Mãos inertes

Chega cansada do trânsito, da falta de educação, da falta de um mísero silêncio naquele ligeiramente entediante bairro, da falta de. A falta de. O ônibus daquele horário era insuportável, a noite semifria, o sacolejo. Corre para o banho, tamanha é sua demonstração de rigor e de compreensão com seu próprio corpo. Havia alguns mortos era certo, o que era um alívio. Aqueles dos quais sua alma foge, dos não afagos. Volta para casa sem ter conseguido nada. Enquanto o corte no seio esquerdo foi sendo curado, outro quase igual aparecia na parte interna da coxa direita. Uma migração contínua da ferida pelo corpo era dolorosa e não se descobria a causa. Um mal ia fechando e outro logo se precipitava a se abrir. Sangrava e marcava, seu corpo já estava com sete cicatrizes (costas, mão, seio, barriga, joelho, planta do pé e agora coxa). Sofria com as lembranças que as marcas não deixavam esquecer. Absorvia grandes porções de ar para evitar o sufocamento da taquicardia que a não-calma trazia. O sistema nervoso tinha seus jeitos, artimanhas. Por trás dos suspiros queixosos e lamentos mudos havia o egoísmo. Auto circunscrita dentro das certezas, dos conceitos, pontos de vista que se veste deles com tamanha tenacidade que o limite está se tornando ensurdecedor.

Não há ajuda possível já que se recusa a sair e aliviar o peso de forma elegante. Cicatrizes eventuais ainda sem causa, além das próprias certezas. Há cura – dizem. Expurgando. Mas não se atreve a sair de si.

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