Aguaceiro

Uma catástrofe em câmera  lenta e um dilúvio se anuncia. Música silenciosa. Segue e vai, ouve ao longe. No começo, a luz constrói texturas profundas e densas nas nuvens que pendem ominosamente acima das nossas cabeças, mas quase não provocam o ar parado. Alternar entre altitudes mais altas e baixas à medida que o desejo de capturar diferentes correntes seja intenso, e pode-se mudar sua direção final diante de um percurso que é constante.

As melodias estão ausentes, e isso resulta em música aberta.

Uma oferta deve ser considerada e se a improvisação não desencadeia o reflexo de um pequeno tremor em uma pessoa, apenas poderia ter sido uma vida, um passeio. Está longe de ser barulhento e imprudente, as vozes se calam no que nem precisaria ser dito se fôssemos fortes o suficiente para exercer a leitura para além das palavras bonitas por hora ditas. Imbuído de uma austeridade pensativa que nunca evitaria a beleza, o outro move-se onde não almejaria estar, talvez não naquele momento. Movediço presente.

A atmosfera está aberta, luminosa. Mas também é, inicialmente, um pouco pesada, com a aproximação da chuva. As gotas frescas chegarão a qualquer momento, e a jaqueta ficará encharcada dessa vez. Vapores leves e registros congestionados, um azul profundo e um cinza obstinado, oferecendo uma impressionante gama de tons. E um novo lote de arrepios força as pálpebras e lentamente escurecem a visão, enquanto o vento chicoteia o cabelo. É o movimento em sua quietude e a sensação de isolamento, de uma maneira mais profunda – de uma noite calma em vez de um quase-mudo-criado.

Não há nada para desordenar ou desbloquear o caminho do que poderia ser ter sido possível. A música é infinita e tão larga como o céu pálido. É possível sintonizar os sentidos, e por instantes desligar os canais ruidosos no aparelho de televisão da mente. É o primeiro passo, a transição da imprecisão para uma linha direta.

Nada está acontecendo. Tudo está acontecendo.

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Interior

Será que queremos então chegar em algum lugar? A gente se reconhece, mas ignoramos isso. Instinto de sobrevivência, ou vontade de permanecer na alegria. Uma necessidade, não uma possibilidade…

Atina para mais do que uma afeição, podemos estar todos perdidos. O corpo feminino obra, suficiente, é uma questão que se faz insistente. Deixe-me andar por esta estrada, insisto. Encontro você atrás da estação, me guie de volta pra casa, poderemos chegar tão longe, já avisto as luzes da cidade. Não voltemos agora.

Houve um tempo em que você me dizia segredos, ninguém sabia. Contava sobre o corpo,
que é calado, afetado, alterado, violentado, destituído, odiado, silenciado. Mas você estava com medo. Nós costumávamos fumar e assistir aos aviões pousando. Fazendo-nos graça, como política, como ato. Exercendo a posse sobre o próprio corpo. Coloque seus braços em volta de mim, olhe de perto minha pele, intenção.

Então não se engane, não se engane. É você bem ali, bem ali refletido no espelho.

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Tola

Uma ausência prenhe. Existe uma palavra em japonês para isso, Ma. Não sei se é. Essa é uma pergunta difícil. Perguntei esta pergunta e não sei qual é a resposta. Eu me sinto feliz por estar fazendo isso, sinto-me feliz em poder pensar sobre as coisas em que estou pensando e criar algo fora delas, mas não sei se eu vou melhorar por causa disso ou qualquer outra coisa. Ainda mais, de uma maneira estranha, não quero nada de exagerado e de certa forma, isso me parece quase puro e mais do que precioso.

Eu ainda sou a mesma pessoa. Mas é uma vida.

Talvez, nos vejamos – pode ser com algumas bebidas, taças na mão, ruas estreitas, passo lento. Quero planícies, luz completa do sol, ar fresco. Eu diria que eu sou muito incansável e estou sem medo. Precisa-se ter resistência e uma pele muito grossa. É difícil ouvir as pessoas explicarem uma e outra vez porque seus elementos não funcionam, porque eles não acreditam… É difícil ouvir “não” quando se está apenas tropeçando pela vida. O tempo todo.

Pode ser imperioso que se tenha o estômago necessário para assimilar o que ficou insustentável de se fingir, o que se (re)existe/iu. Se você acredita ou não em regras torna-se indiferente, o baile segue. Penso que provavelmente há exceções a tudo.  Onde estão as lágrimas de ontem à noite? Elas se sentariam ao meu lado em casa e isso seria real, de alguma forma. Ninguém mais poderia fazer isso por mim.

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As coisas que ainda enxergamos

A mulher engoliu sua raiva e firmou nos seus conceitos, não é fácil se transformar. – Eu sempre tento tirar os pensamentos maninhos do caminho, dizia. 

Penteava os cabelos na frente do espelho, com calma. Manhã fria, rosto triste, olheiras, rugas. Existe uma bonita vulnerabilidade na feiúra dos olhos opacos, na exaustão. Sentia uma espécie de abandono, uma espécie de ausência. Parece uma ausência, mas de fato, quando existe esse vazio, é que falta pouco para voltar a ser o que se era. Mas as mãos também são importantes para se manter com a cabeça fora da água. E então os lábios, a boca acompanham.

Carrego uma ratazana nos ombros, para não esquecer que mulheres se salvam sozinhas. Torço para que essa noite tenha companhia e que consiga me embalar com o cheiro cheio de outra pele. Penso em uma foto e eles têm os olhos fechados ou algo assim, e por um segundo, tudo me pareceu importar. O corpo todo coça, avermelha, grita. Você já viu tudo, exceto o que acontece quando você chama.

Eu não consigo ficar quieta, eu não consigo ficar quieta.

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Vou tentar sonhar de novo

Eu estava em casa na cama quando acordei no meio da noite, tudo pulava por todo o lugar, sentia que a casa estava caindo aos pedaços. À distância, quase pude ouvir loucas sirenes, como no fim do mundo, sirenes e pessoas a gritar em um megafone. “Não deixem suas casas!”

Tenho certeza de que foi um vislumbre de quando o mundo irá acabar. Qual dos mundos, amor? Alguns acabam outros ficam de pé. Você anda por aí com um rasgão no ombro, dolorida. Sempre sinto que o passado informa o que acontece no presente e, simplesmente, não sabia como iria acabar aquele entorpecimento dos sentidos porque eu estava escrevendo e minha garganta estava seca. Todas essas letras malditas insistem. Hora ou outra aparecem vizinhos para conversar, esticando a verdade para torná-la engraçada ou algo assim, mas no final, sempre preciso me sentir real.

Não venha com a expectativa de vencer um embate. Círculos afetivos são quinze, distância correta. 

Eu sempre tento tirar as coisas do lugar, porque de vez em quando se perde a cabeça. Uma espécie de abandono, uma espécie de ausência. Quando existe esse vazio, penso que a beleza do interior se destaca. Não, não penso. Mas desejo, espero, torço, apertando os dedos das mãos em pequenos nós até doerem as articulações. E então os lábios ficam mudos. Mas os olhos são de longe a chave, aguados, sem foco para perto. Fome.

Para alguma sobrevida pode-se pensar no absurdo do universo. Poderia ser um bom aspecto. Talvez queira alguma outra coisa boa, dormir e conseguir descansar.

 

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Eu sinto que vem mais das perguntas e do meu sentimento de desconfiança em relação às coisas difíceis de lidar do que de atos concretos. E nesse meio tempo você ouve o mundo e até consegue sair da sua vida corriqueira, por alguns instantes. Mas acho que quando estou profundamente imersa em descrever-me como uma novela, quase tudo cabe na palma da sua mão. É como se tudo na vida fosse interessante ou não na medida em que possa ou não pertencer ao que estou descrevendo, revivendo, proseando. 

Quer dizer que pelo menos dois dos três piores medos realizam. Bem ali, do outro lado da colina, terá mais de 30 quilômetros para resolver isso. É possível, sim. Tem casos em que as pessoas se sentem vulneráveis acreditam em muitas coisas. Encontra uma coisa ali, junto das folhas, umidade. Respostas para algumas perguntas, porque elas importam. Tudo entra no trabalho, como se levantar da cama e prosseguir o dia fosse de alguma forma uma condição. É uma modalidade de ser que está sempre à procura de algum vigor, eletricidade.

Não importa o que eu esteja fazendo ou com quem esteja falando. A mudança de fase da lua sugere uma bagunça no estado emocional. Lê-se a lua para ler-se. Algo mudará com base em algo que já tenha visto ou algo que tenha debruçado paciência. Quantas vezes eu deveria ter dito para parar, deveria ter vivido a interrupção em muitas ocasiões. Tortura revivê-los nesse aprisionamento mental. E é aí que as transmutações ficam interessantes e apenas em ocasiões muito raras engrossam a pele. E acho que é isso que eu provavelmente espero. Não temos certeza de onde, é uma jornada e é uma maneira de pensar – condicionados que estamos. E, em seguida, esse tipo de rachadura abre o verdadeiro significado do objeto.

Há um elemento de tristeza que é inegável e quando aprendemos a só legitimar uma voz, podemos perder uma história. Construção de outras existências, várias, bem-vinda de volta. Aconchegue-se e provavelmente se sentirá bastante inspirada, dizia.

 

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Boca costurada

Teve um lado sombrio, você está certo.

Os avós não permitiram muita liberdade naquela época por medo. O escuro inspira milhares de sons e desperta a ansiedade da saída. Te chamo, te espero. Que saibamos com o que nos importar em situações em que nós mesmos nos desfalecemos, perdemos o vigor e a força física. Há uma tristeza no som da voz, pouca vontade de alcançar o outro, pouca esperança. Falo para você e um pouco para mim também. No domingo à noite, enrolo nas cobertas e no sofá aguardo o frio sair da pele. Não me preocupo com o tempo que isso vai levar, tenho calma e sei que a paralisia não durará muito tempo. Risco de perder o fio da meada caso se dissipem os primeiros pensamentos da manhã, o que deve ser guardado no coração e o que nunca deverá entrar nele.

Mostre-me respeito, que não escondamos a verdade e não enterremos o passado sem resolvê-lo. Podemos redefinir nossos abismos enquanto o ar frio entra pelas frestas. Prioridades. Que a gente se aperceba que o tempo traz as verdades e recupera algumas cascas das feridas. Talvez algum conforto, alguns colos, chamegos. Que haja amor e que sempre haja recomeços, pois somos todos seres inacabados. Ah, no meio do verão, quando o sol estará alto no céu e as nuvens oferecem uma grande variedade de formas que mudam constantemente, a luz terá tornado ao que era um ano antes.

Seguremos as rédias dos nossos descontroles bem rente.

Observamos melhor essas coisas quando estamos fora. Olhos vidrados na janela, o frio e o escuro já não absorvem tanto. Algum conforto de existir, respira em três tempos. Os velhos tomam polaroids, os jovens usam o instagram. A inspiração nunca é obrigada a cumprir um prazo.

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