Mulher urso

Larga, deixou a bagagem do lado, e chegou. Dramática. Esticou as costas como que para parecer mais forte e jovem. Estava faminta, comia tudo, ressonava e existia. Eu cumpro minhas promessas, já foi logo dizendo. Sim, com oito anos de atraso. Agora estou de férias, férias pra vida toda.  No final eram escolhas. Estou muito triste, estou velha. Velha e larga. Estado bruto, selvagem. Independente. A pequena perguntou: está com vertigem, falta de ar, febres? Não te dá tonturas? Vocês têm um jeito estranho de estar com a vida. Olhou pra criança e resmungou, o que deu nessa pra ter ares de estragada? Guardou o senso na gaveta? Porque tu não vai tricotar? Endireitar essas ideias. Quero dormir. Até apagar meu passado, até a manhã seguinte. Com uma voz narrativa singular, deu de ombros, recitou uma ladainha e se retirou.

Ela havia fugido dali faziam muitos anos. Pegou uma foto, umas peças de roupas e foi. Naquela altura a vida encolheu-se. A volta. Não te fez diferença, ela acalmava os lugares.

 

 

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Alexis Vasilikos, From All In

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