1.3 (para se aquecer)

Garcia lhe mostrara algumas saídas para esse estado. Sentia nele uma pessoa que pudera confiar seus desequilíbrios e suas angústias sem temor. Ele a incentivara naquela sua empreitada de confronto e isso lhe dava forças. Respirava melhor ao lembrar das conversas que tinham, e ter seu número sempre à mão lhe emprestava coragem. Falava sobre bagunça, sempre a bagunça, como um código. Ensinou-lhe o desejo de escrever, naquele exercício diário de descrever seu cotidiano. A ansiedade diminuíra com esse hábito adquirido (tinha um pequeno boneco em forma de peixinho que ganhara de presente fazia muito tempo) e somado a outros pequenos fóruns prosseguia. Considerava-se quase completamente liberta. Faltava pouco. Com a sua ajuda, assim que começou a enxergar a mágoa, a vida começou a fluir.

Procura algo para comer, primeiro sinal de que a crise foi controlada (não demorou mais que dois minutos). Encontra granola, leite, pêra. Precisa de sal, sente a pressão baixa, resolve por fazer uma massa. Já foi ótima nisso, fazer coisas de comer rápidas e com delícias. Faz tempo que perdeu o gosto por essa alquimia, e se rende ao básico do básico. Está ótimo e de bom tamanho. Quando não se tolera a incerteza e os papéis dourados já não são suficientes, enternece. Sabe que se render é um pouco de felicidade. Deixa o prato, copo e panelas para lavar depois naquele exercício de ‘deixar um pouco as coisas’ e se decide por uma taça de vinho. Amanhã, amanhã será um dia com muitos afazeres – tem sua lista: sacolão (batata baroa, abóbora, cebola, pimentão, tomate cereja, alho e maçã), banco (pode ser resolvido até sexta, mas quanto antes melhor), procurar telefone de um eletricista, supermercado (açúcar, leite, vinho, pão integral). Tranquilo, nada muito difícil. Se ocupar das suas próprias questões tem sido uma construção do seu próprio espaço. Morava sozinha e assim provavelmente permaneceria. Questões práticas eram tratadas com critério para uma boa sobrevivência.

Desde menina sonhara criar condições de um pequeno mundo em que pudesse desenvolver as suas próprias regras e limites, um lugar onde pudesse ter ar e de ser muito capaz de viver para si mesma – de construir seu próprio tempo. Claro que quando menina não imaginaria a dificuldade que o morar sozinha acarretava. Solidão, abandono, medo, angústia. Senta-se no computador, lê emails, classifica-os com estrelinhas (os mais importantes) e fica pulando entre o facebook e alguns blogs que acompanha. Quase quatro horas depois já adormece com facilidade.

 

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1.2 (para se aquecer)

Chega em casa exausta, existencialmente exausta. Via que ninguém estaria a seu lado e o que se passava por dentro escorria pelos poros. Até há bem pouco tempo a perspectiva de um castigo moderado, satisfazia. Sobre a natureza da autoria dos, por assim dizer, crimes. Hiato entre o potencial de um gesto. Talvez sinta-se impaciente e acredite que é aí que as possibilidades aumentam.

Parecia ser uma prioridade do tempo, das solidões, do retiro, da exclusão, essa luta diária contra tudo aquilo que esmaga, asfixia. A volta pra casa era sempre um alívio e um grande contentamento. Ali, nos dois últimos anos, conseguira imprimir sua marca, o que a fazia sentir-se totalmente à vontade. Tornara seu lar. Deseja um futuro mais próspero e relaciona o onde mora com sua própria vida. Menos coisas equivaleria a menos preocupações e mais espaço, o que na prática era um caminho gradual, já que isso se relacionava diretamente com um estado mais primitivo da sua mente. Isso também resolveria depois, hoje ela conquistou a liberdade de percorrer a paciência (reduzir aquilo que não é tão necessário quanto imaginava).

Subia os degraus, tirava os sapatos ali mesmo no final da escada, não tinha descanso em relação aos obstáculos existentes que minavam sua força de vontade. O esforço era legítimo. Agora faria um café, um cigarrinho talvez, e queria desistir da tensão no corpo. A frase não saía do seu pensamento, já que de um tempo pra cá assumira sua condição de violentada. Aceita que dói menos – nessa lógica que acreditava seguir os rumos da sua vida. Agora estava decidida a ter o encontro, que fosse… que fosse…

Era já a terceira vez que se detinha na frente dos escombros, perdida tanto nos detalhes e nas sincronizações máximas, vendo sentidos ocultos que geravam uma tensão corporal extrema. Sua garganta doía, o maxilar, a posição da língua na boca, as articulações. Movimentar ficava difícil e era a hora de respirar e relaxar os músculos. Ideias exageradas sobre organização, simetria, perfeição já tinham ficado para trás. Costumava ser tão leve, encarava a desordem com tranquilidade. Isso mudou como fruto disso. Agora ainda não. O que falta no meu corpo é somente resíduo da experiência desse mundo, e algumas palavras têm um peso enorme quando pronunciadas – peso de carne viva. É o equilíbrio da evidência e do lirismo. Costumava passar horas em agonia, paralisada em alguma esquina. Isso tinha ficado para trás; pelo menos em parte. Assumir o desejo do controle e aceitar que não o tem. Tão banal. Tão sutil mas capaz de precipitar taquicardias. Tranquilizar-se em relação aos perigos acabou por aprender com meditação e técnicas de respiração. Sentia-se forte o suficiente para controlar-se. Sabia que as contradições eram importantes e nunca estiveram tão em cores vivas como nos últimos dois anos. As contradições eram fúcsia, sublinhadas em amarelo limão berrante. Inescapável o incômodo.

Anda pela casa com pressa, cumprindo pequenos ritos, hábitos; a chave no lugar, a bolsa na cadeira, lavar as mãos, entrar na cozinha e tomar água mesmo sem sede. Nada demais até aqui. Sente suas articulações doerem tanto, percebe seus ombros de repente tensos e encolhidos, olha as juntas inchadas das mãos. Não consegue alcançar o motivo daquela rigidez, respira diafragmamente, e consegue aliviar. Algumas más escolhas a tiraram da sua vida, aquela que seria se não tivesse sido tão cruel consigo mesma. Mas isso, embora fosse doloroso, era desimportante, conseguira perceber que não valia a pena essa roda viva de pensamento aflitivos. Sentir que fazia parte de um grupo de oprimidos era uma forma de socialização, solitária encontrara seu nicho. Se as ideologias tornavam as pessoas classificáveis, o crime de forma inconsciente fazia isso também. Ser vítima era doloroso, mas de alguma forma, era um conforto.

Lutava contra tais sentimentos, e o tempo circundava criando um vazio e seus pequenos e inofensivos hábitos abriam caminho para finitude, e o cotidiano tornara mais suportável. Era uma suportabiliade ilusória, pois sabia que os hábitos eram uma prisão. Fez seu café, sim, resolveu-se pelo cigarro, e olha em volta, analisando todos os objetos da casa enquanto fazia anotações mentais do que precisaria ser feito. Ajustar o quadro na parede, trocar o forro da mesa, desembolar o fio da fonte do computador, limpar a gaveta onde guardava as receitas (quase todas da sua mãe, um bem-querer. Um dia faria muitos daqueles pratos). Não aceitar perdão por aquilo que lhe tornava conservadora. Mas ainda assim a meta era ser libertária. Uma acidez, sensação de sufocamento, budistas falam de veneno mental. O café não ficou como queria, foi aquela pequena porção a mais de pó. Tudo bem, assim ficou ótimo também. Hoje já nem sabia o que era aquilo que sentira. A lembrança sempre vinha acompanhada de um aperto no peito, procura impulsos ajudantes. Começar em algum lugar, fora da superfície. Que aflitivo! Tinha a perfeita noção de que nada, absolutamente nada de anormal aconteceria se nem tudo fosse cumprido. Tratava-se de algo inofensivo. Imaginava que o caminho da cura fosse o enfrentamento dessa ilusão. Experimentava, testava o cotidiano. Já esteve a passar todos os dias pelo mesmo relógio que marcava exatamente a mesma hora 7:46. Chegou a conseguir isso por muitos dias consecutivos.

Quase se acostumara com a sensação de vertigem e falta de ar. Não segura a torrente de lágrimas. Reivindica seu direito a chorar e a se sentir o tão vítima quanto quisesse. Parentes por parte do infinito, dos crimes. Não gostava desse terreno (o da vítima) mas era uma emergência. De tempos em tempos precisava se refugiar ali, mesmo que por alguns minutos. Logo se recuperava e buscava seu autocontrole na base de respirações programadas. Conhecia bem o caminho da ida e da saída desse estado. Sob todos esses domínios da finitude humana. Se culpa pelos pensamentos de uma suposta libertação, pensamentos frutos de insônia e tormento. Isso ainda acontece e, entre lágrimas vê à sua volta e a todo momento percebendo uma interligação imediata com aquilo que vive internamente. Será que é normal isso? Sempre ensimesmar?

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1.1 (para se aquecer)

 

1.

É um encantamento estar longe de onde há o perigo e da última coisa que você se lembra (uma briga). Lá vigora também aquilo que salva à autocompreensão de nossa própria condição como seres humanos assolados pela incerteza (olhos vendados). Arrisca transformar-se em pesadelo autodestrutivo – a ambiguidade é preferível à clareza e à simplicidade. O ônibus sacolejando sobre um talco vermelho, assemelhando a paisagem à filtros vintage que encontramos por aí – alimentando tipos específicos de ilusão, uma memória que pertence a todos. Não restou sonho de liberdade possível, técnica que equaciona urgência com pressa, por si mesmo emergencial. A mudança resulta de uma instrumentalização da necessidade de uma postura mais racional que não se desloque da ação.

É lenta. Nada parecida com o ativismo frenético e o falatório vazio a fim de consolidar e estender sua ideia original. Ideais ainda imaturos. Começa a notar que coisas insólitas estão acontecendo com ela e, pior, está fazendo coisas estranhas e irreconhecíveis. O movimento cessa, a poeira invade as janelas e tudo fica coberto com uma fina camada que seca a garganta e fere os lábios. Abre a bolsa e entrega uma moeda dobrada ao meio – enfrentar um livre fluxo do pensamento.

É claro que você terá de criar o vilão – lembrou.

Colocando a felicidade dependendo de um fator externo, observava todo o sincronismo oculto naquilo que acontecia ao seu redor. Não resistia relacionar o número de janelas do lado esquerdo do ônibus com o número que estava na placa de sinalização do posto, com o casaco vermelho rubi que viu em uma senhora. Gostava de pensar que tudo à sua volta estava de alguma forma interligado e que um fio frágil (que ainda não se deteve em definir muito bem o que era) costurava o cotidiano. O que traz algum conforto. Por todas as vidas que formam-se nessa rede de pensamento, que envolve fatalidade. Minha alma está em estado avançado de decomposição – cansaço. Arrumou suas coisas na bolsa, pensando em como ter menos e ser mais simples. Deve ser leve precisar de menos objetos, e, principalmente, menos objetos na bolsa. Qualquer felicidade excessivamente buscada fora de si é absolutamente temporária, lembra daquela frase que acabara de ler. Ter muitas coisas devia ter um motivo. Só que não conseguia descobrir se isso era uma forma de romper o isolamento, de se sentir um pouco menos solitária.  Ela sentiu um impulso maior no que diz aos seus assuntos pessoais. Como essa bolsa pesa. Preciso de bolsas menores, preciso precisar menos. O acúmulo é cansativo e eu já estou cheia de andar capengando.

Desceu no local indicado. A primeira coisa que chamou a atenção foram as cores, a composição e a relação das formas. O lugar parecia destruído, era um local de obras (estão por toda a cidade, afinal), onde se misturavam concreto, pó e muitos restos. Fica ali por uns instantes para apreciar, aliás, para decifrar. Não entende porque ambientes em ruínas chamam tanto a sua atenção e logo imagina que muitas peças de arte contemporânea estão ali, prontas. Os vergalhões retorcidos pelos tratores e marretas faziam um desenho no espaço – a aniquilação de qualquer resquício de romantismo. O trabalho seria só o de deslocá-las para uma galeria. Ri. Ri porque sabe que não é esse o seu caminho. O das galerias de arte. Sentia uma genuína disposição de compreender e de buscar um novo significado aos próprios erros que não envolvessem culpa. A ideia do encontro era de um enfrentamento das emoções e pensamentos negativos. Mais leve, mais leve. Esse era o seu desejo íntimo.        

Tinha direito ao bem-estar – enxergar os erros como aprendizado. Puxa, como isso era difícil. Sentimentos de compaixão e compreensão conseguira ter em relação aos outros, principalmente àqueles que não conhecia. Já aos próximos e a si mesma não tinha ainda esta habilidade. A aparência era perturbadora. A melhor maneira de ter certeza acabou gerando ainda mais expectativa, não mencionara o ocorrido por muito tempo e assim tudo parecia seguir seu rumo normalmente. A frase pichada no muro por trás dos escombros interpela, exige resposta: ‘qual violência você pratica?’ Paro subitamente e o mundo gira. Perco os pensamentos e minhas pernas dão uma volta sobre os próprios calcanhares e sigo para o mesmo ponto que cheguei. A enxurrada de pensamentos paralisa e tira a coragem. Amanhã estarei melhor, hoje não tenho condições de seguir meu plano. Sigo o caminho vermelho, pouso os pés na poeira, sento numa beirada de meio fio esperando o veículo que me levará de volta. Sobre a violência, não conseguira encarar.

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Carcomido homem

Estava num ponto de controle mental em que a qualidade deste momento é a  percepção da importância de que se conseguiria quase levar uma vida normal.

Desde sempre a conhecera. Percebia e elogiava sua retomada, seu auto controle. Da última vez que se encontraram sozinhos, via nos seus olhos cheio de pretensões uma inquietude, quase imperceptível.

Suas necessidades emocionais para estes dias assumiram até com ele, e sua face mais próxima do que era antes do estado de choque. Ainda não conseguia sorrir, uma ampliação de sua emotividade, tornando-lhe uma pessoa muito reativa e até sensível demais.

Ainda tinha palpitações e aqueles hábitos como puxar as pontas das cutículas causando aquelas pequenas inflamações nas unhas, mas sem dúvida havia na fina flor do pensamento uma visível recuperação de uma certa normalidade. Posso beijar seu pescoço? Já encostando, mas deixa subentendido, naquele lábio gosmento, delírios paranoicos com a barba. Sempre o mesmo, mastigado, carcomido homem. Passa um arrepio por todo o corpo, o gosto do vômito na boca.

Já quase se acostumara, e retoma a consciência da decadência deselegante e o apodrecimento. Um lapso no tempo, perdeu-se nessas memórias recuperadas. Arma branca, faca. Faca…Você se lembra de como é ser criança? Porque tudo está partido, repartido, fragmentado, inconsistente? Instante quase sempre inglório, o da lembrança.

O certo é que passava a voltar desses embates quase sempre da mesma forma. Murcha e palpitante. E sempre com alguma informação a mais.

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