Lambe

À beira de uma determinada figura de mulher que desejaria ser, que raios! – ele estava certo.

A bela atenção e exploração sobre a origem de se abrir e admirar a realidade do outro, no outro, com o outro. Um gesto acidental fundamental para toda vida dar certo. Era, sempre foi, atribuída à falta, essa falha, esse vácuo. Mas ainda é um assunto delicado essa condição e sensação de estar se desagregando e se perdendo. Serve-se de chá, senta na banqueta na beira da pia, e tenta não pensar. Ou melhor, pensar sim, só que com o corpo inteiro.

Já é de madrugada e dali a poucas horas terá que acordar pra cumprir o dia. No escuro, anda no escuro. E quando for oportuno, começará devagar. Um toque feliz  naquele ponto das suas coxas a umedece. Os sentidos se esgueiram pela porta dos fundos da sua própria consciência. Um encontro afetivo. Com a devida honestidade poética, sabe que tentar desesperadamente uma coisa é muitas vezes uma forma de não a conquistá-la. Aperta os olhos. Prefere os arrepios das coxas. Lembra de molhados, de toques fortes, de vigor.

Experimenta, mesmo que de madrugada, mesmo que sozinha, mesmo que com frio, mesmo que apática, experimenta sentir seu próprio gosto.

 

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Ao menos um mínimo de controle

Antes, antes de sequer mexer um músculo, já sabia. Quis despojar-se de tudo que fosse excesso e incômodo do que é aparente na superfície. Não permitir que lhe dominem a alma. Como tentativa de ganhar corpo pensava em saúde. Mal tinha corpo naquela época. Zorba, o grego, lhe ensinou sobre os azeites, berinjelas, vinhos e pães. Sementes e raízes. Um nó na garganta de deus. Precisaria, sob todos os aspectos, ter um controle bom de si. A capacidade de amansar a própria fera interior, vulcão era àquela altura. Sentiu o líquido quente escorrer pelas pernas. Não se conteve.

 

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Mulher urso

Larga, deixou a bagagem do lado, e chegou. Dramática. Esticou as costas como que para parecer mais forte e jovem. Estava faminta, comia tudo, ressonava e existia. Eu cumpro minhas promessas, já foi logo dizendo. Sim, com oito anos de atraso. Agora estou de férias, férias pra vida toda.  No final eram escolhas. Estou muito triste, estou velha. Velha e larga. Estado bruto, selvagem. Independente. A pequena perguntou: está com vertigem, falta de ar, febres? Não te dá tonturas? Vocês têm um jeito estranho de estar com a vida. Olhou pra criança e resmungou, o que deu nessa pra ter ares de estragada? Guardou o senso na gaveta? Porque tu não vai tricotar? Endireitar essas ideias. Quero dormir. Até apagar meu passado, até a manhã seguinte. Com uma voz narrativa singular, deu de ombros, recitou uma ladainha e se retirou.

Ela havia fugido dali faziam muitos anos. Pegou uma foto, umas peças de roupas e foi. Naquela altura a vida encolheu-se. A volta. Não te fez diferença, ela acalmava os lugares.

 

 

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Alexis Vasilikos, From All In

Aquela parte da tua alma

As pessoas mudam. Eu só acho que devemos a ele algumas palavras, isso é tudo. Eles acabam não tendo nada a dizer um ao outro, mesmo que eles tenham sido melhores amigos em algum momento.

Satisfatório simplesmente por ser ofertado o afastamento voluntário e por não ser capaz de sugerir um momento especialmente alegre, com vinho e tudo. Precisariam ser modificadas dentro e fora de você (as coisas). Alguma certeza a gente tem em comum. É poderosa, embora sutil, a consciência. Quanto à clareza que veste o último figurino da apresentação “Nó”, vale dizer, é interior e apenas você pode revolvê-lo.

Morreu de fome porque se perdeu na própria casa. Forçando-me a pensar o contrário dos meus próprios pensamentos ~ no que diz respeito ao coração e aos afetos de um modo geral (enquanto os vínculos vão se enfraquecendo em ritmo constante). Pain can recalibrate your life. Curta isso sem ingenuidade então.

Correu em desvario pelo pátio, tentando fugir. Fugir do frio nas mãos e nos pensamentos. O Frio é sem poesia e sem pétalas. Frio sem perfume. Temos construído em alergia as reformas das informações desagradáveis ou perturbadoras; nossos meios de comunicação refletiram isso. Mas, se não se levantar nossos excedentes de gordura, e reconhecer que essa gordura comportamental, em sua maioria, é ser útil para distrair, iludir, divertir, e isolar-nos, para em seguida, te matar do coração. Todo cuidado é pouco então. Uma criteriosa morte irônica será essa.

Rodou sobre os próprios calcanhares até ter vontade de rir.

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Garry Winogrand, Lone woman in city bus, 1981

 

 

 

Carícia

Um dia ela me perguntou se esperava gêmeos. Oh, deus me livre. Estou faminta. Faminta de tudo, poderemos tentar novamente amanhã.

Persiste na esperança de encontrar um amor verdadeiro – empolgada com isso, não achava que… é a vida. Supere.

Sempre achei que não tinha habilidades práticas pra vida, e veja só. Não aqui, não no meu quarto. Sim, sim, já foi resolvido. Você promete que esperará por mim? Ela veio até a mim, toda vestida de ervas e flores e só disse: em breve. Não, não posso voltar pra casa. Você fez sopa? Sopa parece uma boa. Todo respeito às poderosas. Silêncio para fazer o para-casa, amarrar os sapatos e queimar os bolinhos. Elas  não são como nós. São menos razoáveis. Daqui pra frente quero que você ande cabisbaixa. É o mínimo que pode fazer. Não faça afirmações presunçosas. Dois abraços são permitidos, na entrada e na saída.

Porque impróprio pode ser um sorriso.

 

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Edouard Boubat, tutu, 1999

 

O homem pela primeira vez aparecia em movimento naqueles dias

Um achado: começa com um vagabundo na rua, velhas roupas, velhos sapatos… mas é sempre essa tristeza.

Urgente, emergencial.

Presságio de um momento de batalha e muito esforço, tudo interfere em tudo. Um recolhimento para fôlego para nova aproximação. Fato que está por toda a parte. Ilimitado, indefinido ou infinito. Gostava de acreditar que a realidade última era sem fronteiras. A destruição ocorrerá na medida da necessidade. As lágrimas vêm aos borbotões.

Infinitos mundos.

É urgente. Era urgente então. Será que saberemos enfrentar tudo unidos? Sentiu-se bem. Amor e guerrilha. Objetos, coleções, guardados… isso tudo traz algum espírito de felicidade e um presságio de conquista de boas relações. Afeto. Assim tudo tão frágil no horizonte. A vontade é de firmeza de dentro do dentro.

 

Está tudo nos livros.

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Laurent Chehere, from Flying Houses series

 

 

Sem saber a partir de onde

Sigo, mas o faço pela porta dos fundos. É só um palpite, dos bons, que pode ou não estar certo. Será relevante ainda que de leve, de manso. Nessa grande e deliciosa sincronicidade (almocei na mesma hora que você – só que daqui), a não querência não é só inútil como forma imperiosa – porque a coisa é visível a olho nu.  Eu te entendo e te admiro.  Numa linguagem em que a minha razão não compreende. Depois diga-me como sentes Tu, é essencial que seja assim. Prova bonita da bondade de alguém, mas tenho certeza que pode nos ajudar a nos conduzirmos ao melhor em nós. Dizia-se que era pelo caminho das montanhas voadoras (dava-me medo de pensar que a alma poderia se esvair só no respirar dos vulcões) e em geral as dificuldades de ordem prática adivinhavam que ter conversas muito profundas e partilhar algumas experiências de vida era importante. Colhemos umas flores pelas raízes e algumas ervas daninhas bonitas.

As veias saltadas no pescoço, ainda era só o começo. A revolução era interna, percebia-se.

Perdeu-se do juízo.

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Vida que tem sentido.

Eu gostaria de me lembrar agora. Tentar escrever sobre aquelas identidades fragmentadas de várias maneiras, uma a uma. Era constante que conversassem profundamente, onde nem culpa alcançava. Porque ambos os polos são impróprios – penso que é um caso de sorte. Não havia segredo para lá daquilo. No melhor dos casos um neto bem parecido a acompanharia algum dia. Escolher as músicas certas é um fator importante, entretanto. Eu gostaria de me lembrar agora, com absoluta precisão, de cada uma de suas palavras e anotá-las neste caderno, sem maiores comentários. Limpamos tudo, como se desse modo avançássemos para algum lado em que esteja se sentindo confortável. Peguei no pequeno santinho que trazia  no pescoço, como que assumindo a culpa e, sem chorar, adormeci.

Devia sentir-me melhor.

 

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É sempre dias de chuva por aqui

A água está quente.

Gosta de jipes antigos. Gosta de trilhas sonoras de filmes espaguete. Gosta de truques simples.  Um bom dia para a lucidez e a organização do caos emocional que quase sempre nos colocamos… acabado. Os tipos encontrados ao examinar as minúcias da natureza através de um microscópio são exatamente assim. Com que frequência?

A regularidade das batidas entrecortadas pelos cliques no teclado, cortadas com a precisão de um metrônomo.

E o ritmo calmo convida ao sono. A chuva faz tudo melhor. O vinil verde, a musicalidade apertando o coração, a sensibilidade de garagem e a rocha bruta. Mas, por pura diversão neste inverno, este é o único poder a se obter. Cordas tristes são colocadas em cima de um piano antigo.

Usar o cantar como âncora de profundidade. Com dois ‘sunrise’ acumulou mais poeira do que poderia imaginar. Enquanto cozinhava voltava à vida. Requer outros dons de si.

Divide a respiração em quatro pedaços iguais. Em mim. Leve e ofegante estaria. Esse parece ter sido o sabor do mês.

É sempre época de chuvas aqui.

 

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