Bocadinhos

‘Você merece alguém que te olhe com tamanha ternura que não te deixe dúvidas.’ Uma estação de trem no Japão ainda funciona para uma única passageira. Ternura tanta que sente que é impossível  alcançar sem as sutilezas.

Perguntando-se sobre como você poderia superar esta situação com a menor quantidade de mágoa, mas sua hesitação apenas prolongou o inevitável. Nossa anatomia não garante nosso modo de nos posicionar na causalidade. Há várias maneiras de amar. Haveria de haver. Há várias possibilidades de desejar, desejaria haver. Há algo muito complicado ou muito impulsivo ou talvez até muito errado com essa conexão, mas você não vê isso no seu fervor em conseguir fazê-lo funcionar. Poderia até significar que um ou outro de vocês tem um problema para trabalhar antes de estar pronto para um compromisso de longo prazo, seja entre eles ou em geral. Não ignore o que outras pessoas estão dizendo apenas porque não é o que você quer ouvir.

A pulsão é humana. E se a gente não descobre o que fazer com sua existência, se o instinto de sobrevivência não for corrompido… concede um saber com suas sobrevivências. A sobrevivência física, a sobrevivência do seu próprio desejo. Um saber o que fazer com seu corpo e com sua existência.

É como se vivêssemos a nos programarmos. E aí, ao longo da vida, vamos nos reprogramando.

Uma bifurcação nessa linha que o nosso modo de lidar com nosso desamparo fundamental e grande imaturidade. E para que a gente possa se tornar gente, a gente, as gentes, todas as gentes, queremos é nos alojar na subjetividade de alguém(éns).

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Mas não se esqueça de olhar

Há amor, respeito, igualdade e unidade aqui. A voz ficava dentro de nós: I’m broken.

Não há nada a dizer. Muitas vezes, durante alguma meditação os pensamentos que insistem são inteiramente banais – o freio de uma calçada da infância, luz de cinco e meia da tarde caindo em um prédio familiar, um buraco na parede, um arame esquecido amarrado no poste – mas em sua aparente forma banal,  intimam a existência do eu anterior que habitara esses momentos. Um eu que parece tão pouco estranho e mesmo assim tão remoto. Ainda um para o qual estou sempre atrapalhada por essa lembrança meio consciente. Ele trabalha em isolamento – não como uma punição, mas para que ele possa se concentrar no que precisa ser feito.

Acreditava que grande parte daquela estrutura, ainda que invisível, era imutável. Com uma taça nas mãos, circulei pelo ambiente à procura de micro paisagens. E que de pé, sua mão e sua boca entreabrissem e basta-lhe fechar os olhos para desejar salivas. Exige integridade e previsão por você, que poderia te paralisar, é claro; mas se a questão não mora na mente, então é simplesmente condenada à eterna juventude, que é sinônimo de corrupção. Inspira uma nova estética da ciência lírica.

A memória, de fato, é  A memória. Está bem aqui, aponta a testa bem no meio dos olhos com o dedo indicador, na cabeça, mas pode sair, abandonar, deixá-la para trás, desaparecer. Que qualquer coisa – absolutamente qualquer coisa – poderia acontecer, e você pode garantir que algo aconteça. Memória, um santuário de infinita paciência.

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Brecha

A gente costumava colocar uma vassoura atrás da porta da cozinha com o pelo pra cima, para visita ir embora rápido. 

Alguns viajaram para terras distantes, enquanto outros ficaram em casa. Alguns instrumentos acondicionados, algum mantimento. Para outros O assunto era sobre a largura da vida, desde as alturas do céu e as profundezas do inferno até mistérios amorosos, entendimentos sagrados e admiração mútua transcendente. Esses, intencional ou involuntariamente, como o sol da manhã brilhando através de vitrais, se iluminam.

Às vezes, posso andar por quilômetros imaginando meus pés através da água e do fogo. Um sentimento bonito, e quando eu lembro de você se movendo seus braços no ar, como que fazendo desenhos invisíveis, eu não consigo pensar em linha reta. E estou silenciada no momento. Eu acho que é como uma coisa impregnada na pele. Se soubesse o extraordinário que é,  equilíbrio de confiança e vulnerabilidade que a ação pede…  Eu venho de uma época em que: ‘Tudo pode desmoronar agora, amanhã’. 

Se acumulam os buracos que uma goteira provoca no piso. Estamos apenas preocupados quando tudo vai desmoronar, mas na verdade eu acho, bem, talvez não seja o bastante. Por um longo tempo, talvez eu tenha feito esse pouco.
Venha tocar o ar com seus dedos, e por favor, troque as atmosferas aqui.
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Pode ser realmente saudável ouvir não às vezes

Eu acho que você sabe quando está jogando com segurança, quando está estagnando e quando está crescendo. Pra quem se dar e a vida a sonhar. Provavelmente é uma coisa constante – e um equilíbrio complicado.

Ninguém percebe uma presença tão pequena… ainda que esteja aqui na neve, nas brancas e frias ideias. Talvez não ultrapassar alguns limites seja bom ou correrá o risco de ignorar momentos férteis, que podem chegar em momentos  de humor ou crescer em alguns arranjos propositais. Provavelmente tendem a escrever melodias cada vez mais difíceis para se cantar.

Eu me tornei, o que é um sentimento interessante quando você envelhece e você percebe que não há ninguém que você possa apontar e abraçar resignada. Você realmente se tornou alguma pessoa vivendo em um mundo de abstração racionalizada que tem pouca relação ou harmonia com os grandes ritmos meio que mágicos da vida. Tente lidar com essa espécie de derrota – disse. 

Existe uma contradição em querer estar perfeitamente seguro em um universo cuja natureza é a momentaneidade e a fluidez.

Reter a respiração é perder o fôlego.

 

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Mesmo assim, alguma coisa estava acontecendo lá fora.

Elas estão cientes de todas as malditas coisas.

Uma mulher que estava distanciada do corpo, da beleza, da própria vida sentia que o clima do verão era um desconforto extremo. Apenas aquele sentimento geral de não-justiça. As pessoas estavam inseguras e infelizes. E assim estariam ainda por um tempo. Não parece justo.

Eles se encontraram na frente de um prédio e olharam um para o outro e sacudiram a cabeça enquanto digitavam: cheguei/eu tb e se aproximaram num abraço. Olha, não consigo me sentir conectado à humanidade o tempo todo, disse baixinho. É um prazer raro. Eles fizeram ou disseram algo excelente e amoroso. O horrível perturba o excelente encontro; não podemos assistir ou ouvir ou ler o excelente sem lembrar do horrível.

Mas segure-se por um minutinho: quem é esse “nós” que sempre está acontecendo de alguma maneira? Nós somos um escape. Nós somos baratos. Nós somos corruptos. Somos criativos.  Mas para deixar seu foco inteiro, seus músculos se apertarem ao ritmo do mundo ao seu redor, sua respiração acelerar tanto que combina com a velocidade ultramoderna de uma droga percorrendo sua corrente sanguínea, sem trema, precisamos do afeto.

Ironicamente, os tempos são mais rápidos do que se poderia imaginar. A chave para diminuir a velocidade pode não ser a eliminação da velocidade, mas aceitar a desordem.

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Coágulo

Enquanto eu me deito nos limites de algumas alucinações e as rachaduras que eu considerei no passado ainda coçam as plantas dos pés, eu me pergunto se desperdicei o seu tempo…  Eu percebi que eu não tinha que temer coisas que eu gostava. Não precisava de permissão para esse gostar.

Como eles escaparam de seus olhos, como eu os tirei de sua mente, enquanto eu te deito nos meus frios.

Sim, está frio esta noite e sim, a sensação não é boa, uma espécie estranha em lugar nenhum. Então, gradualmente, algo sai da luz. Existem impulsos, formas semi-vistas, cores, retas, gradeados, contrapontos. Coisas que provavelmente ficaram em mim desde décadas atrás, bem como, mais recentemente. Todas as coisas no mundo passando por você como um filtro

Os ossos, o pescoço, a pele desconfortável.  Sim, a sensação não está correta, então eu vou segurar-me justa e precisa nos meus próprios pulsos. Eu ouço os sons mais estranhos bem abaixo desses buracos no chão. Todo esse tempo, sempre pensei que seria sua mão perto. Mas não vou piscar e sigo uma alma crescida púrpura e azul.

Cada pedrinha daquele barro úmido cheia de noite, em si mesma, forma um mundo. Mas eu encontrei algo em você.

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É assim que eu te soletro

Branco. E tão-somente a ele, o que ele deve saber. Eu queria te dizer no que fiquei pensando para passar a dor. Apenas para fugir e poder alguma excelência. Por mais que tente, todos os dias, nós estamos nos vestindo para sobreviver. Ironicamente, são sintomas de gênios. 

Domingo, às dez, mais um. Nos encontramos na garagem, está na hora de ir embora, leve o que conseguir carregar. Mãos à mostra, você também, palmas para cima. Saber alguma coisa, algum suspiro, isso já adiantaria. Alguma notícia da companhia de gás? Tenho um agora. Com muita água. Eu vou cuidar de você.

Ela também disse que não gostava daquela banda. Ali próximo à mesa, perto da janela. É a pressão do ar, causada pela explosão, e depois, aquele flash amarelo, e eu… Não havia disputa em casa. Não haveria de ter.

Nós podemos ir para casa agora? Nem todos precisam saber alguma coisa.

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