Quando isso acontecer

Apressando-se / atrasando-se são formas igualmente fortes de tentar defender-se do presente. Finalmente outro mês vem chegando – porque o medo das palavras vazias apavora uma imagem “zen”, razoável e mentalmente equilibrada que só o café trás. E se a vida se tornasse subitamente algo bacana no final das contas? – era assim a Matilde. Sempre otimista. Ela é mais poderosa do que a força agressiva, talvez em uma forma mais sofisticada. A gente duvida de que dizendo sim as coisas se resolvam. É essencial tomar atitudes práticas, ainda que elas se revelem pouco afetivas ou até mesmo um tanto quanto impiedosas. Nós ali, a tomar antídotos com biscoitos de coco. Chuva inundando casas, molhando colchões.

Ela é um único personagem que se esbalda a jogar tanta luz no drama que a gente tem como máxima da vida. (Confundir as coisas de substância com o seu simulacro). O papo é solto, o frio acontece na espinha, a cada baque. Penso em escapar dali, ir embora, descer o elevador, devagar, lance por lance, para pensar. Vou de escadas, decido, muito antes da minha saída. São mais felizes quando as coisas boas são esperadas para acontecer e não quando estão acontecendo. O ritmo é um dos mais poderosos dos prazeres e espera que continue assim. Quando isso acontecer, ele crescerá mais doce. Ficamos ali, a nos olhar, com as cartas na nossa frente, tentando materializar o tão sonhado ritmo doce. Como a busca ansiosa por prazeres nos faz sair correndo na frente para encontrá-los, tanto, mas tanto… que não podemos abrandar nossa respiração o suficiente para apreciá-los quando eles vêm.

Estamos, portanto, uma civilização que sofre de decepção crônica e recorrente – um enxame formidável de crianças mimadas quebrando seus brinquedos, perdendo seus amores, ficando de mau. Dói. Há de fato uma coisa como “tempo” – a arte de dominar o ritmo – mas o tempo está escorrendo … Sinto o eterno presente em meus braços que mal consigo movê-los. Mas Matilde reverbera – pois é o segredo do bom tempo, e eu só vejo degraus. Arte, só por amor.

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Sonia Handelman Meyer, Bus Stop

 

Um conhaque e uma cachaça

Agora é deixar de molho, posso entrar.

O som da torneira pingando, pardal longe, o perfume da casa e o silêncio do rádio. Coragem e os pés formigando presos no encosto de caixote. Por onde começar? Parcela de alvos, músculo e parede. Decide a parede, pedra maciça, olhar macio. Água fervendo no fogão, se atira no sofá e se permite uns minutos de letargia. Um gole de uma bebida forte agora cairia bem, levanta rapidamente, desliga o fogão (não haveria mais necessidade de ferver água) e abre o armário. Lá tinha um conhaque e uma cachaça. Escolhe pelo primeiro, serve-se dois dedos e volta para o sofá. Era o momento que se deixaria sonhar, desejar. Acho que vou escolher um bom vinil pra escutar. Ouvir um dos seus discos combinaria com a ocasião que ela mesma criou como presente para si. Billie Lady in Satin seria dramático demais. Tonny Bennet! Perfeito. O disco está novo, a melodia apaixonada a faz sorrir, e só então molha os lábios na bebida. Outro gole, dessa vez maior, desce queimando pela garganta, e lhe traz imediatamente um estado delicioso de relaxamento do corpo. Aquela história de vitória pessoal lhe trouxera pensamentos filosóficos sobre a vida e a morte. Somos todos acidente. Desabotoa o sutiã deixando seus peitos soltos, livrando-se do incômodo do fecho nas suas costas. Faz aquela manobra de tirá-lo pela manga. Pequenas gargalhadas. Agora sim, o segundo gole.

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Fanny Viguier

 

Ao conversar com alguém próximo, revele um segredo

Estava achando muito difícil que ele viesse esta noite – quer que seja bastante passageiro, quer tivesse mantido tudo separado. Lá fora quase noite e esse frio que não passa. Brincando na intimidade até que algumas lembranças não sejam fonte de vergonha. O bom era o dito com alguma voracidade. O que se tem a fazer era se privar de algo, sacrificar, provar a deus que você entende sua santidade. A ti uma parte desse futuro é construída e a outra é obra do acaso. O lusco fusco esteve único. A poeira a ser lamacenta estava a depender do que mais falta – água, nem que em lágrimas. Era o que ela precisava escutar no momento “abrir(-se)”!  Parcialmente a nossa própria vida  não dizia nada, era nada demais pra ninguém. Tenta aquietar a ignorância com o silêncio,  sentir as suas falhas decapitarem sua língua. Diante de semelhante estrondo pensa que de qualquer modo “é preciso olhar com muito cuidado”. O ar recuando do seu peito porque não se sentia seguro nos pulmões (precisava tossir um pouco). Às vezes tudo que as pessoas querem ser é ‘humanas’.

Precisava limpar a geladeira. Urgentemente.

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Jose Baso

Faz um pé descalçar o outro

Cada um a seu modo indo a lugar nenhum… Para falar do que carregávamos n’alma, para proclamar nossa angústia, ele pedia que as oposições ficassem nítidas entre idéias e atitudes. Diga! Mesmo que sem nenhum valor jurídico, fale! Tinha sucumbido ao cansaço das palavras sem efeito, sem função, sem retorno. Cansada de pensar no ‘antes’.  Esses pensamentos nunca irão tomar forma de natureza pessoal para ele, sentia no ar. Sob tortura quase todo mundo se confessa culpado para que se acabe logo com isso. Mas sem tortura quase todo mundo inventa, esquece. Vaga. (Lembra do amor de Clarice por João). Fala que o ilógico é necessário aos homens de boa vontade e que do ilógico nasce muita coisa boa. A oposição tem uma natureza de conflito, justo. Tanta disponibilidade de meios e a facilidade dos fins esbarra no mundo loucamente acelerado, sem nos dar permissão para ficar quietos. É o seu próprio fim, o tempo sujeito à nossa própria montanha russa afetiva. Não se falava sobre tudo. Corriam das palavras entediantes e espinhosas, e às vezes até corriam da troca de olhares, o que acabavam por se arrepender depois. Bem depois. Mais tarde. Com pés descalços caminhava mais vacilante que era. Mas sempre preferia assim. Naqueles dias não conseguia dizer nada.

 

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Fan Ho

 

 

 

Experiências de fé

É como tocar a lua com os dedos dos pés. Se emocionava quando lembravam dela. Era como se fosse um pouco menos invisível, tão acostumada estava a ser ignorada. Não sabia como era se sentir querida.

Quer dizer, até sabia, mas muito pouco.

Dita. Falada. Pronunciada. Acostumara-se a sobrar, a não pertencer.

Agora queria uma família, uma família construída. Uma família sua. Daquele seu jeito. Pensou em aprender a falar sozinha, mais vezes, quantas conseguisse, pra aprender a ter voz. Aí não importariam os outros, as outras vozes. Ele disse: são apenas rótulos. Ela pensou, rótulos pesam demais, não são ‘apenas’.

Ela desejava que cuidassem dela porque sempre fora boa. Boa e quieta. Sempre tivera juízo. Era uma plenitude acreditar que alguém lhe recompensaria por ser tão certa. Ela perdera essa crença fazia tempo. Estava inevitavelmente sozinha desde então. Mas agora, agora, conseguia construir muitas pessoas dentro de si. E conseguira abrir seu coração às pessoas que pareciam que tinham algodão por dentro. Profundas e leves. A porta de cima ficaria sempre destrancada. Escancarada, melhor.

Estava um bocadinho séria, agora. E cheia de amores.

 

 

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Foto por Flávio de Aquino Carvalho

Uma braçada de distância

Ideiais novos, com lampejos de inspiração. Talvez estejamos esperando um equilíbrio, mais à esquerda, ou os dois lados ao mesmo tempo, ou reduziremos a carga pela metade, assim, sobre cada ombro (como sentido e som). Tinha parado de sorrir por alguns meses. Sentia-se como uma nuvem por onde o sol passa conceitualmente em direção ao nada. Impulsionado por uma dedicação àquela certeza que só a esperança dá. Um espaço de atuação aberto, disponível, não-burguês. Sentia-se assim. Disponível. Não exatamente disponível para alguém, mas à espera de si mesma. Desejava ser catadora de cereja. Com o tempo aprendeu a tocar-se, recolhida, sossegada. Nada acontece. Em estado de antecipação suspenso. Já já volto sossegada, cheia de libertação da ociosidade forçada. Embora ela nos ofereça rotas de fuga, esse estado de antecipação suspenso é pura inquietação. O desejo de um desejo, um trem de humores. É tudo sobre detalhes e abraços. É quando se trata de ouvir hábitos.

 

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Rotina

Tudo parecia diferente, afinal. Coração pequeno, cabeça miúda pra pensar, braço dolorido. Estava ali pra fazer também perguntas tolas.

(Há tolice no amor?).

A gente não tem juízo para coisas de antigamente. Às vezes mais enfezada nos modos, enfezada nos sustos todos da vida. Que fosse sonho para se esperar e para sentir, uma coisa tão pouca de se querer. Tão pouco de se esperar. Queria ter grandes sortes. Havia de enfurecer. Pensara que havia algo dentro de si que a esperava, para quando sonhasse. E ela respondeu: que sejam por coisa nenhuma até que sentires coisa nenhuma. Que sossegasse. Mas o sossego durava coisa nenhuma de tempo.

Perguntaram-lhe: tens pressa? Ela disse sim, que era um jeito de dizer que tinha medo.

A secura de tudo. De todas as águas.

 

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Jacques Henri Lartigue

Causas perdidas

Tempo de se afastar. Dar espaço, recuar. Ficar atrás, deixar pra trás. Certa vez, numa sala onde ele repousava, educadamente me interrompeu e pediu que falasse com mais clareza sobre os pensamentos que poderiam salvar algumas poucas coisas boas.

Entregue-os, disse-me.

 

Por estar sempre na tangente sufocante entre os dois mundos, o medo não era necessariamente linear. (O erro está justamente no objeto) sua coragem é má, o que vem a ser, no final das contas, se pensar bem, uma forma de covardia. Esboçou uma tentativa mal e porca de autocrítica. Já lida como um evento inconcluso hoje, ressente-se. Caminha trêmula, decidida a retomar relações, ser resiliente (sic) é vital. É preciso traçar uma linha entre o que se pode pensar e o que se pode fazer. O que deveria estar morto, descartado, totalmente desacreditado, está voltando de forma violenta. Deseja não ter estado tão comprometida com a pressa da atualidade. Quero correr, correr muito para um lugar calmo. Cair pra dentro de mim e esquecer o valor dos segundos ganhos ou perdidos (uma necessidade).

 

Torço para um luto abreviado.

 

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Absorta

Comemora o tempo frio tão pouco que o efeito é quase espiritual. Isolados marfins, pensa nos dentes de leite, inevitável. O benefício que lhe fora concedido tem valor, você sabe que este é um momento para ficar no hall de entrada, fazendo uso dos poderes intuitivos, de maneira uniforme e, se for possível, com brilho. Sente-se frágil, frágil e criativa. (Curiosa sua propensão humana básica para o pensamento mágico.) À medida que fazia a transição para a… ao invés de ler os sinais que os pressentimentos insistiam, prefere a sensação do longo inverno. Esteve esse tempo dedicada a recuperar seus ouvidos, agora mais pesados e superiores em todos os sentidos. Se prepara para produzir algo tão comparativamente gritante como a abertura o tão abstrata que conseguisse. Um infinito universo que chega forte, apoiando as mãos para puxar, mudando adereços para criar novos estados de espírito, avançando furtivamente para a frente de outras prioridades, quase despercebido. Mas pressentiu os seus contornos sombrios cada vez mais definidos depois com uma passagem daquela música de tirar o fôlego. Amorfo pensamento, desejo de transcendência, corda-condutora, sublimidade.

 

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A qualidade de cada instante da nossa vida

Assim foi como tudo ficou tratado, ela se sentindo uma pessoa melhor, respirando melhor.

É claro que era um desabafo. Um mundo onde todos teriam uma chance razoável de felicidade, uma chance razoável. Razoável… repetia sem saber porquê. Talvez para que se tornasse realidade. A incrível limitação das palavras. Nas camadas mais sutis, o estado já desconfortável de infelicidade é um estigma que oscila entre a humilhação e o status.

Ele seguia o assunto com tédio, meio profissional. Dizia da inutilidade de pensamentos. Pelo contrário! Eu só acreditava em recordar o passado, imaginando o futuro, nunca no presente. Algumas pessoas dizem que a felicidade é agora, é a qualidade do frescor do momento presente. Devia-se misturar todos, todos os vislumbres de alguma verdade. A solidariedade dos corpos permanece. Não! Não é verdade que o coração se gasta (mas a gente cria essa ilusão). Coincidindo momentos muito específicos, sentara à mesa com aqueles novamente. Dois milhões de minutos parecem ter passado então.

Um tempo muito longo que todo mundo parecia ter dentro (entre as orelhas) e continuaram a não saber o que fazer com ele. Talvez depois de duas vezes esse tempo tenham encontrado o caminho para as montanhas, o que melhorava a sensação, mesmo que infimamente. Ruídos que representam sentimentos, pensamentos, talvez experiência. Talvez algumas verdades.

 

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Foto by Camil Tulcan