Não damos nascimentos de liberdade

A intenção era dar um nascimento elevado aos pensamentos, mas um pressentimento me dizia que os pensares exigem uma linearidade que é difícil. A verdade é encontrada na vida. Difícil transcrever os fatos, as coisas que vivi , entre todos os sentimentos possíveis, sem ficar absolutamente confusa. E se recortarmos, e isolarmos-os, veremos naqueles seres livres que eles não são a verdade absoluta. O sistema acusatório de crimes é dividido em três: o que é dito, o que é feito, o que é pensado. O problema que surge é gigante (ainda adormecido)  e o que fica claro quando a gente para pra pensar é que protagonizaram o episódio de forma abusiva – uns em relação aos outros. Difícil foi aceitar que cada desejo quando transformado em ato, pode trazer infelicidade e que o contentamento é impossível.

Olhamos as pessoas e as aprisionamos com nossos olhares e vontades, o conhecimento que possuímos não é verdade última e imutável.  Constata-se nesses pensamentos, sem julgá-los, a necessidade de predomínio exercido sobre outros.  Praticando o desligamento de pontos de vista sedimentados –  a fim de estar aberto a receber outros –  para que cada vez mais nos cansemos de chegar repetidas vezes à frustração.

Nós vemos que nossas relações podem ser completamente diferentes.

Houve celebração.

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Um estopim detona a explosão

De onde veio esse sentimento ruim, esse fel?  O descontentamento enorme esparrama. Não é fácil localizar a fonte, o cerne. Surgiu dos atos agidos, dos atos desejados, dos atos ainda nem agidos? A irritação não resolverá problema algum – esse vácuo vai acumulando forças que não têm por onde se resolver, ainda que o problema exista, o caminho tomado é onde a desmoralização acontece. A desmoralização é um desnude incômodo, é se tornar pecador. A sensação de invasão é incômoda e desleal. O que foi dito e pensado era também desleal? Sim, por certo. Ainda que não em atos?  Os atos foram questionados, os atos tentaram ser – outra coisa. Foram contaminados e foram feios. Muita proposta generalista substituindo nossa vontade inicial. Um estopim detona a explosão e a(s) verdade(s) aparece. A minha verdade, a sua verdade e A verdade – como dizia aquele sábio sem cabelos.

 

Acaba que  torna você sensível às necessidades dos outros, nesse  processo mental ou espiritual de cessar o sentimento de ressentimento ou raiva contra outra pessoa ou contra si mesmo. Em termos do relacionamento entre o que perdoa e o que há pra ser perdoado. É o esquecimento completo das ofensas de modo sincero e generoso. Tampouco é motivado por orgulho ou ostentação. A gente se apega às memórias que não mudam como as pessoas podem mudar. O movimento sente-se em sintonia com a primavera, ainda que pousando no inverno.

 

Toda nudez será castigada e eu não sei se quero ser perdoada…

 

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Igual spray de pimenta

Em um mundo caduco, onde a sucessão de erros escorre numa corrente de pessoas de bem, indignadas, envergonhadas, cheias de si e de razão. Considerei a enorme realidade e não distribuirei entorpecentes ou cartas suicida. Não há movimento que se sustente ou, no mínimo, que se sustente de maneira consistente. A manipulação assusta, mesmo que inebriante. São tantos pontos obscuros que eleger um chega a ser cruel. E sinto-me à vontade para dizer algo até que… e tudo voltaria ao normal…  ou eventualmente a negativa dos interlocutores deixaria claro que nada poderia ser feito quanto à questão. Mas a resposta vem em modo de  força desproporcional catalisando um processo que talvez levasse um tempo infinitamente maior para se cristalizar. Dito e redito por todos, os fins justificam os meios. Será que se apercebem que a ira, a vergonha, e aquilo tudo que foi dito também em inboxs alheios (e não lidos, não abertos e não escancarados, não violados) são duas faces da mesma moeda? Joguemos às claras então, abram suas gavetas.

Desta vez, porém, o(s) erro(s) feio(s)  criou um monstro que se espalhou por todo o corpo e coração. A partir de segunda-feira, a questão definitivamente já não girava mais em torno de amizades (embrulhadas em papel celofane), o que foi feito ou deixado de fazer, girava em torno de uma violação (naquela lógica de que os fins justificam os meios), tão despudorada que o corpo enrijece. Sinto-me presa à vida e ao olhar julgador de quem não respeito. Mas também inquieto por perceber claramente que não se tem ainda uma ideia muito clara do que se está fazendo ou de como prosseguir. Vale se formos enjauladas – o que resulta numa combinação muito, muito perigosa.

Sinto-me muito ofendida. E sei que ofendi também.

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Do sorriso e da elegância

Porque a música é detalhe, sua própria existência e personalidade. Vi pouco, era pra ter visto mais. A vontade do bem estar está associado a uma ideia de encontros e comunhão – que se passa numa fração de segundo. Transforma sem dó os conflitos internos, indo além das fronteiras do ego – agora ancorados nos vastos enigmas do corpo e da alma.

A fonte dessa experiência são  reflexos externos, fazendo com que a beleza se manifeste no mundo. Como é que um gesto ou uma palavra ou um som, um timbre… podem nos transportar para um sentimento grandioso que nos pareceria eterno? Foi como ver um o guerreiro desperto que trabalha pela iluminação de todos os seres – do espaço claro ao profundo escuro, com um foco de luz, quase cinema – um caminho espiritual em si mesmo. Ele tocou as coisas sem muito esforço, valendo-se mais do sorriso e da elegância, num êxtase, interminável, atemporal. Parecia tão fácil, tão simples. Sabedoria da igualdade, do espelho, caminhando junto, perto. Entender os outros no mundo deles e não a partir do nosso, com uma incrível capacidade de falar no dentro das pessoas.

Saí em águas, intensa, bonita, em carne, trêmula. Mais uma manifestação do puro afeto.

A sobrevivência não é uma habilidade acadêmica

Quem viu, as granadas que estraçalharam dentro do peito, viu que ninguém notou o papel da discordância dentro das vidas sem examinar nossas muitas diferenças.

O que isto mostra sobre a visão é triste e não têm nada a dizer sobre existencialismo.

Pode lembrar amargamente das palavras que lhe foram roubadas ainda dentro da boca.

Elas ganham um significado que nunca tiveram.  Apenas os perímetros mais estreitos de mudança são possíveis e admissíveis. Promover a mera tolerância de diferença, procurar novos meios de ser no mundo pode gerar a coragem e o sustento para agir onde não existem alvarás.

Mas ela não era daquele jeito, restam os  conflitos na esfera do individual. Até ficar de um jeito que não era, não era assim. É do ser humano, mesmo não fazendo sentido. As mortes vêm e vão, que a luz mais bonita do ano é a do outono, repete para si como uma ladainha enquanto foi lá num armário, trouxe uma caixa de sapato cheias de palavras.

Todas continuarão guardadas – sobre o erótico, sobre cultura, feminismo, silêncio. O duro é não valer o que pensava. Exaspera em pensar que as condições que levaram ao desaparecimento por certo levarão outras ao mesmo fim.

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Eu sinto seu beijo no meio da noite

Não apenas pela beleza do colo, da nuca, do peito, mas pela eletricidade que acontece sem controle. O homem que me olha, de um jeito, sem respostas definitivas, verdades últimas. A sua percepção das coisas aparece mais completa, e este aspecto favorece  os escritos e as trocas intelectuais – e que revela igualmente que pode surgir felicidade e liberdade, construir relações positivas em todas as direções.

A música é a maior das artes, e seus timbres, os timbres (…),  imprimem movimento à sua existência. Nosso coração e nossos pulmões afirmam com toda a ingenuidade: a paz eu levo comigo. É, considero todo mundo louco de espanar a poeira. Como está sua mente? A sombra, a luz, a pouca luz, nossa felicidade, nossa alegria, nossa energia, nossa respiração, nossa vida pulsa em cima de texturas  instáveis, até que chega o silêncio.

Ele desenhou imagens com linhas mágicas, e houve primavera e girassóis.

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Gilbert Garcin, Save nature, 2010

 

 

 

 

 

 

Foi isso que entendi

Porque cultivam a preguiça existencial. Sai de nariz em pé, mas de alma cabisbaixa, a memória não diz respeito apenas ao passado. Ela é presente e é futuro. Que sonhou cheia das certezas e transbordando de paixões, e não queria morrer. Ó, sei que ela acabou. E não quero ficar batendo de frente, impondo minhas idéias e muito menos acatar idéias que não estão de acordo com o que penso – disse. E saiu batendo de costas, e fazendo mais buracos inflexíveis. Sair e ficar não impõem nada sozinhos. Os movimentos, as palavras e as personalidades reveladas, sim. Talvez era exatamente isso o que queria. Justifica seu texto minucioso como uma ode à sinceridade. Desconfiaria ela que age o contrário? E contem comigo para o que precisar – disse.

 

 

 

 

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Se for tudo ao mesmo tempo, melhor ainda.

Quando você se preocupar em ter uma imagem boazinha, pior será para todos. Costumamos agir dentro do esperado e preferimos fingir que não, cada vez mais difícil não se encaixar, afinal. Cada escolha que você fizer será o dobro do esforço para provar  o que considera mais pedregoso. Você tenta se concentrar em superar o momento o que envolve uma maior organização doméstica. Engajar-se agora na tarefa crucial de reconstruções culturais, na nossa medida de empatia, enquanto não cabemos mais nas nossas vidas (começamos a agir cegamente outra vez). Aí a coisa efetivamente começa. 

 

 

Um homem se aproximou de mim em um jipe.

“Quer subir?”, perguntou-me.

 

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Ficou maravilhado

Até se perguntaram se era para tanto. Sim, é para tanto. Atendendo a um chamado que sempre se anuncia num alvoroço, – não se tratava da força, mas da leveza. Efeitos sonoros e falsas transmissões de rádio e TV, os pelos dos braços se arrepiam, e foi perguntar na casa  se tinha água fria na geladeira. Tinha. Exigia muito mais do que apenas… Tanta vontade que eu tenho.

 

 

 

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Não tão incrível assim

Não perceberia sua própria loucura?  A falta que deveria cobrir era grande demais. A irritação foi tomando conta, não haveria como ser responsável por tamanha carência, tamanho apego, onde não haveria de ser. Diz o texto impecável demais, preciso e tranquilo, como um desabafo, com eloquência e sinceridade. Pra ser amigo tem que comer um kilo de sal com a pessoa, dizem. E veio o sufocamento, ou pela angústia, ou pela necessidade de recolhimento seguidamente desrespeitada e imaculada. Será que perceberia o peso de sua mão na garganta, a força, os hematomas (que ela achava que já tinham saído) …  E é hora de largar. Uma forma corajosa de educação que aceita as tentativas e os erros como parte do processo. De certo modo essa incompreensão gerou um desamor. Um ciclo de vida, que vai, se abre, se fala, se come, e tem por isso suas maiores fraquezas diante do outro. Antes tivesse ficado calada, quem sabe assim não sentiria o que veio a seguir. Haveria como voltar atrás, sem perdas e danos, tentava. O seu feminino clama por ser também cuidado.

 

 

A única opção é dar a cara pra bater. Uma descoberta.

 

 

 

 

 

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A verdade, mesmo, recebi em forma de tijolada

Outra maneira fazendo com que você entenda que o contratempo, o contratempo, o tempo todo solicitará de você uma autoridade. Apresentar e contar uma história de forma enxuta, condensada, capaz até de, preguiçosamente, convidar o cérebro a praticar sentimento. Ele topou contar tudo, – qual a verdadeira prisão em que se encontram? Saiu de lá calado, me deixou em casa e nunca mais tocou no assunto. Não é assim que a gente não tenha alternativa, haveria de ter precisado de muito para que um nome fosse apenas reduzido a uma palavra naquele exato momento mesmo. Gozei pela primeira vez em minha vida enquanto ainda nos beijávamos.

 

 

 

 

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Quartos abarrotados

Meu amor, existe a  ferocidade dos quartos abarrotados, impedindo de produzir algo novo, tente entender. A repetição é uma perpetuação, fico aqui comendo meus desejos e minhas verdades. Recomendam calma, pureza e amor no trato com as repetições e perpetuações alheias. É isso, não é? Portanto te informo que não ando por aí à procura de reviravoltas, apenas de bons prosseguimentos. Hei de ser perdoada, são menos de dois gloriosos anos que consegui um reencontro, diferente, melhor. Diferente do ‘fazer o que manda seu coração’ que  nos leva ao mesmo padrão (coração bobo coração bola).  A gente se ilude e espera que nos livre das altíssimas despesas de manutenção – coração, vinhos e táxi. Sim, envelheci, meu amor, e fico cada vez mais… levemente e sutilmente…

 

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Saul Leiter, Don’t Walk, 1953

 

Ele choveu por aqui

Quando me dei conta estava celebrando o mundo das cores vigorosas de novo. O modo como grandes distâncias de vazio e calma são interrompidas por ilhas de tumulto, ruído e gente com esta súbita necessidade de estar sempre se movendo para lá e para cá, atordoa. Você pode até terminar se dispersando para que você não sinta um desnecessário cansaço mental, justamente para ensinar, escrever, e também para aprofundar-se mais em questões de ordem espiritual, discutir estas questões. Minha zona de conforto tem sido a melancolia, que conheço bem. Muito bem.

O mundo das cores vigorosas é mais leve mais rarefeito e quero estar assim, como numa crônica de um amor novo, de novo. Querem observar bem essas coisas e praticá-las.

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Franco Fontana

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Delicadeza

Uma mente agitada faz um travesseiro inquieto, pensando no amor: corpos e palavras. E cada segundo de lucidez é quente. No fundo sabendo que o outro lado da ansiedade é a liberdade, simples assim, decidiram namorar, que outro nome poderia ter aquele encontro que se estendia por vários outros? O de dentro e o de fora, pensava enquanto observava seu corpo, suas articulações, o desenho do pé, das unhas. Observava minuciosamente, de ângulos diferentes, sempre de forma furtiva e deliciosa. Guardava esses tesouros invisíveis e de quando em quando perguntava-se se era isso mesmo. Se era assim que acontecia. O de dentro e o de fora. Ouvia as palavras, ouvia seu corpo, comia tudo, insaciável que estava dele. Queria se iluminar, e sorver.

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Coração

A contradição nos faz sair do lugar comum do pensamento retilíneo. Estou feliz como se fosse te ver amanhã, acompanhando o destino de quem toma rumo desbaratinando por aí.  Me deixando inundar por uma letargia, uma preguiça para poder curtir esse friozinho na barriga que tenho em momentos de ansiedade. Penso em como reajo a algumas situações, tento lembrar desde quando tenho esses sinais, mãos levemente trêmulas, úmidas, coração na boca. Aprendi nessas horas a respirar e ser racional, para que não me deixe levar, e me deixar perder o controle de.

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Mordi sua tatuagem

A admiração é o combustível da vontade. A vontade de comer, engolir, possuir – sem o animal em nós somos anjos castrados. Pra quando os beijos já não são suficientes, e as lambidas sejam incontroláveis -. E morderia de novo.

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Menos tola

Deus que abençoe a morte com que me salvastes de uma vida tola – leu isso pela manhã, palavras de Tom Zé. Logo Tom Zé, um dos seus xodós. De vez em quando, as coisas faziam sentido! Havia encontros que tudo pra mim tinha valor naquele momento. São momentos em que tudo faz sentido, tudo fica bem. A gente se derrete por mais  um pouco daquele calor. Quero que acabe não, quero não. Esse estado flutuante e intenso era estranho, como se comporta quando se está flutuante e intenso? Vida tola, vida ordinária – tudo por uma vida menos.

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Leve

Arrumou suas coisas na bolsa, pensando em como ter menos e ser mais simples.

Deve ser leve precisar de menos objetos, e, principalmente, menos objetos na bolsa. Faz um caminho para ter pouco, cada vez menos. Qualquer felicidade excessivamente buscada fora de nós é absolutamente temporária, pensa naquela frase que acabou de ler.

Ter muitas coisas devia ter um motivo. Só que não conseguia descobrir se era uma forma de romper o isolamento, de se sentir um pouco menos solitária. Ahn, mas entender o motivo ajudaria a ficar mais leve e a escolher alguns motivos que expliquem suas ações. Ignorar não estava adiantando. Mas agora que resolveu ela iria em cada detalhe de si mesma para isso. Ela sentiu um impulso maior no que diz aos seus assuntos pessoais. Se sentir leve. Como essa bolsa pesa, pensou.

Preciso de bolsas menores, preciso precisar menos. O acúmulo é cansativo, e eu já estou cheia de andar capengando.

 

 

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ffff

It’s ok thinking about ending…

E teve aquela que ficou 8 anos sem dar pro marido porque ele a destratava. E escolheu, você não encosta mais a mão em mim – ela não entendia porque ele a amava no sexo e não no dia a dia. E ele teve um caso, cinco anos, e ela foi humilhada. Mas contou que virou a mesa, quebrou pratos, berrou verdades, e que a partir dali ele fez tudo o que ela quis. Contou isso alto, berrando, fazendo todas em volta rirem. Em um casamento de num sei quantos anos metade foram sem sexo, com traição, com desgosto.  E teve aquela que se julgava boa esposa, que já tinha aproveitado a vida de solteira e que agora o casamento era algo muito valioso e que valeria a pena manter. A vida dela teria pouco sentido sem o casamento e ela sabia. Depositava ali seu cotidiano, seu consumo, sua vida e lá pra si dizia que não se pode ter tudo afinal. E outra que ama um homem casado, e ama e ama. Se contenta com espaços (entre família) que eles conseguem, com o sexo nirvânico, com os doces que ganha, e ali permanece, vivendo esse amor sem futuro, evitando pensar para não estragar. Tinha momentos de lucidez, de que aquilo não estava sendo justo com ela mesma, ou do quão limitada e pequena a posição de amante, mas, silenciava sua insônia com chocolates e algumas coisas boas de comer. Aquela que se contentava em ser a última opção da noite, sempre ia pra casa com o moço, bêbados os dois, se convencia de que essa forma era uma boa forma de amar. Já que ela gostava de sexo com ele também, e queria estar acompanhada  naqueles finais de noite. Os dias que se seguiam eram de evasivas, desencontros, estupidezas, que eram engolidas no encontro seguinte. Entristecia, mas não dava ouvidos quando alguém lhe dizia que ela seria maior que isso. Ela se via exatamente daquele tamanho e naquele lugar. Ela não era feliz. E tinha aquela, a mais triste de todas, que era muito politizada, cheia de palavras e discursos, de posturas e composturas. Viveu um relacionamento abusivo durante sete anos e fazia exatamente o contrário que suas palavras diziam. Mas ela pouco sabia disso, afinal, era uma equação difícil de se resolver, como ser mãe, esposa, dona de casa, profissional sem ser submissa. Ela simplesmente não entendia como isso se dava na prática. Costumava fazer tudo o que podia para que o outro gostasse dela. Ela sentia que ele desgostou da vida com ela quando ela engravidou, mas ela insistia, porque mais importante que ela estar bem era estar casada. Ela se sentia diminuída por ter desistido da profissão, sua auto estima foi se estilhaçando. Tinha aquela outra que se agarrava nos ciúmes, e por isso se submetia às vontades de controle do outro como uma troca justa. E tinha aquela que achava que era pra ser assim mesmo. Um ou outro tanto faz, são todos iguais e ficar sozinha é o demônio.
Traições, tensões, maus tratos, insultos, mentiras.
E ainda tinha gente que defendia que casamento era assim mesmo.
E ‘ele’ se aproveitava da fragilidade ‘dela’, aproveitava muito, porque ela foi criada pra ser assim. E ele também. Nem tudo o que a gente aprendeu é pra ser. Não é porque as coisas sempre foram que devam continuar.
It’s ok thinking about ending all this shit.
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Mona Kuhn, Lyric, 2012

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Opcional

Eu pensava em caminhar perto e do lado. Um pouco mais, só um pouco mais. Eu pensava em desejo tornar-se certeza. Eu pensava que já estava pronta. Agacho meus pensamentos. Agarro.

 

A agonia se faz inevitável, então. Grito muito, e muito alto, porém muda. Nunca acabo de pagar essa dívida.

 

 

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De mudança

Desde que o conheci ele está de mudança. Mudança de estado civil, de casa, de trabalho, de pele. Ele me contou que precisava mudar, que sentia que sua morada não era ali naquele apartamento. Tempos diferentes, o que envelhece a alma e o que passam dias. E quando os tempos se afinaram, ele foi. Pra roça ele foi. Sem água, sem muro, com patos, gansos, cachorros, monte de gente.  É engraçado, que quando a gente sente a gente sente. Conheci-o endurecido por tantas regras, modos de fazer e usar. Hoje é a pessoa mais acostumada com a transição que conheço. E para isso ele precisou de silêncio, velas flutuantes, cartas coringa, ouvindo o relógio da matriz, que bate de meia em meia hora, só de vez em quando.

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Um caminho para o minimalismo

Costumava catar arruelas enferrujadas nas ruas, enchia os bolsos, a bolsa, a mochila. Andava olhando para o chão, sempre procurando. Sempre. Era lindo o encanto que as cores lhe causavam assim como a forma circular. A necessidade de acumular e juntar coisas e tê-las pela beleza que esses objetos lhe causavam, foi dando espaço a uma vontade do mínimo. Indo de uma ponta a outra, do acúmulo à limpidez. E é onde pouso, arrumando objetos, desfazendo de papéis, pesos, vidas, bolos, ciscos, já imaginando como serei quando minimal.

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Marie Amar

 

Ele saberia da sua própria insinceridade?

Tinha bons modos, falava bem, caminhava bonito.

Sabia usar da gentileza como forma de sobrevivência social, charme pessoal. Era realmente um encanto, queriam estar perto. Essa impressão se desfaz  nos detalhes. Com um pouco mais de convivência, um pouco só estando perto, o carisma se torna caricato. Mas prega uma bonita versão de si mesmo, em alto e bom som.

Observo os gestos, a impaciência no olhar, a respiração presa por segundos para recuperar o fôlego até acabar em uma risada nervosa alta, naquela tentativa de embaçar sua pessoa. Uma doce vingança, você me vê, me deseja pelo meu sorriso ininterrupto e pela poesia que faço –  mas você não me tem.

Duas águas pra mim nessa noite e estou tranquilo – diz.

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Marie Amar

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Mas não era esse o caso

Você tem razão. Se me escreve, mais profundamente penetram as raízes. Se se consegue transformar o silêncio em algo confortável, muito proveito se tira disso. Tentando realizar uma intersecção entre a horrorosa necessidade de estar só com a esperançosa ideia de que possa dividir o estar só com alguém.

Aí, nessas horas a angústia me abraça e permanece, como um alerta, um incômodo, uma pedra.

Eita pieguice inevitável.

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Philippe Ramette, Rational Exploration of Underwater Funds : the contact