente das palavras que lhe foram roubadas ainda dentro da boca.

Elas ganham um significado que nunca tiveram.  Apenas os perímetros mais estreitos de mudança são possíveis e admissíveis. Promover a mera tolerância de diferença, procurar novos meios de ser no mundo pode gerar a coragem e o sustento para agir onde não existem alvarás.

Mas ela não era daquele jeito, restam os  conflitos na esfera do individual. Até ficar de um jeito que não era, não era assim. É do ser humano, mesmo não fazendo sentido. As mortes vêm e vão, que a luz mais bonita do ano é a do outono, repete para si como uma ladainha enquanto foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapato cheias de palavras.

Todas continuarão guardadas – sobre o erótico, sobre cultura, feminismo, silêncio. O duro é não valer o que pensava. Exaspera em pensar que as condições que levaram ao desaparecimento por certo levarão outras ao mesmo fim.

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