Eu continuaria sem medo

Sei que você nunca esperaria por uma ligação minha e o céu testará nossa paciência de todas as formas possíveis. Talvez você devesse dar mais tempo para que a história tenha a chance de se mostrar inteira. Um pouco de descanso em meio a tanta exaustão – um pouco de afeição. O que você sente e nomeia como pressentimento pode ser somente medo ou quem sabe podem ser os contratempos domésticos que nos tiram a paciência? O velho vilão está lá. Pegue algumas coisas e venha pra cá, te preparo uma cerveja e um petisco. É o momento para repousar sobre as escolhas que você fez ao longo do caminho, pois a lua é nova.

É um momento esquizofrênico, novos lugares. Todos os lugares.

Com essa sensação de a todo instante travar batalhas como poderia deslizar por entre as moléculas sem ser absorvida ou aniquilada? É preciso tornar-se sutil, rápida. Melhor ainda, útil. Apreciar.

Sobre o que você sonhou na noite passada, pode me contar?

Eu vi você naquele antigo mosteiro – perto da água. Havia muitos brancos, havia monges, homens chineses. Você estava nesse grupo com todas essas pessoas caminhando com as mãos dobradas em frente ao peito. Se afastou depois de algum tempo e mergulhou no lago. Havia lua, mas ainda era dia. Bonito você. O sonho era em preto e branco e muito se assemelhava às imagens dos filmes de Fellini – o humor e a sexualidade livre, as referências, os personagens superiores e as narrativas que ele emprega em seu trabalho, o antigo e o novo – coisas que sempre percebi em ti. Abracei-te.

E eu quis ver cores explosivas porque se destacavam desse mundo de escuridão e pedaços de carnes. E elas falam sobre mudanças, excitação, luz.

“Cola comigo que você brilha, como a lua” sorri e rebola um pouquinho, faceiro. Tenta apenas ser irreverente e assim consegue me embalar. Na verdade, acho que sua voz melhorou agora (risos). Foda-se tudo e vamos fazer arte.

 

IMG_20170601_095324065.jpg

Olho no olho

O tempo é muitas vezes essencial e geralmente vale a pena esperar um pouco para ver como se pode lidar com a liberdade e a nudez do próprio corpo. As indiferenças flutuam em um oceano de vontades (a ver). Você lidou com você mesmo e as indiferenças dos aparelhamentos aumenta o dilema que se pode enfrentar nessa vida de ‘meudeus’. Café é muitas vezes a solução, o estar junto também. Em volta da mesa, sem saber como agir e o que dizer, dá pequenas mordidas como se alegrias fossem. 

O esgotamento desmorona possibilidades.

Ali perto do portão do jardim, perto de pimenteiras, orquídeas, couves, manjericão e hortelãs, seu medo de que os sentidos todos estejam congelados e infelizes escorre pelos poros. Pés na terra e água nos olhos, o impermeável, blindado, entupido corpo está fechado e quer queimar, queimar agora, respirar fogo. Apenas fogo. Que me livre de todo o mal que eu fiz para mim. Em segredo, canto para ninguém (desafinada que sou) e entrego-me às armas tão abertas, armas que conheço tão bem.

Se conseguisse manter o juízo sobre si e se recusasse a ter os membros engolidos pela brisa que arrepia as costas, talvez conseguisse alguma sobrevida. As pálpebras não estão cerradas, o pescoço está rígido, as mãos, fechadas, o ouvido entupido. Neblina de corpos, neblina nos encontros. Quando conseguir sair da outra extremidade dessa névoa e olhar pra trás, com aquelas silhuetas e esboços que já não fazem mais sentido, poderemos quiçá experimentar um bom bocado de soltura e remelexos. 

A resistência pode ser a chave para lidar agora, não tem certeza. Talvez o silenciar-se um pouco (o que exige um esforço sobre-humano de si). Parece precisar se mudar para um ambiente quase estéril, quente e seco. Prefere que a repetição se anule que provoque outras realidades a serem desvendadas. 

Abre mão de algumas certezas, se agarra a outras. Bebe vinho e, mesmo seca, consegue se encharcar.

Sem título-1.jpg

 

É o que não está lá

Quais afetos estão ali? Enquanto você me excita, me levanta, me exponho a ti. Meu corpo é uma racionalidade, uma forma de como se pode estar no mundo para além dos dinheiros e empregos. É uma era da violência insensata essa que vivemos. E como a mais doce taça que eu dividiria com você, ergo um grito coletivo de liberdade.

O que você vai fazer quando as coisas correrem mal? O que você vai fazer quando tudo se quebrar?  O que você vai fazer quando o Amor queimar? O que você vai fazer quando as chamas subirem? 

É um confrontar-se com uma situação de desabamento da possibilidade de respostas fáceis. O que você vai levar para que se faça um sonho brotar, apesar da tempestade que não se acalma, é o que inquieta. Permaneça, repete. Permaneça. Oh, você me levanta até o topo e só aí então, eu posso ver que as luzes brilham e os sentimentos vêm.

Mas se isso não significa nada, quem teria o toque para acalmar a tempestade? São passíveis de vários usos. Talvez daí venha a importância de que ao menos um seja a coragem, com uma boa maturação para quem possa estar desamparado, uma diferença atenta. Lidar com afetos que não se controla, corpos em errância. Corpo fissurado, pequenos abismos na pele onde moram as possibilidades de reação e quiçá um pouco criatividade nessa vida.

Na imagem que está na parede do quarto, vemos um homem e uma mulher que se olham demoradamente e cada um tem um copo na mão esquerda. Nuvens cercam os dois e o tempo pode estar nos dias ou horas e, desamparados de si, estão a fazer brindes.

Longo alcance.

 

blog

Tempos verbais

Por favor, não se preocupe. Apenas estou imaginando encontros em botecos distantes, cervejas em conta, comida com gosto de casa. Que eu estou me preparando para dar-lhe uma beliscada sobre a compaixão, quiçá uma ou duas linhas sobre as chamadas virtudes. É uma questão de escolha como se faz seu o trabalho e de alguma forma conseguir superar o que se diz como sendo o bom comportamento. Já se sabe o que é ser profunda e literalmente auto-centrado a ponto de ver e interpretar tudo através dessa lente do eu.

Mas é praticamente o mesmo para todos nós.

É difícil permanecer alerta e atenta, semear novas sementes além do que se sabe sobre ficar hipnotizada pelo monólogo constante dentro de sua própria cabeça (pode estar acontecendo agora). Para além das artes liberais que dizem sobre como pensar, está ali um atalho para uma ideia muito mais profunda, talvez algum controle sobre como e o que você pensa. Estar consciente o suficiente para escolher no que se presta atenção e construir algum significado da experiência.

Isto, como muitos clichês, tão manco e desinteressante na superfície, na verdade expressa uma assustadora verdade.

Lá naquele boteco se ouvia a história de como eles atiraram no Mestre Terrível. E a verdade é que a maioria desses moços estão mortos muito antes de puxarem o gatilho. Cachaça, vida que segue, pururuca, milho, mais cachaça. Falas entrecortadas na esquina, Ronnie Von na máquina, risadas cheias de batons borrados.

(E eu afirmo que isso é o que o valor real, não-merda sendo merda, em uma suposição do ser nobre: ​​como passar por sua vida adulta confortável, próspera, respeitável, inconsciente, um bom escravo a bem dizer.)

Para si a forma natural é a de ser única, completamente, imperialmente sozinha dia após dia. Espelhos manchados, urina forte no chão naquela sensação de ali não pertencer. Era mais um banheiro com mulheres peladas nas paredes. Sofre por isso toda vez e mais uma vez.

tempos.jpg

By a pale light

Minha aldeia é (ou era) uma importante estação para a memória. 

Não há mais ervas para colher. Deteve-se a contar para si mesmo verdades novas acerca do que seria a parte mais importante da sua vida. E para que nada se movesse ao seu redor, ela sonhou ser um corpo morto, noite de quase-lua-cheia que era. De um certo tipo de relação com a escrita, com a técnica, com o corpo, com o desejo, surge uma nova atmosfera espiritual. Não tão facilmente explicável…  mas nunca foi levada a uma presença calmante de estrelas convidadas para a ocasião. Só estava tentando fabricar de alguma forma o que se consideraria ‘viver com aquela sensação de solidão no meio da massa’ ou na consoladora influência para sê-lo. Entristecia um pouco. Saiba como amar e você saberá quem você é.

Um momento de folhas verdes para considerar um novo movimento na vida. Luz, cheiros, água. Aguar. Aguar-se. Você deseja um novo começo? Dar forma e conteúdo a um mundo espaçoso e natural. Terra e pés. Um mundo brilhante onde os  arredores exploram sua atmosfera quase-limpa. Além disso, o céu pode ficar verde. Bem se viu. Sangra suavemente em camadas, segurança que se inventa – queria um espaço cuidadosamente equilibrado, estabelecido. Eu consegui, percebe? Falo outra linguagem livre em um período de refletir sobre as fraquezas e falhas. Fazendo um balanço (de corda no pé de manga) e olhando para onde quer ir a partir de agora.  De alguma forma sonha de olhos abertos com curvas e, é claro, chegar a um lugar em que se possa ser translúcida. Centenas de milhares de pessoas que não podem se reconhecer nos quadros sociais que lhes são propostos, empatia. Este é um tempo para ouvir e ter coração suficiente para dissipar medos. Arranjos de vidas existentes. Pensa que sua intuição é forte e deve ser ouvida.

O suficiente para fazer uma xícara de café. Ou chá.

IMG_20170414_130754195[1]

Pensamentos válidos sobre o mundo

Você tem que aprender a se adaptar a isso, a evoluir para a rotina de forma satisfatória. Pílulas diárias de bem querença. E o ciclo… bem, seria tolice tentar fingir que, mesmo agora, minha vida já é diferente da que era antes. Usa-se ainda aquelas coisas desconfortáveis por costume, ilusão, talvez um pouco de alegria… mas e esses graves?

Tenho certeza que você notou. A forma como as pessoas se comportam? A maneira como eles falam, a maneira como se vestem, a aparência? Tudo! O entorpecimento da sociedade.

Tentamos sempre esticar os limites, autorresistência. Esticar em tentativas a percepção desses limites que nos damos a nós mesmos. Eu penso que há ainda outros planos em que você pode se relacionar com a situação de vida exata. Da escrita. A realidade e o sonho são a mesma coisa, limites e fronteiras habitáveis como produto de ações, de pulsão, quiçá lucidez. Gosta da vida familiar, de queijos. Que frio, corpo rígido, dedos apertados. Vento que te joga nos tecidos, mesmo que nua. Fragmentos, minicurrículos, minibiografias nas linhas das mãos. Uma extensão do corpo, público e privado, mural de recados, anotações, excertos, adesivos, cicatriz.

Mas por que eu deveria me preocupar? A polícia da boa educação e dos bons modos não vai me colocar na prisão! Então eu não sei o quanto as pessoas realmente se importam mas acho que é uma boa maneira de tomar decisões, de forma calma e precisa. Necessidade. É realmente uma ótima maneira de se viver. Eu resisti a isso por um longo tempo. É uma pressão estranha e eu não sinto que é o meu trabalho, mas pode ser que isso ajude a pensar na vida. Nas vidas.

Lidar com algo como uma ruptura se torna urgente porque pode ou não durar muito tempo. Ele quer estar em movimento e nenhuma quantidade de apego vai impedi-lo de sair pela porta. Você está para mover em terreno novo isso é muito simbólico de uma nova vida, a densidade manifestada.

Eu sou experimental, estou curiosa e agora tento coisas. Porque gosto mesmo é de pitar e de ouvir samba em um boteco tomando cachaça.

‘quis mudar tudo, mudei tudo, agora após tudo, extudo, mudo’ (Augusto de Campos) (reflexão, aceitação).

IMG_20170421_130105495[1].jpg

Conversa fresca

Se você manter o seu juízo sobre si e se recusar a ser crepúsculo, você conseguirá navegar durante este tempo com cores voadoras e poderá ser surpreendido com a sua própria força de vontade. Quando você saiu da outra extremidade da neblina e retrospectivamente olhou para trás viu auroras. Dizendo que as velhas formas não são mais válidas, ou de pouco valor em sua nova vida, fez-se acordo, desperto. A resistência é a chave para lidar agora e suas decisões podem ter desmedidas risadas de longo alcance. A menina dança todos os dias pela manhã, anda a dar pulinhos e faz graça com seu corpo. Se você fechar os olhos ela ainda estará a dançar até o sol raiar. Você vai achar que amadureceu durante todo o processo de lidar com seus problemas.

Pode me chamar que eu vou, eu já estou aí. Ela está segurando um copo e a presença é inteira. No fundo é um céu escuro, nublado, uma lagoa e alguns reflexos de memórias compartilhadas. As montanhas e árvores e gramas verdes são luxúrias. Feridas e cicatrizes são aliança. É também uma ocasião mentalmente estressante por permitir flexibilidade em seu pensamento para novas ideias e maneiras de fazer as coisas… querer abrir novas portas para o seu verdadeiro destino. Na distância são montanhas com altos picos. Parece ser um ambiente quase estéril, quente e seco – esse vazio é particularmente inspirador. No entanto, ele tem com ele os símbolos do crescimento e lá se pode plantar o que e onde bem entender.

Sem querer parar, uma conversa fresca, o céu suspenso, um fio para lavar o brilho na água. Um rio que já entrou pelo alto mar, meio sem fim, meio chegando, meio do meio… Os sons cotidianos da vida, fragmentos e querências,  com frequência visitam um passado recente. É um método eficaz de se estar no mundo sem deixá-lo dominar, preferindo manter as gravações de vida como vinhetas separadas, expectativas miúdas.

Dia a dia. Um cadinho de cada vez.

1493402926721[1]