Árduo e ardente

Nesse vertiginoso momento, as paixões do passado jogam contra, e em construção, os pensamentos do mundo material  atordoam as boas almas que galopam por aí. Estamos todas em busca de algo comum, ordinário, numa forma mais tangível de construção social. (Os artifícios, que mesmo tateando no escuro, prometiam a sobrevivência.) E lá se ia tentando descobrir os caminhos, que não eram redutíveis ao físico, ao tátil, ao óbvio… E se acharmos pessoas que nos tragam equilíbrio, na tentativa de tentar trilhar de maneira mais suave, ergueremos um brinde com cachaça. Leu e guardou: para mim isso serve pra tudo, amor, trabalho e a eterna tentativa de ser um ser humano melhor. Ele carregava uma promessa de libertação, de fuga do peso do edifício moral, de alguma gravidade ou toda a realidade. E que se fez muitas bobagens, diga-se. Uma nova arquitetura combativa contemporânea seria construída, e encontrar-se naquela ideia não atolada por aspectos técnicos ou mesmo qualquer paradigma especial era doloroso, árduo e ardente. É o que dizem, viver o medo.

Estar perto, conversar, abraçar, se amar são o que no resta nesse mundo clown.

bertien-van-manen
bertien-van-manen

Tempo da rotina

Margarida nasceu em 1989 e vive em Monte Azul.

Era pra ser sobre o amor e não sobre se estar a se embaralhar caminhando por um corredor escuro cheio de vermelhos nas paredes. Como apareceu na minha frente e meio zonza me descubro mais pungente. Mais triste. Mais ultrajante. Mais quente. Mais importante. Os sinais são reveladores juntamente com alguns sons estranhos. A banda boa que toca, desconhecida, estilo shoegaze etéreo com uma laje de espessura suficiente pra se construir mais três andares de prédio – de pós punk. Sabe que gosto. Música de OVNIS. Lembra de um texto que leu, estou mais velha mais dura e mais canalha, não é bem assim, mas é assim também. Não deixa de ser. Imagine os sons de Cocteau Twins, Slowdive, The Cure em um liquidificador… sinto falta de você, não tenho te visto muito ultimamente por aí. Aí simplesmente a noite é lenta e não é possível que escape sem deixar pistas… Porque acha-se paraísos por aí. Dance na noite, brincando com meus olhos, esmagando-me com mentiras, escute, diga mais uma vez, que o amor é o paraíso… Isto é tão perfeito como uma música que você vai ouvir… Sussurram em mim, tocam meu rosto, limpam. Irei dormir, sonho pouco, acordar assustada, falar com ninguém mais por hoje.

I’m going to drift into your eye.

Diane Arbus
Diane Arbus

Território do infinito

Toda a minha vida, dentro e fora.

A primeira vez que eu comecei com isso foi depois de anos, ela só ficava ali fora do caminho perguntando porque eu realmente não quis saber sobre certas coisas dolorosas sobre si.

Eu acho que é a natureza humana, dizia. Descobri que é útil na vida, você não tem que sempre dizer o que pensa de alguém, porque se não se pousar em seguida, você terá desperdiçado a multifacetada sinceridade. Quando eu digo o que quero dizer é pouso e alguém agarrará o movimento. Há uma defesa necessária, eu quero dizer que tudo o que temos são defesas, e que isso poderia ser uma forma de arte.

Eu andei de terno nesta sala cheia de pessoas e de uma parede à outra havia fotos de todos os personagens que eu já tinha atuado e isso me destruiu. Não me fez sentir bem. Eu sempre me perguntei o que era um ataque de pânico quando as pessoas me falavam. Mas eu fui para casa naquela noite, fui para a cama e tive um ataque de pânico. Eu nunca havia tido um daqueles; foi horrível. Pela primeira vez eu era capaz de entender as pessoas quando elas dizem que poderiam saltar da janela quando se está neste estado de espírito, porque você só quer alívio a partir dele. Foi uma sensação extraordinária. Ao invés de me sentir bem, senti que tudo estava acabado e que de alguma forma eu não tinha sido capaz de me conectar com o que eu realmente queria manter contato – somos diferentes das outras pessoas, disse. Isso quer dizer que somos diferentes de todos. Nós somos diferentes das pessoas que preferem não ser na frente de outras pessoas. Eu disse: “Por que fazemos isso? O que nos torna diferentes? E ela me deu a resposta mais honesta que eu já ouvi alguém dar:

Olhe para mim, olhe para mim, olhe para mim, olhe para mim, olhe para mim…  eu tenho arrepios e os cabelos se eriçam na parte de trás do meu pescoço e isso é tudo.

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Esbarrei no espelho e pedi desculpas

Vez que você estava livre de trauma saiu por aí alegre e tagarela. Indo para lá depois da esquina deleitar-se com prazer e felicidade e isso poderia ser tão estranho como uma conspiração.

Há maneira de ser o que se quer ser, deu pra ouvir. Quis o fim da tarefa no naipe da lisura do seu corpo – a sua beleza era uma espécie de gula divina, eu deveria dizer. Escrevera aquelas palavras com fluidos corporais em seu caderno, como em um novo transe, sim, foi uma entrada muito aguda, muito mesmo. E que seja para o exorcismo de seus próprios demônios! Como mergulhar num buraco negro a tensão entre o mundano e o sobrenatural quando a mente não consegue pensar abstratamente?

Pois que a realidade sempre se alivia com o prazer, já que há o comprometimento de cada um com seu mal-estar generalizado. Ela só pensa em se pintar, cabelos, unhas, lábios… Mas essa era toda a questão: como se passar em pinceladas; e até você conseguir isso, não importa que o assunto seja ostensivo, era pra se ter harmonia entre as partes.

Do início de uma letra, no meio de uns abraços, no final de um dia no campo. A confusão agradável que sabemos que existe cá em nós.

Daniel Egneus
Daniel Egneus

Cantarolando

Na parte da manhã quando eu acordar e o sol estiver atravessando a janela, você encherá meus pulmões com doçura. Preencherá minha cabeça com você. Devo escrever uma carta? Penso pedaços de uma música que eu não consigo esquecer e deixar sair. Eu posso estar perto de você? Posso levá-lo para uma manhã de sol e café imaginando campos pintados de ouro, lá onde as árvores estão cheias de memórias dos sentimentos, nunca te disse?

Quando a noite puxa o sol para baixo e o dia é quase completamente seu e todo mundo está dormindo, mas os mundos são você. Posso ser perto de você? (Ah) oh  [assobios]. Já faz um tempo que, então, eu realmente gostaria de conhecê-lo, mais, você sabe. Eles cantam uma canção assim, gostaria de ir até o horizonte. Apenas para você todas as lisuras estão girando em mim e tudo, tudo aquece. Lá pela linha de tristeza, sim todas as menos definidas listras dos gatos mais frios. Mas então estar-se a refinar, oh sim. E eu quero ver coração coração coração coração e alma.

Coração e alma porra, meu coração e alma. Por instante.

Sabrina Arnault
Sabrina Arnault

Pulos

E havia desistido de ser anjo, ou anja. Ou santa. As asas estavam vermelhas já. Dentro do quarto, quis a nudez, sem blusa sem sutiã, sem calcinha. Estava úmida, sentia-a já nas pernas. A conversa a deixara quente por muitas horas. Um pouco mais, um pouco menos, sentia ser múltipla nessa vida, existia o corpo, mesmo que por muitas vezes preso às narrativas inventadas do dia a dia. Deu pequenos pulos de alegria, o vento frio coloca limites, pele arisca e arrepiada.

Às vezes tinha a sorte de ser lida no transe, nas estrelinhas púrpuras que sentia pular dos olhos. Decidiu há algum tempo procurar apaixonadamente suas narrativas que aceleravam o pulso; o céu estava claro e assim permaneceria, sentia. Gostaria dos pingos grossos que refrescassem a noite que chegaria aliviando a secura do ar. Tomou duas doses de cachaça (entorpecer é quase sempre maravilhoso) que conferia certa delicadeza dos movimentos.

Era bom e sabia que seria bom quando acontecesse. Pulos.

Amy Judy
Amy Judy

Estrada vazia

Tento não ficar na zona de conforto, correr por fora, porque no final das contas, há crescimento nas derrotas. I’ve been waiting too long… dessa forma você poderia trabalhar com as informações que tem à mão: tempo, tempo, tempo, palavras. É uma coisa estranha de se dizer isso em voz alta… você pode trabalhar com as experiências que você tem com seu próprio corpo, suas cicatrizes, a bem dizer. Se incline para cima e mantenha-se. Se não é luta o que está vivendo, então realmente não está a viver. Dia de domingo é dia de serviço, botas de couro e ser o primeiro a chegar. Por ser tão fechado, Noel não podia saber que estava sendo tratado por Basco, pois a ideia de ter alguém invadindo sua intimidade o assusta completamente. Mas nessa noite enluarada fica selvagem, pois tem que tocar o avião pelo lado de fora e colocar os dois pés do lado de dentro ao mesmo tempo. É a forma como lida com a vida, com rituais e medos. Evitando esbarrar em solidões por aí. Pelo túnel se perde nas luzes. Em uma estrada vazia o vento fresco fresco me faz sentir tão bem que sei que eu estou indo rápido demais (eu estou indo rápido demais). O dourado e o vermelho combinam muito bem, muito bem, embora perceba que já não consiga se mover. Sim, realmente assustador.

David de las Heras 1
David de las Heras

Pilequinho

Porque acaba que o dia vai ficando mais leve com o passar das horas. Sentiu aquela paralisia corporal quando acordou, o que é sempre aterrorizante sentir, incapaz de se mover, com medo de mergulhar novamente no sono e se perder. É uma espécie de morte. O quarto baila, já que objetos completamente fantasiosos aparecem nas visões em meio a objetos normais. Uma força de existir, persistir, sobre humana, um sonho lúcido. Brevidade, sem excessos. Confiante daquilo que descobriu na solidão do sono. Acordou hoje de manhã para descobrir uma miçanga perdida num dos cantos do quarto, acordou hoje de manhã precipitado e desvairado. Raios e tempestades caem na realidade, pois os homens criaram limites pensando num ideal (servil) que tira a força de existir. A gente inventa jogos e trapaças para suportar o acordar, e seguir com o impulso de ir em frente, vá pra vida, rapaz. Você pode escolher pertencer à manobra do gado, maldizer sua condição e a dos semelhantes como se não fossem as suas. Corpo desperto, afetado pelo mundo, com as raízes no infinito pois por aqui o corpo não é  mais sagrado. Não precisa compreender nem aceitar, mas percebe que era cedo demais. Que sejam vistos e ouvidos, entorpecidos entre palpites e boas ideias sem critérios. Dos afetos primários, alegria e tristeza, nascem todos os outros. Segue em linha reta desequilibrando-se.

Yangyang Pan
Yangyang Pan

Pensar em seus pés

Era a Regina, era ela. Eu sei a intenção daquelas duas pessoas, eles querem um canal direto com o amanhecer! gritava, pra ninguém. Costumava ser arrogante e carismática, contente e feliz, vestindo roupas coloridas e um grande chapéu com uma pena. Eu realmente não sei o que é ser autêntico, como dizem.  Eu tento fazer cada trabalhinho, porque é importante para mim fazê-lo. O medo do fracasso juntamente com falsas esperanças minam nosso querer, sabe, acaba com tudo. E com esses materiais, estou totalmente à vontade de tentar combiná-los, porque isso é uma maneira muito diferente de trabalhar, tecer essa coisas. só. Aquilo que pode ser realizado através de auto-controle e frugalidade do gesto, introspecção e consciência, que podem formar a base de sua própria personalidade, eita, amém. Este é um cartão de festa e de abundância que pode ser chamado de sorte ou destino. Eu quero lidar com todas as grandes questões humanas, o que me consome. É como se estivesse em uma névoa induzida por drogas – que faz com que se sinta grande e sempre deixa você querendo mais. Mas o que se pode fazer é permitir espaços no trabalho que não excluam a possibilidade de morte ou a alegria ou a beleza e todas essas coisas.” Este trabalho é sobre a morte.

Kris Knight.

Deliberadamente

Talvez. Respira profundo na parte inferior do abdome, comprime com força, pega o ar de toda a parte, ansiedade. Céu azul com nuvens, apreensões sobre o desconhecido. Prende os cabelos com uma bic azul e se sente azul todo dia. O psicodrama estimula a força criativa, palco-mudo. Não seria louca de todo se o momento envolve o conceito de purificação da alma, imaginação, astúcia. Corpo-consciência é um fator-chave, pede para pendurar lá no prego, o xale. Mantendo segredos. Condições ocultas e circunstâncias desconhecidas… Quanto mais você assimilar o sentimento à possibilidade de tomar decisões assertivas, mais você fortalecerá os Eus ainda vivos, amém. Repete, amém, amém, amém. Mas já sabe, basicamente a mesma vida. Eu não tenho e eu não tenho. Comemora a colheita das folhas de chá, regresso à casa, gerando um sentimento adequado de gratidão pelo que foi feito até agora. Preciso de coisas materiais e música alta, já que em cada esquina há um tema diferente, e muita conversa fiada. Podia ser agora madrugada ou estar em viagem de trem. Põe o pé no chão frio, experimentando um sentimento de pertença. Nostalgia e feliz memórias. Saudade de sabe-se-lá.

E está muito inventiva em meio a emoções turbulentas, apesar de tudo, boa vontade.

Izziyana Suhaimi
Izziyana Suhaimi